Segundo Terra 51, Hermann Samuel Reimarus (1694-1768) foi o primeiro teólogo
cristão a fazer uma leitura puramente política do Evangelho. Foi no auge da publicação de suas teses que se deu o início do problema do Jesus histórico, coincidindo com o reconhecimento da História como ciência. Sem dúvida que o posicionamento de Reimarus traria uma reação no mundo exegético-científico, e realmente a trouxe, pois tais afirmações consistiram em argumentar que Jesus não passava de mero homem, um judeu visionário, agitador político revolucionário...
Além do mais, Reimarus foi o pioneiro em seu método também ao distinguir a pregação de Jesus, da fé dos Apóstolos de Cristo. A proposta de Reimarus era a explicação pela fraude, ou seja, Jesus fracassa em sua missão, puramente político-revolucionária, ao ser pregado em uma cruz. Os discípulos, então, para salvaguardar a crença na ressurreição e futura vinda, roubam o seu corpo dando origem à fraude 52. Com a argumentação de D. F.
Strauss (filósofo e teólogo), cuja maior descoberta foi o caráter mitológico dos Evangelhos, acaba por retificar a explicação da fé em Cristo de Reimarus, pela decepção. Para ele, tal abordagem resolveria todos os problemas. Em síntese, o que Strauss pretendia, era “demonstrar a onipresença do mito” 53.
F. C. Baur (1792-1860), fundador da escola crítica de Tübingen, propõe uma explicação dialética apelando para Hegel. Tal explicação consistia em afirmar que na Igreja primitiva havia duas facções, a petrina (judaizante) que gerou o Evangelho de Mateus e a
paulina (universalizante), que originou o Evangelho de Lucas. Marcos e João representam a
síntese das duas tendências 54. Willian Wrede, Albert Schweitzer e Karl L. Schimit tiveram
participação significativa nesse processo evolutivo da pesquisa histórica, no final da fase da Teologia liberal, na virada do século. Wrede (1901), por exemplo, demonstrou que a fé pós-
51 TERRA, J. E. M. Jesus..., p.26. 52 Ib. p.28. 53
LISBOA, W. E. A pesquisa do Jesus histórico..., p.55.
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pascal no messianismo de Jesus, foi projetada à sua vida não messiânica. Isso trouxe de vez a desconfiança de se poder discernir entre a história de Jesus e a fé no Cristo.
Albert Schweitzer, em seu livro “The quest of the Historical Jesus”, mostra que tudo o que diz respeito a Jesus nos textos evangélicos se tratava de projeções de seus autores. No entanto, o exegeta da teologia dialética de maior peso, foi o alemão Rudolf Bultmann (1884- 1976). Suas pesquisas reforçaram o ceticismo histórico que pairava no mundo erudito, visto que enaltecia o Cristo da fé, em detrimento do Jesus histórico. Segundo suas conclusões, o que Jesus disse ou fez é irrelevante para a fé, visto que essa nasce da proclamação da Ressurreição. O que Deus operou em Jesus na cruz e ressurreição, se tornou verdadeiramente decisivo para a fé cristã. Bultmann adquiriu para si grande mérito e respeito no mundo da exegese bíblica, por ser um dos fundadores da escola morfocrítica ou da crítica das formas (Formgeschichte). O método das formas objetiva explica a gênese dos Evangelhos, pontuando o processo formativo e evidenciando a história das diversas formas nas quais a mensagem se apresentou e transmitiu, até se mostrar como a temos hoje.
[...] a história das formas remonta até ao Sitz im Leben, à situação vital, ao berço, ao qual a mensagem evangélica nasceu, que seria a comunidade primitiva. Os evangelistas seriam simples “compiladores” desses fragmentos literários (formas) criados anonimamente pela comunidade primitiva 55.
A radicalização de Bultmann em seu método das formas acaba por colocar em crise a credibilidade da verdade histórica dos Evangelhos sinóticos. Segundo afirmava, não detínhamos fontes suficientes que justificasse ou possibilitasse um acesso aos feitos ou palavras originais de Jesus; No mais, ainda que isso fosse possível, seria irrelevante para a fé cristã, nascida com o anúncio da ressurreição. No interior do círculo dos discípulos de Bultmann, se inicia uma nova etapa na pesquisa do Jesus histórico. Esta nova etapa se caracteriza pela pergunta se tal proclamação de fé relaciona-se, de algum modo, com as colocações pré-pascais de Jesus. Isso leva à divisão dentro da própria escola bultmanniana. O primeiro dentre esses discípulos a questionar certas posições de seu mestre, foi Ernst Käsemann, ao reconhecer que, apesar dos Evangelhos nos oferecerem o Jesus histórico somente por meio do querigma, existem elementos nos sinóticos que “o historiador deve
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reconhecer como autênticas se quiser permanecer, pelo menos, como historiador, porque não fazê-lo implicaria em separar o kerygma da história e reduzi-lo à mitologia” 56.
Segundo Terra, a intenção de Käsemann ao levantar a questão do Jesus histórico sob essa nova perspectiva, não era trazer de volta as questões da “velha” teologia liberal do século XIX, mas atentar para o risco de um docetismo que se projetasse a partir de um estudo focado exclusivamente no Cristo da fé. Após tais eventos, a pesquisa histórica se viu em uma fase onde se sobressaía o interesse sociológico em lugar do teológico, onde acontece, simultaneamente, um retorno ao judaísmo palestino do primeiro século e em que se pratica uma leitura despreconceituosa das fontes não canônicas. A respeito dessa nova fase, John Méier se pronuncia, afirmando que a Third Quest, como foi intitulada, não pretendia trazer à tona a totalidade da realidade de Jesus de Nazaré, mas somente a que pudesse auferir dos instrumentos científicos disponíveis. “O Jesus real é maior que qualquer apresentação do Jesus histórico” 57.
Anteriormente à reação da escola pós-bultmanniana, podemos dizer que a conclusão a que chegou a teologia protestante é que somente o Cristo bíblico, aquele proclamado pela igreja primitiva, pode ser conhecido. Somente ele importa à nossa fé. A escola pós- bultmanniana trouxe, no entanto, nova perspectiva, uma correção do radicalismo de Bultmann. Porém, permanece uma escola fechada, resistente ao diálogo com demais teólogos e exegetas.