Pensando nas informações sobre a história desse local e a experiência da visita, foi possível notar que a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, situada no Largo do Pais- sandú, gerou em torno de si uma importante referência de articulação da identidade da popu- lação negra de São Paulo, o que teve como base a tradição já constituída da relação entre o culto dessa santa e comunidades negras em um horizonte histórico mais amplo, mas também à instauração da igreja anterior no antigo Largo do Rosário no século XVIII. Ou seja, essa re- ferência de identidade tem como base uma tradição bem constituída; entretanto, a situação é mais complexa. Pode-se dizer que essa tradição irradiou e consolidou referências paralelas que se tornaram tão (ou mais) importantes que a própria igreja, como a estátua da Mãe Preta que foi inserida nesse contexto praticamente cinquenta anos depois da construção da igreja. Assim, se a igreja como instituição apartou-se, em certos períodos, das mais variadas manifes- tações das comunidades negras que frequentam essa região, a praça em sua vocação pública, não. É justamente nesse espaço de acolhimento público, onde permanece a estátua da Mãe Preta, alheia ao interior controlado do edifício da igreja, e que foi se constituindo como re- ferência importante na articulação da identidade desse grupo em São Paulo. Mais que isso, a noção de apropriação do espaço público é bastante evidenciada nesse espaço no cotidiano, proporcionando certas tensões entre o aspecto público da instituição católica e aquele cívico. Por exemplo, em certas épocas, fecham-se as portas da igreja em horários entre as cerimônias respondendo à ampla frequentação da praça por moradores de rua, por frequentadores da “Galeria do Rock” e à preocupação com a segurança do local.
Entretanto, é preciso ter essa visita como a observação pontual de uma atividade mais comple- xa dessa instituição. Sabe-se, por exemplo, que a conexão com as comunidades negras de São Paulo não se perdeu e, em eventos simbólicos, ela se torna mais evidente. É o caso das celebra- ções das missas afro que respondem tanto ao plano tradicional (por exemplo, o culto de São Benedito) como aquele mais ligado à história recente (o debate sobre os direitos civis). Nesse sentido, dois eventos ocorridos ali na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no Largo do Paissandú são bem indicativos. O primeiro foi a tradicional missa afro em home- nagem a São Benedito, um dos santos padroeiros da comunidade negra no Brasil, em torno do qual se desenvolveu, na paróquia de Nossa Senhora Achiropita, no Bixiga, uma pastoral afro. Entre 23 e 25 de abril de 2014, houve uma missa afro na igreja do Paissandú em homenagem a esse santo organizada pela ainda bastante ativa Irmandade de Nossa Senhora do rosário dos Homens Pretos. O outro, no mesmo ano, no dia 19 novembro (no mês da consciência negra), realizou-se a 14ª edição da missa afro organizada pelo sindicato dos bancários de São Paulo.
A atividade foi iniciada no Largo São Bento com um cortejo afro tendo um grupo de percussão Nkembi e terminou com a missa referida. O objetivo era evidenciar a discussão sobre a desi- gualdade racial no Brasil, sobretudo no campo da economia e do trabalho.
Esses são dois exemplos pontuais de uma prática comum: as missas afro acontecem em datas simbólicas para a comunidade negra de São Paulo, mas também em outras como o Dia das Mães, revelando o interesse de diálogo entre a instituição católica e manifestações variadas das populações negras de São Paulo. Nesses eventos, há uma marcada presença de instrumen- tos musicais relacionados a cerimônias de religiões com base afro-brasileira, além de homens e mulheres com danças próprias desse mesmo contexto no transcorrer da missa; o que se dis- tancia, em certa medida, daquela polêmica de 1977 sobre a missa comemorativa da criação do terreiro de São Paulo, situação que foi, em termos gerais, retrabalhada em contextos mais recentes, o que está certamente ligado não apenas às mudanças no interior da instituição, mas também às lutas e conquistas da comunidade negra na história recente do país.
