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A noite é clara, o coração é mudo E a palavra que eu vou dizer, e fora, A ser dita, a noção na alma da hora, Passa, como um murmúrio vão do vento… E eu, só na noite com meu pensamento Não me distingo do que me rodeia… E então é só real a lua cheia…

Excerto do poema “O rio, sem que eu queira, continua” (1919)

Neste excerto, a preposição “em”, que inicia a expressão metafórica “na alma da hora” (v.3), mostra que a alma é concetualizada como um espaço estruturado pelo esquema imagético CONTENTOR: a alma é um espaço delimitado no interior de um espaço mais abrangente que é a “hora”. Nesta perspetiva, a alma é o conteúdo principal da hora. Para o poeta imaginar a “alma da hora”, teve que estabelecer uma correspondência metafórica entre a hora e o ser humano: Ser humano (domínio fonte) → hora (alvo).

Depois, estabeleceu uma outra correspondência derivada da primeira: tal como o ser humano tem uma alma, a hora que designa metaforicamente o ser humano pode ter uma “alma” também e, como a alma é perspetivada como a parte do ser humano que o distingue de outros animais, o conceito de “alma” pode designar metonimicamente o ser humano, como mostram as metonímias seguintes, estruturadas pelo esquema imagético PARTE-TODO: “A aldeia estava deserta, não encontrei uma única alma [pessoa]”, “Felizmente, ainda há almas [pessoas] generosas”. No entanto, quando o lexema “alma” é usado fora da relação metonímica Parte-Todo, o conceito pode ser estruturado pelo esquema imagético CONTENTOR em combinação com o esquema PARTE-TODO. Por exemplo, podemos verbalizar o que sentimos “dentro da nossa alma” e “Ter um peso na alma”. O conceito de “ser humano” é estruturado pelo esquema imagético CONTENTOR e este articula-se com o esquema imagético CENTRO-PERIFERIA porque a alma ocupa um espaço central relativamente ao corpo, à semelhança da localização atribuída no espaço aos objetos aos quais damos valor (por exemplo, a zona central de uma casa é tradicionalmente destinada aos aposentos mais importantes e dentro da casa há a considerar o centro da sala ou de um quarto e no interior destes espaços os objetos que mais se destacam em termos visuais ocupam o centro de outro espaço: o centro da mesa.). Opostamente, os espaços e objetos desvalorizados ocupam espaços periféricos: “Deixar

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alguma coisa num canto da casa”, por exemplo. Isto quer dizer que a valorização e desvalorização de um objeto num espaço se reflete na posição mais ou menos central que ocupa num espaço, pelo facto de estar mais ou menos alinhado com os órgãos da visão no momento da perceção.

Como dissemos anteriormente, o poeta estabeleceu uma correspondência metafórica entre corpo e hora. No entanto, o poeta não menciona o corpo, mas a mente, porque “mente” pode designar metonimicamente uma pessoa, como exemplifica a expressão metafórica “Mente brilhante”. Nos poemas ortónimos, o corpo, enquanto realidade material está ausente e por isso o Eu é a sua mente, ou melhor, é a mente do Eu tal como este a imagina. O conceito de “mente” é estruturado pelo esquema imagético CONTENTOR: A MENTE É UM CONTENTOR. Considerando a correspondência entre hora e mente: A HORA É O EU (A MENTE DO EU). No entanto, é necessário ter em conta que a “hora” é a “mente” do Eu sem deixar de ser uma subcategoria de Tempo, ou seja, o item lexical “hora” delimita temporalmente a perceção que o Eu tem da sua mente e, por esta, razão, a metáfora A HORA É O EU é válida considerando individualmente os poemas, uma vez que cada poema verbaliza uma experiência diferente em uma “hora” diferente. Neste contexto, a “hora” é um contentor metafórico, tal como a mente do Eu é um contentor metafórico. Ora, tal como o corpo humano contém uma região central que é a alma, a hora-mente contém uma região igualmente central, designada por “alma”. O conceito de “alma” é estruturado pelo esquema imagético CONTENTOR e, considerando que a hora-mente é um contentor metafórico, a alma-contentor é um espaço central no interior da hora-mente, o que mostra que o esquema imagético CENTRO-PERIFERIA estrutura a relação entre a “alma da hora” e a hora, assim como o esquema orientacional DENTRO-FORA, visto que a “alma da hora” existe dentro da hora.

É possível que “alma” designe o contentor metafórico das emoções do Eu num dado momento: A ALMA É UM CONTENTOR DE EMOÇÕES. Neste caso, a alma corresponde às emoções experienciadas pelo Eu num dado momento e a hora corresponde à mente do Eu que, para além das emoções, contém outras capacidades cognitivas.

Sintetizando o que foi dito: O EU É A SUA MENTE [NO DECURSO DA HORA] → O EU É A HORA. A MENTE É UM CONTENTOR DE PENSAMENTOS, EMOÇÕES, RECORDAÇÕES. A ALMA DA MENTE → AS EMOÇÕES EXPERIENCIADAS PELO EU NA HORA.

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Como mencionámos em análises anteriores, a mente do Eu e a hora são a mesma entidade: A HORA É A MENTE DO EU éuma metáfora em que ambos os domínios são reversíveis, (como é referido por Lakoff e Turner (1989) a propósito de um tipo de metáforas que designa por “image-metaphors”220) uma vez que tudo o que sabemos sobre a entidade Eu diz respeito a pensamentos e emoções e que “hora” designa o espaço de tempo em que esse Eu perceciona a sua mente, concetualizada como espaço-contentor e por isso a “alma”, que é a metáfora das emoções, ocupa a zona central do espaço mental do Eu. Tal como no corpo a alma é central e o corpo periférico, também a emoção é central no espaço mental do Eu, no interior do qual as restantes capacidades cognitivas são periféricas. Para além do esquema imagético CONTENTOR221, o conceito de “hora” é estruturado pelos esquemas imagéticos DENTRO-FORA222, visto que a alma se localiza dentro da hora e CENTRO-PERIFERIA223, uma vez que falar em “alma da hora” pressupõe que a hora é um espaço organizado do centro para a periferia.