3.1 Identity
3.2.4 Israel’s Ethnonational Regime
A educação da qual estamos nos reportando se refere àquela que ocorre em espaços tanto formais quanto informais, desde que tenham a intencionalidade de formação
emancipatória dos sujeitos. Nesse sentido ela se dá não apenas na escola formal, mas nos movimentos sociais, organizações não governamentais, comunidades, associações, grupos.
No entanto, essa educação não pode ser qualquer tipo de educação. Fica a questão: que educação poderá promover processos desencadeadores de autonomia e emancipação? Uma educação libertária poderia estar sendo gestada em bases autoritárias, de monopólio do saber, em que os sujeitos sejam impedidos de se expressar?
Nosso intuito não se reporta à educação apenas como uma restrita apropriação de conteúdos, mas à necessidade de instigar o pensamento crítico sobre o mundo, para além da mera sala de aula. Um processo que ensina não apenas os assuntos em pauta, mas as experiências desencadeadas na práxis, podendo ser sentidas, refletidas, pensadas, problematizadas e elevadas a níveis diferentes do primeiro momento. No caso da experiência em estudo podemos evidenciar como momentos privilegiados dessa natureza a experiência desencadeada pelos processos de intercâmbio proporcionados pelas visitas às experiências em curso que possibilita uma experiência empírica, dialógica, reflexiva e desencadeadora de construção de processos outros de concretização de alternativas semelhantes.
Uma educação para ser libertária tem que estar munida de uma práxis que proporcione o acesso a processos além da fala, da leitura, da escrita, da expressão corporal, da liberdade de pensamento, de movimento, de criação e de invenção. Isso se justifica numa prática educativa em que sejam experienciadas no decorrer do seu processo formativo, na busca permanente de aproximação entre teoria e prática.
Eu acho que a maior aprendizagem de minha vida, foi assim, exatamente isso, você ser, você buscar o aprendizado fora da sala de aula, que é uma sala de aula muito mais ampla, que é o setor da popularidade, você recebe o apoio do espaço, de formação popular, você é um produtor, você comercializa, você coordena a associação.19
É imprescindível nesse tipo de educação estar pautado num processo dialógico entre os sujeitos. Educação essa que está em permanente movimento de produção, sendo pautada na crítica e autocrítica dos sujeitos envolvidos. Porém, pautada em princípios de
19 Fala de um dos entrevistados para esta pesquisa, residente no assentamento de reforma agrária Padre Gino
respeito à vida, ao ambiente, ao humano que valorize dimensões de cooperação, sem abrir mão da luta necessária em manter o que se conquistou e buscar justiça e equidade social.
No entanto, todos nós sabemos que a educação escolar é apenas uma parte da educação que as pessoas vivenciam ao longo da vida. Há outra educação, que não se realiza pelo escola, e que é fundamental na formação do indivíduo e da sociedade. Ela está no contexto familiar, nos espaços de trabalho, lazer, comunitário e pode ser realizada pelos mais diversos veículos de transmissão de conhecimentos e habilidades. É também um forte transmissor de valores culturais, normas e comportamentos. (HADDAD, 2011, p.27)
Quando o humano se descobre sujeito, gera uma força interior que transpassa as relações dos grupos que lutam por objetivos comuns. Concretamente, o percurso histórico nos faz perceber que as conquistas foram se dando a partir do desenvolvimento de um movimento que mobilizou forças humanas em busca de realizações coletivas necessárias à transformação de suas realidades.
Freire (1987) traz à tona a evidência do sujeito do processo educativo, busca evidenciar a importância da potência afirmada ao dizer sua palavra, de construir o conhecimento, assim como a possibilidade de transformação da realidade. Evidencia o educando em seu movimento de constituição historicamente condicionado, mas aberto à transformação de sua realidade.
O humano é eminentemente um ser de incompletude que se evidencia não só porque tem necessidades biológicas a serem satisfeitas, além de que precisa do outro para a proliferação da espécie, mas porque é no outro que se concretiza sua humanização como algo não mais apenas de natureza, mas de criação que esse sujeito vai sendo capaz de inventar a partir das necessidades que surgem na sua realidade singular e coletiva.
Essa abertura e incompletude do sujeito humano que aparece como um sujeito inacabado é o que possibilita a ampliação da sua natureza, que não se limita ao que foi estabelecido pelo biológico, mas é sempre um ser de possibilidades, não podendo ser dominado em sua completude, visto que a dinâmica da natureza humana impossibilita um enquadramento. Daí a dificuldade da apreensão de uma epistemologia linear em estudos humanos.
O que parece uma necessidade ou fragilidade pode ser uma potencialidade, um desafio para construção de outras possibilidades. Porém, a inventividade humana não é
obra de uma mente que pensa idealmente, daí surgindo ideias nunca postas. O conhecimento sempre parte de uma realidade, de algo sobre o que se pergunta e se deseja responder. Dinâmicas instigadoras de indagações são ambientes férteis a produção de conhecimento, de inovações. E isso repercute nas subjetividades humanas que estão em permanente movimento; o humano é um ser de movimento que não precisa necessariamente do outro para se movimentar, mas o outro mexe na dinâmica desse movimento.
Dessa forma, concebemos que as nossas subjetividades se produzem e se refazem nas relações que estabelecemos com os outros sujeitos e com as condições que nos são favorecidas. Essa perspectiva é evidenciada em Marx, assim como em Vygotsky, ao reconhecer a necessidade de relacionar o sujeito com seu mundo. Nosso intuito é buscar pistas de como se dão as transformações subjetivas frente às transformações sociais. Como nos constituímos enquanto sujeitos?
O processo educativo permanente em si não desencadeia processos de transformação dos sujeitos, mas a transformação das subjetividades depende de interações significativas com o outro. São as interações propiciadas nas relações educativas ao longo da vida que promovem as possibilidades de que ocorram interações de saberes, valores desencadeando a apropriação e criação de cultura: “A gente vai conhecendo mais experiências, vai enriquecendo o trabalho, nossa parcela, nossa comunidade.”20
O encontro promove relações complexas que não se limitam às dimensões econômicas, pois é na relação com o outro, em uma relação social, que se desencadeiam processos de transformações singulares. Em nosso campo empírico, é nesse encontro que detectamos a geração de relações afetivas que não existiriam se não fossem as feiras.
A história singular proporciona significações diferenciadas, portanto, o que vai desencadear processos de transformações do sujeito carrega uma complexidade tal que se diferencia para diferentes sujeitos. Porém, alteramos a realidade e somos alterados nessas transformações. Esse processo promove sociabilidades que não ocorreriam fora daquela realidade.
Retomando o pensamento de Vygotsky, a aprendizagem desencadeia processos de desenvolvimento que não ocorreriam sem essa aprendizagem que é mediada pelo mundo e
20 Entrevista realizada com participante da feira agroecológica da UFPB, membro do assentamento Dona
pelo outro. Assim, aprendizagem não é desenvolvimento em si, entretanto, é imprescindível aos processos de desenvolvimento humano.
Processo de educação permanente é imprescindível na transformação de relações estabelecidas entre os sujeitos que se relacionam, seja na organização e realização das feiras, seja nas relações com os consumidores. A apropriação cultural contribui para a criação de outros processos culturais. Além de que a presença do outro proporciona um espaço dialógico.