O Largo do Paissandú visto como um território negro na atualidade, remete à própria orga- nização de territórios negros no passado em aspectos variados: sua organização em torno de elementos tradicionais, cuja longevidade indica processos históricos de longa duração (pode- -se dizer que esse é um local simbólico para comunidades negras de São Paulo há mais de um século), e mesmo certas especiicidades de sua composição como a composição variada (não são espaços exclusivamente frequentados por comunidades negras de São Paulo) e por sua associação à pobreza. Todos esses elementos indicam que a observação da situação atual do Largo do Paissandú, de maneira especíica ou generalista, pode ser feita de maneira bastante proveitosa recuperando-se os elementos históricos que organizaram o espaço e as dinâmicas sociais relacionadas a ele.
8.2 Sugestões de territórios negros a visitar
Na sequência, serão apresentados (de forma tópica e alfabética) alguns locais caracterizados como territórios negros que poderiam integrar novas visitas e mesmo a constituição de rotei- ros, pensando-se a relação dos conteúdos das visitas com o curso de que participam e também a própria relação entre os locais visitados. Pode-se, assim, ser constituída uma relexão do conjunto pensando-se em elementos de territorialidade, mas também certas recorrências li- gadas ao lugar na cidade, as políticas de patrimonialização, o tipo de envolvimento do poder público ou de fundações privadas etc. Além disso, como indica a lista a seguir, a caracteri- zação dos territórios negros é bem variada e o aluno pode aproveitar essa variedade criando um roteiro explorando elementos da manifestação cultural, religião, musealização de acervos, instituições de referência etc. Diferente disso, pode haver o interesse de aprofundamento em um tipo especíico de território negro (como templos religiosos), tentando estabelecer certas recorrências que caracterizam sua coerência. Enim, as possibilidades são amplas. Dito isso, segue a lista:
1. Associação Cultural Cachuera!;
4. Centro de Cultura Afro-Brasileira Asé Ylê do Hozooane;
5. Escola de Samba Vai-Vai;
6. Escola de Samba Camisa Verde e Branco;
7. Grupo Cordão de Ouro;
8. Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte;
9. Igreja Nossa Senhora Achiropita;
10. Igreja de Santa Cruz das Almas dos Enforcados;
11. Ilê Alákétu Asé Ibualamo;
12. Museu Afro-Brasil;
13. Samba da Vela;
14. Sítio da Ressaca (Museu da Cidade de São Paulo - biblioteca temática voltada à cultura
negra);
15. Terreiro de Candomblé Aché Ilê Obá;
IMPORTANTE
Vários deles propostos pelo “Roteiro Afro” da SPTuris, ver link abaixo: http://www.cidadedesaopaulo.com/sp/br/o-que-visitar/roteiros/ roteiros-tematicos/roteiro-afro
Considerações inais
A visitação a territórios negros na cidade de São Paulo deve ser vista de forma complementar e diretamente relacionada aos conteúdos discutidos no curso. O aproveitamento das rele- xões variadas relacionadas à visitação poderão ser potencializadas como mais uma fonte de informação para os debates sobre questões raciais no Brasil. Dessa forma, o conteúdo lúdico que certamente compõe qualquer atividade de visitação com excursões escolares e similares deve ser agregado a relexões críticas que poderão ser ensejadas no transcorrer do curso. Para tanto, é importante que o a visitação seja discutida na sua especiicidade (um local a visitar) e na organização de roteiros (um circuito de lugares a visitar), o que, em si, já é uma atividade complexa já que considera a natureza do território negro a visitar, sua caracteriza- ção prévia e as relações com as discussões ao longo do curso.
Preparar a visita signiica situar a abordagem especíica para a experiência no local. Como visto, na cidade de São Paulo os territórios negros são caracteristicamente variados o que pede um tipo de observação orientada, relacionada às especiicidades da ação das comunidades negras de São Paulo e suas relações nesses espaços. Diferente disso, o visitante poderá ter uma experiência voltada para temas relevantes em debates diferentes que não seriam necessaria- mente aproveitados no recorte “territorialidades negras”. Por exemplo, ir ao bairro do Bixiga exclusivamente interessado na situação da população de origem italiana é relevante, mas secundário no que se refere ao tema das territorialidades negras. E, mais que isso, o aprovei- tamento da visitação articulada ao conhecimento prévio e a criação de um relatório no qual as impressões do visitante aparecem devem ser base para a interseção entre debate teórico e experiência prática sobre o tema básico nesse curso de formação.