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O modelo de consciência de Dennett (1991), como o próprio enfatizou em seu livro, é apenas um esboço, um caminho para se construir uma teoria da consciência. Dado esse problema, teria como o filósofo incorporar outras teorias ao seu modelo para fortalecê-lo? Dennett (2001) propôs algo semelhante. O filósofo propõe uma compatibilidade ou pelo menos certa semelhança de seu modelo à Teoria do Espaço de Trabalho Global. Mas mesmo em seu livro, Dennett (1991, p.257, tradução e itálico nosso) já afirmava:

Em seu livro A Cognitive Theory of Consciousness (1988), o psicólogo Bernard Baars sumariza o que ele considera um “início de um consenso” de que a consciência é realizada por uma sociedade distribuída de especialistas equipados com uma memória de trabalho, chamada de espaço de trabalho global, cujo conteúdo pode ser difundido para o sistema como um todo. Como ele nota, uma variedade de teóricos, apesar das enormes diferenças em perspectivas, treinamento, e aspiração, estão gravitando em direção a esta visão de como a consciência deve estar no cérebro. É uma versão desse consenso emergente que eu tenho introduzido cautelosamente, ignorando algumas características e enfatizando outras – características as quais penso ser negligenciadas ou subestimadas, e outras as quais penso ser particularmente cruciais para superar os mistérios conceituais que ainda restam9.

Em alguns aspectos, estas teorias são compatíveis. Ambas enfatizam um paralelismo do funcionamento inconsciente, fazendo com que poderes localizados sejam espalhados por redes neurais no cérebro. Os dois modelos delegam um poder organizacional para a consciência que funciona em serial e de forma limitada ajuda na orientação de especialistas para resolução de problemas. Apesar disso, parece haver afirmações centrais incompatíveis entre essas teorias.

Schneider (2007) aponta três pontos principais de incompatibilidade grave entre as teorias. O primeiro diz respeito ao conteúdo da consciência. Para Dennett (1991), o conteúdo da consciência depende de uma busca, realizada por sujeitos dotados de linguagem, dentre os eventos paralelos sendo realizados pelos esboços múltiplos. Para

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In his book A Cognitive Theory of Consciousness (1988), the psychologist Bernard Baars summarizes what he sees as a "gathering consensus" that consciousness is accomplished by a distributed society of specialists that is equipped with a working memory, called a global workspace, whose contents can be broadcast to the system as a whole" (p. 42). As he notes, a variety of theorists, in spite of enormous differences in perspective, training, and aspiration. are gravitating toward this shared vision of how consciousness must sit in the brain. It is a version of that emerging consensus that I have been gingerly introducing, ignoring some features and emphasizing others — features that I think are either overlooked or underestimated, and that I think are particularly crucial for breaking through the conceptual mysteries that still remain.

Baars (1988), nem todos os conteúdos da consciência são buscados de forma voluntária, apesar de podermos realizar desta forma também. Esta distinção talvez seja apenas um problema resultante da pouca precisão de Dennett (1991) em diferenciar entre tipos de consciência em esboços múltiplos e consciência com a implementação da Máquina Joyceana. Esta distinção poderia ser resultado apenas da terminologia de Dennett. Se considerarmos que os processos em esboços múltiplos do cérebro são processos conscientes, a necessidade de buscas por conteúdos termina. Adicionando uma máquina virtual para a consciência, buscas são necessárias. Entretanto, parece ser mais do que meramente terminológico, quando no capítulo “Nossa consciência, a mente deles” (Our consciousness, their minds) Dennett (1996) claramente considera o acréscimo da máquina virtual como a única forma legítima de consciência.

O segundo ponto de incompatibilidade grave apontado por Schneider (2007) se refere à ligação que o espaço de trabalho global tem com um sistema central, ou seja, um sistema não modular, no qual conteúdos de diferentes modalidades são reunidos e o planejamento ocorre. Esta ideia está ligada à noção de um sistema central no estilo de Fodor (1983), a qual Dennett (1991) se opõe. Concordamos que este é um ponto de tensão. Entretanto, talvez a tensão diminua se concluirmos que o planejamento na realidade não é realizado pelo espaço de trabalho global e sim pelo cérebro todo, sendo apenas divulgado (“broadcast”) pelo espaço de trabalho global (posição que acreditamos ser mais coerente com as palavras de Baars [1988]). Mas mesmo assim, ainda há um sistema central semelhante àquele proposto por Fodor, por ser um sistema não modular capaz de se relacionar com todos os demais sistemas.

