4.4 D ATAINNSAMLING
4.4.3 Intervjuguide
A partir da análise dos materiais, é notório que cada editora defende uma filiação teórica e organiza sua rotina em função dela. O que causa incômodo é que, ao invés da orientação para a elaboração de rotinas que atendam à especificidade de cada sala de aula, estas têm sido repassadas aos professores como “produtos acabados”.
Todavia, a utilização de uma rotina para as classes de alfabetização também é avaliada positivamente pelas professoras:
Ajuda porque é uma organização, eles já sabem aquela rotina e eu sei que quando eu chegar já eu tenho que dar isso aqui e isso aqui. Para eles é um momento grande de organização, começam a se organizar a partir daí, porque eles sabem que eu sou muito séria com eles.
Eu digo: “Nessa rotina nós temos que dar conta disso e disso e isso. Por isso vocês têm que prestar atenção, porque se vocês não prestarem atenção, porque se não der tempo de fazer essa rotina durante o dia, quem vai ser chamada atenção sou eu, porque a diretora colocou isso pra mim que eu tenho que dar conta disso com vocês” [risos] (FÁTIMA).
Tem ajudado bastante, sim. Mostra todo dia como a professora vai trabalhar na sala de aula. É um trabalho do dia todo. Conscientizando a professora da importância de ela seguir direitinho aquilo com a turma. E também assim, a formadora trabalha cada ponto da rotina, por exemplo, no caso da formação da história, ela explicou como a gente deve contar uma história. Então todo o suporte facilita o trabalho delas aqui na escola (COORDENADORA SHEILA).
Acho que até tem uma parte da melhora é que a gente se enquadra bem diretinho na rotina daquele dia, tem material já pronto pra todos os dias, não tem que ficar correndo muito atrás de material, porque a gente sempre busca, mais para adaptação, “focadamente”. Mas muita coisa já vem pronta, então facilita o trabalho (LUCIANE).
A gente cumprindo direitinho, rigorosamente, é um dos fatores que eu acho assim que o aluno ele fica as quatro horas na escola. Assim não tem enrolação (COORDENADORA LENA).
A análise dos blocos de atividades e da rotina proposta por cada uma das editoras confirma seus aportes teóricos e suas concepções sobre alfabetização. Esta afirmação pode ser verificada na descrição das competências desenvolvidas em cada um dos blocos e no instrumento onde elas são trabalhadas que pode ser visualizado no Quadro 1.
Quadro 1: Blocos de atividades e instrumentos de trabalho de cada uma das editoras.
Editora Bloco de atividade Competência Manual do
professor Livro do aluno X Acolhida Motivação x Leitura
Familiaridade com textos Vocabulário Compreensão
Roteiros Só o texto
Brincando com os sons e letras Consciência fonológica Consciência fonêmica Princípio alfabético Decodificação x
Hora de ler Fluência de leitura x
Correto? Ditado Ortografia x
É assim que se escreve Estrutura de frases x
Redação Produção de textos x
Já sei ler Fluência de leitura x
Leitura livre Compreensão
Caligrafia Fluência de escrita x Dever de casa Fluência de leitura e de
Editora Bloco de atividade Competência Manual do professor Livro do aluno Y Aprendendo com as
frases Estrutura de frases x x
Hora do conto Formação de leitor
Compreensão x x
Jogando com as fichas Leitura global das palavras x x
Dó-Ré-Mi Expressão e compreensão x x
Escrevendo do meu jeito Reflexão sobre a escrita x x Conhecendo diferentes textos Vocabulário Compreensão Estrutura do texto x x Brincando com as
palavras Análise de palavras x x
A organização e frequência dos blocos na rotina proposta por cada editora pode ser visualizada nos Quadros 2 e 3.
Quadro 2: Rotina sugerida pela formação da Editora X
Fonte: OLIVEIRA, João Batista Araújo; CASTRO, Juliana Cabral Junqueira. Aprender a ler: letramento e
Quadro 3: Rotina sugerida pela formação da Editora Y
Fonte: MACAMBIRA, Daniela; BRUN, Patrícia. Lendo Você Fica Sabendo: caderno de orientações didáticas
do professor. 2. ed. Fortaleza: Aprender Editora, 2008, p. 27.
A análise das rotinas confirma que cada editora defende sua filiação teórica e organiza sua rotina em função dela e percebe-se que há coerência entre a fundamentação teórica, as atividades propostas e a organização das rotinas. No material da Editora X há predomínio das atividades de decodificação em detrimento das atividades de compreensão. Situação diametralmente oposta ao material da Editora Y.
Percebe-se, no entanto, uma flexibilidade maior por parte da rotina do material da Editora X. A rotina desta editora prevê um período de recuperação, considerando adiferença no ritmo de aprendizagem das crianças.
Reafirmamos nossa concordância com a utilização de rotinas pedagógicas e muitas das questões favoráveis a sua implantação já foram discutidas no referencial teórico, no entanto, destacamos algumas: organização do tempo pedagógico, garantia de que as atividades essenciais para a alfabetização e o letramento sejam contempladas, diminuição da ociosidade dos alunos, entre outras.
Entretanto, nos causa incômodo que as formações trabalhem com rotinas prontas, para utilização em larga escala, na esperança que se adaptem a todas as salas de aula. Discorda-se que o objetivo da formação para implantação de rotinas pedagógicas seja este, ensinar a desenvolver uma rotina pré-fabricada, que defende os interesses, inclusive comerciais, de alguns grupos.
As determinações da própria SEDUC, em relação à implantação das rotinas, também não são claras. O termo de parceria assinado entre o Governo do Estado do Ceará, através da SEDUC, os municípios participantes do PAIC e as demais entidades parceiras dá pistas, mas não esclarece devidamente a questão. O referido termo destaca que o Eixo de Gestão Pedagógica tem como um dos objetivos a adoção de mecanismos didático-pedagógicos que ajudem os municípios a garantir a aprendizagem das crianças e a formação de professores. O termo ainda coloca os resultados esperados para este eixo:
Todos os municípios signatários do protocolo de intenções tenham implantado, até o final do ano letivo de 2010, rotinas pedagógicas que zelem pela primazia das aprendizagens das crianças, a formação docente continuada em serviço e a participação das famílias [...] (CEARÁ, 2007a, p. 3).
Nosso entendimento é que a formação deveria contribuir para que os municípios construíssem as próprias rotinas, mas o que se tem visto é que cada editora leva seu “pacote pronto”, o qual procura defender, sem considerar as características e as demandas próprias de cada sala de aula, as experiências anteriores vivenciadas pelos professores e pelas redes municipais.
É preciso considerar que, por mais que os resultados em alfabetização tenham melhorado a partir das ações do PAIC, o trabalho com a alfabetização no Ceará não nasce com ele e o breve recuo histórico realizado neste trabalho mostra isto. Parece que a formação analisada tem tido dificuldades em considerar esta história prévia dos professores e das redes municipais. A indagação de uma das coordenadoras pedagógicas do município B, nos mostra isto:
Olhe, a formação em si ela quer que siga passo a passo o material que vem de lá, quer que siga aquela rotina, agora assim eu vou conversar com uma das coordenadoras, assim porque, tem algumas turmas que são mais
adiantadas, ai pode fugir um pouco da rotina? (COORDENADORA SHEILA).
A seguir, discutiremos um pouco mais amiúde sobre a formação vivenciada pelos professores participantes da pesquisa.