A homofobia encontra sua ressonância na cultura. Não tem como ser diferente. Até mesmo quando se quer questioná-los, expor seus problemas, algumas vezes acaba por repetir a discriminação. Sem dúvida, há uma disseminação dos valores. Todavia esses são possíveis de ressemantização, como se vai tentar mostrar neste tópico.
Os próprios personagens gays nas novelas têm um papel estereotipado cuja função única de seus personagens é ser gay. Eles até são mostrados como sujeitos pacatos, mas não têm direito a ter seu beijo exibido sob a alegativa de que a sociedade não está preparada. Tal
preparação não foi posta em xeque quando há alguns anos a novela “Insensato Coração”, emitida pela Rede Globo, transmitiu uma cena de espancamento de um gay por um grupo de homofóbicos. Ora Jekyll, ora Mr. Hyde40, a novela tem negado beijo gay e colaborado para a perpetuação da promoção da heterossexualidade41.
Na música, há alguns ritmos costumeiramente associados a uma pauperização da imagem feminina e ao reforço de uma cultura machista e homofóbica. Um deles é o funk, ritmo nascido e difundido em comunidades pobres do Rio de Janeiro. Para ilustrar, há a música “Putaria da Boa”, do compositor Mr. Catra, em que se ouve a seguinte passagem: “Homem de verdade gosta mesmo é de buceta”, numa clara e perigosa afronta aos gays. O cantor não teve complicações com a justiça em razão dessa letra.
Num linha completamente diferente, porém, esteve o projeto “Solange Tô Aberta”, uma banda alternativa adepta da cultura queer que propõe a valorização das sexualidades, no entanto, numa abordagem mais ousada. Em uma das letras, consta: “Dança da passiva: abre o cu e mete a pica”. As letras não ofendem os LGBT, considerável parcela de onde vem os seus fãs. As atitudes do grupo é que deixam os mais conservadores irados. Em uma determinada apresentação em março de 2010, um integrante da banda retirou do ânus um terço numa expressão de liberdade artística. Foi alvo de críticas por parte de alguns religiosos.
No esporte, a homofobia infelizmente tem marcado alguns pontos. Em agosto de 2010, o jogador de futebol Paulo Henrique Ganso fez a seguinte declaração durante uma entrevista após ser perguntado se em seu clube, o Santos, haveria algum homossexual “Em alguns clubes aí tem sim. Mas no Santos, graças a Deus, não”. O jogador recebeu críticas de militantes LGBT paulistas e posteriormente se desculpou através de nota à imprensa. Não sofreu qualquer advertência pelo clube ou pela federação esportiva em virtude do ocorrido. Isso ocorreu na mesma época em que Richarlyson, jogador do São Paulo, teve sua vida devassada por conta da suspeita de sua homossexualidade. Episódio que ainda contou com uma decisão lamentável de um juiz de Direito de São Paulo em que negou ter havido injúria num processo em que o autor teria sido vítima. A decisão, com direito a afirmações do tipo “Futebol é para macho”, está em anexo.
Alguns críticos do PL122 afirmam que, se aprovada a lei, ninguém mais poderá chamar o juiz de “viado” numa partida de futebol. Se a intenção for humilhar, desprezar, não
40 Personagens fictícios da obra “O Médico e o Monstro”.
41 O cinema também aponta saídas, como a produção filmográfica de Pedro Almodóvar. Em “Tudo sobre minha mãe”, Lola é uma trans que tem seios (corpo feminino), mas é pai (com características machistas inclusive). Sem estereótipos, vê os dramas humanos, sem ser militante ou fazer apologia.
poderá mesmo. É um passo importante para a reeducação social. Ou é justo que, por concessões culturais, o mesmo árbitro possa ser chamado de “negro”? Presente o animus próprio da injúria, poderá haver penalidade ao torcedor sim. Fica a reflexão se usar desses termos pejorativos é a melhor forma de expor críticas a decisões contrárias à nossa vontade exaradas pela autoridade na partida desse esporte.
