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O ensino de que resulta a aprendizagem da composição da narrativa de história - bem como do relato ou de quaisquer outros tipos de textos que circularam

e circulam nas formações sócio-histórico-culturais humanas - é compreendida como um trabalho que ultrapassa os limites de quaisquer tecnologias já inventadas pelo homem que lhe facultam grafar e transmitir informações a distância. Todavia, o acesso a estas informações implicam o processamento cognitivo das mesmas por meio de conhecimentos prévios e, para tanto, não se pode subvalorizar ou ignorar a aprendizagem da descodificação desses sinais gráficos sem a qual sequer se pode ter acesso às informações por eles objetivadas.

Deslocar-se entre esses sinais e por eles identificar informações, convertendo-as em novos/outros conhecimentos de mundo, de sorte a romper os limites das letras que integram o sistema do alfabeto, é ingressar no mundo da leitura e descobrir a vastidão dos saberes enciclopédicos produzidos pela humanidade. Estes saberes não estão divididos ou subdivididos em blocos organizados de modo a se poderem diferenciar quais deles foram produzidos pela língua oral e quais foram produzidos pela língua escrita; contudo, ambos se mantêm a disposição dos leitores que buscam aprendem a ler significativamente os textos escritos.

Mas este é um trabalho intensivo e extensivo, de que resultam estas duas denominações referentes às práticas de leituras, implicadas uma na outra: o trabalho intensivo é dado pelo esforço de compreensão do texto que se busca ler e que, conforme demonstrado acima, implica a aprendizagem e domínio de habilidades de comparação e de síntese do vasto conjunto das informações processadas. O trabalho extensivo é dado pelo esforço despendido pelo esforço de uma busca por outros textos que contribuam para ampliar os conhecimentos do analista, quando ao iniciar a leitura, descobre que as informações de que dispõe não lhe facultam estabelecer comparações capazes de implicarem análises que ultrapassem os limites de análises orientadas por categorias do chamado senso comum.

Nesse sentido, por exemplo, saber que as preposições são elementos linguísticos que conectam formas vocabulares e as conjunções que conectam vocábulos, eram conhecimentos insuficientes para comparar e descobrir o “porquê” do uso, por exemplo, da preposição “sem”, integrada à construção da expressão: “Naquela noite, sem conseguir dormir, a mulher....”, não pode ser compreendida apenas como a mulher do granjeiro estava desprovida, naquela noite, de sono, ou

teve insônia, naquela noite. Tal impossibilidade decorria do fato de todas as

tomar conhecimento do “bom negócio” feito pelo marido,segundo avaliação dele, serem ordenadas por relações de “causa” que explicitam para o leitor o fato de ela haver perdido o sono, ou precisar ficar atenta ao trabalho do demônio, cuja consequência era não dormir, naquela noite.

A essa relação de causa e consequência, ainda, estavam entretecidas relações de meio e fim: meio = haver elaborado um plano tão ardiloso quanto ao do demônio que, colocado em prática no tempo certo, poderia anular o pacto feito entre o marido e o demônio, sem causar qualquer prejuízo a ele, além de salvar seu filho = finalidade e razão de não haver dormido apenas naquela noite. Assim, a restrição é dada pelo próprio modelo de contexto que delimitava a situação por ela vivenciada, cujo limite se extinguia na mesma proporção em que o tempo da construção da casa se esgotava. Estava subjugada, até então, a esse tempo, ou seja, fora excluída de um pacto com o qual não concordava – avaliado por ela como horroroso – colocada em situação de inferioridade, apesar de carregar consigo o bem negociado pelo marido. Ela se propôs, compromete-se a pensar num jeito de frustrar o plano do

demônio como ele só havia sido pensado, planejado, mas não executado,

preparava-se para colocá-lo em prática, de forma a subverter a sua posição e, assim, assumir o comando da sua própria família, sem deixar que ela fosse comandada por outrem.

Por conseguinte, o sentido de “supressão” não está dissociado daquele do poder da superioridade do demônio que, pelo pacto, tira dela esse poder: subjuga-a à mesma condição do marido. Esta extensividade de sentidos que transforma palavras, concebidas como vazias de sentidos, quando focalizadas isoladamente, as transformam pela tessitura dos conhecimentos, em palavras de sentidos plenos que vão sendo “gestados” pela intensividade de inúmeras releituras do próprio texto, orientadas por consultas a gramáticas, a diferentes tipos de dicionários, ou de outros textos que fazem referência ao mesmo tema.

Nesse contexto, em que se buscou não dissociar conhecimentos linguísticos dos não linguísticos, tornou-se impossível segmentar onde se situam os limites entre uma semântica da língua e outra do discurso ou do texto, bem como quais seriam os limites entre alfabetização e letramento. Pode-se, assim considerar que a leitura significativa, - cuja ancoragem é dada pelo trabalho do pesquisador- leitor analista - impossibilita dissociar alfabetização e letramento, pois ler e letrar se conjugam

nessas práticas de leitura: a analítica, a intensiva, a extensiva que funcionam como ancoragem para a leitura significativa.

Comparados os resultados acima, com os conteúdos registrados na matriz curricular da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e na Revista do Professor, em consonância com o Jornal do aluno e o texto analisado, observa-se haver entre eles graus de adequação incontestáveis. E, conforme concebido, caberá ao professor – por meio da aprendizagem desta sua prática de pesquisa – contribuir para a planificação do projeto que visa à formação do aluno leitor. Apresentam-se abaixo, algumas possibilidades para esse processo de complementação, a título de contribuição inicial, pois a pesquisa desenvolvida, ao se centrar em um só texto, não pode ter essa pretensão.

Outras justificativas para a incompletude da proposta são dadas pela diversidade dos fundamentos que asseguram não ter o texto uma única leitura, seja ela feita por um único leitor, ou por leitores diferentes e, ainda, pelo fato de ser o pesquisador um iniciante no campo de investigações sobre as práticas de linguagem. Trata-se, portanto, de um esforço despendido por aquele que, até há dois anos e meio, acreditava no poder da força dos conhecimentos gramaticais para poder ensinar outros a lerem e, agora, descobre que a língua não se reduz à gramática, pois a sua outra dimensão é dada pela força da palavra em uso, articuladas pela gramática, mas sem que uma se deixe reduzir à outra.