De toda forma, acreditamos ser o terceiro o ponto de maior incompatibilidade apontado por Schneider (2007). Este se refere à noção da linha de chegada para a consciência (como explicado no capítulo anterior), sendo o aspecto de maior crítica de Dennett (1991) aos modelos tradicionais de consciência. Para a teoria de Baars (1988), parece haver uma linha de chegada clara para a consciência, a saber: a entrada de um conteúdo no espaço de trabalho global. A mensagem precisa ser globalizada para fazer parte da consciência. Dessa forma, em um primeiro momento parece ser fácil concluir que a Teoria do Espaço de Trabalho Global é uma teoria no estilo “Teatro Cartesiano”, sendo incompatível com a teoria de Dennett. Como esse aspecto é o mais problemático, ele será discutido em detalhe na continuidade do capítulo.

Schneider (2007) parece ter identificado bem os principais pontos de conflito entre as teorias. Além desses três, encontramos em nossa análise mais quatro pontos de

conflito. O primeiro diz respeito à evolução da consciência. Como Baars (1988) relaciona o papel da consciência a uma estrutura anatômica antiga em termos evolutivos (o Sistema de Ativação Reticular-Talâmico Estendido), o psicólogo entende a consciência (no sentido completo) como uma função comum a muitos dos animais, pelo menos a todos os mamíferos. Já Dennett (1991) diz que a consciência é muito recente para ter evoluído biologicamente e delega esse papel para a evolução cultural – a difusão e instalação de memes. Dennett abre uma lacuna entre o animais humanos e outros animais, a qual não ocorre na teoria de Baars (1988).

Dennett (1991) chega a igualar a função dos hábitos de auto-estimulação ao papel da difusão de informação do espaço de trabalho global. Mas parece ser incerta a questão dessa igualdade do papel funcional destas duas formas de globalização de informação. Quando Dennett (1991, p.197, tradução nossa) discute a evolução da consciência (apresentada no primeiro capítulo desta dissertação), ele afirma que esses hábitos de auto-estimulação permitem “a criação de novos caminhos de comunicação interna10”. Essa afirmação parece ser um pouco mais fraca do que a globalização de informação do psicólogo. Para Baars (1988, p.100, tradução nossa), “uma verdadeira variável global no sistema nervoso pode ser distribuída em princípio para todos os níveis de todos os processadores, talvez para o nível de células individuais11”. Para Dennett (1991) a criação de novos caminhos se trata apenas de novas rotas para comunicação interna. Assim, apesar de ter delegado à Máquina Joyceana um poder de globalização, não fica claro como a hipótese da criação de novos caminhos internos pode se igualar a globalização. Esta incompatibilidade é pouco problemática.

Uma incompatibilidade mais forte, e relacionada àquelas mencionadas por Schneider (2007) diz respeito à integração de informação. A consciência para Baars (1988) possui um papel central de integrar informações de especialistas espalhados pelo cérebro. Já Dennett (1991) afirma que o ponto de vista do indivíduo (consciência) é espalhado por todo o córtex. Poderíamos pensar que a Maquina Joyceana exerce tal papel integrador, mas isso não parece ser coerente com o resto da teoria. Seria mais coerente afirmar que esta faz releituras utilizando de diversos momentos das múltiplas narrativas geradas no cérebro. Afinal, para Dennett, não há um local onde toda informação é reunida para formar a experiência consciente.

10 [...] New paths of internal communication [...]

11A truly global variable in the nervous system might be distributed in principle to all levels of all

Este ponto de incompatibilidade leva a um outro. Seria correto afirmar que os especialistas inconscientes cooperam e competem pelo mesmo motivo em ambas as teorias? Novamente, não parece ser o caso. No caso de Baars (1988), a competição e cooperação ocorrem para o acesso ao espaço de trabalho global para formar a experiência consciente e influenciar o trabalho dos demais especialistas do cérebro. A competição e cooperação no caso do Dennett (1991) não é para que o conteúdo em si atinja algum tipo de estado privilegiado, mas se trata de uma competição mais direta para influenciar o comportamento, o vencedor da competição já causa o comportamento, ao invés de apenas informar os demais especialistas sobre sua proposta de ação.

No total, identificamos sete pontos principais de incompatibilidade entre a Teoria do Espaço de Trabalho Global e o Modelo de Esboços Múltiplos. Dentre os mais problemáticos estão aqueles que relacionam a teoria de Baars (1988) à noção do Teatro Cartesiano, justamente o ponto de critica do livro inteiro (Consciousness Explained) de Dennett. Mas antes de verificar se a Teoria do Espaço de Trabalho Global postula um Teatro Cartesiano, é necessário primeiramente esclarecer os significados relacionados a este conceito.