O humor também tem aparecido com razoável frequência em posturas com suspeita homofóbica. Da mesma forma que se faz piada do português aqui no Brasil, remetendo a um indivíduo pouco esperto, em Portugal é feita piada de brasileiro como um sujeito que é subalterno. O humor é recheado de códigos político-culturais. Geralmente se faz piada com aquilo que se julga inferior, mediocrizado ou, no máximo, metonímico quando se faz piada com o negro em virtude da fama de ter pênis de tamanho acima da média. Uma clara intenção de tachar, reduzir, instrumentalizar, ainda que se valha de uma estratégia diferenciada. Até quando se visa a abolir a discriminação, o humor consegue captar a mensagem a seu favor. Tome-se o exemplo do emprego intencional da expressão “afrodescendente”, repetida nas mesmas piadas discriminatórias feitas outrora com o tom adicional de deboche. Com o gay, prevalece o estereótipo da “bicha louca”.
O humor stand-up, a mais nova febre do ramo do entretenimento, tem contribuído para o aparecimento de novos humoristas. Nessa modalidade o que importa é o texto em detrimento de performances ou acessórios. Frutos dessa safra, personalidades como Danilo Gentili42 têm se envolvido em episódios embaraçosos com o movimento LGBT e com a justiça. Eles fazem defesas em que invocam uma liberdade de expressão como princípio absoluto. O problema é quando esse direito fere outro princípio: a dignidade da pessoa humana de quem é o alvo das “piadas”. Para demonstrar que o humor não tem tanta permissividade assim, não custa rememorar o episódio da proibição de programas humorísticos de fazerem gracejos com candidatos políticos que os ridicularizem durante a fase das eleições por força de dispositivos da Lei Eleitoral. Apenas por liminar, o STF suspendeu o inciso II do artigo 45 da referida lei e liberou a prática do humor nesse período.
O curioso é que talvez os humoristas de hoje nem saibam que seus direitos não foram totalmente plenos por toda a história. Na França do Antigo Regime, seus protótipos, os
42 Em janeiro de 2013, o humorista comentou em sua página no Twitter a respeito da pesquisa do GGB sobre o número de assassinatos homofóbicos: E esse dado da Ong Gay aí que ’1 gay é morto a cada 26 hs’? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu c* hj? Só por segurança” . Ele já tem em seu “currículo” uma denúncia no Ministério Público por suposta prática de racismo, por ter declarado: ““King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”
comediantes, eram impedidos de casar e eram enterrados como indigentes. Isso se deve ao fato de que a Igreja, responsável pelo casamento religioso num contexto em que essa era a única forma de união, enxergava essas pessoas como farsantes, dissimuladas, de caráter duvidoso. Na verdade, a motivação mais aceitável é que tais profissionais teciam ferozes críticas ao clero. Dessa forma, eram excluídos dos sacramentos, por exemplo, o matrimônio. Moliére foi um dos tiveram embates com essa instituição naquele período.
Uma observação de fundo histórico é que o humor muda com o tempo. Na Alemanha Nazista se fazia piada com judeus. Nos EUA se fazia com o negro. Sempre os alvos das risadas eram os mais oprimidos da sociedade. O humor parecia não enfrentar as estruturas de poder. Pelo contrário, legitimava-as. Nessa esteira há um excelente documentário nacional chamado "O Riso dos Outros", dirigido por Pedro Arantes. Uma ultima análise também a ser feita é sobre o impacto da “brincadeira”, que pode se tornar um assunto sério. Um caso prático: conhece-se uma antiga provocação de associar o número 24 ao indivíduo homossexual, pelo fato de ser o número do veado na jogatina e de esse animal, por conta de sua docilidade, assemelhar-se aos gays. Essa pirueta de sentenças acabou “adornando” uma morte trágica: um rapaz foi assassinado brutalmente com 24 tiros sobre as nádegas sendo o 24º especificamente no ânus!
Por fim, é importante rechaçar essas práticas que são naturalizadas na convivência social como aceitáveis, escusáveis. Fazendo um empréstimo científico, deve-se afirmar que “normoses” 43 são igualmente problemáticas.