A indústria algarvia caracterizou-se pela especialização nas conservas de peixe e na cortiça implantadas em pequenas «ilhas» industriais. Estes sectores perante a inexistência de um mercado interno capaz de absorver os seus produtos voltaram-se desde o seu arranque para os mercados internacionais. Esta dependência tornou-as presas fáceis das crises internacionais, mas relativamente expansionistas aquando da eclosão de grandes confrontos externos.
152
O Algarve, n.º 516, 10/02/1918, p. 1.
153
Acerca destes conflitos consultar RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira, A Indústria de Conservas no Algarve (1865-1945), Tese de Mestrado, Lisboa, FSCH-UNL, 1997.
154
54
Para além daquelas, o Algarve possuía ainda as extractivas (ferro, cobre e manganésio) 155, incluindo-se nestas as águas minerais que tinham em Monchique, uma das termas mais afamados do país, os materiais de construção (pedreiras e madeiras), a construção naval, a têxtil (linho, cordoaria e lanifícios), a cerâmica, a metalúrgica, entre outras.
Na geografia económica do Algarve encontraríamos ainda as pequenas indústrias do vestuário, da lã (Vila do Bispo)156, dos artigos de palma e de sapatos (Loulé157), esparto e pita, da doçaria, da marcenaria, construção civil, carroceria e serralharia158. Em 1911, contabilizavam-se 92 fábricas, 77 motores, com uma potência de 1.125 HP, nas quais laboravam 5.019 operários159.
Estas indústria caracterizavam-se pela sua reduzida mecanização, pulverizando- -se pelos sectores doméstico, manufactureiro e oficinal, predominando a grande incorporação de mão-de-obra.
Existiam ainda 80 pequenas indústrias, sobre as quais recaía a contribuição industrial, pressupondo que neste amplo mundo, muitos mais existiriam, mas incapazes de satisfazerem qualquer contribuição, extremamente variadas que, em 1912-13, tinham um efectivo que alcançavam 4.156 de indivíduos160. Entre estes, sobressaíam os alugadores de carros (867), operários (613), fabricantes de aguardente (228), pessoal de moinhos de vento (239), entre uma multitude de outros. Porque pagavam contribuição industrial, certamente muita baixa, eram indústrias de índole familiar, algumas podendo empregar um ou outro trabalhador.
Entre 1911 e 1917, o parque industrial algarvio conheceu um relevante desenvolvimento, quer em número de fábricas, quer em número de operários (Quadros n.º 31, 32 e 33).
155
CABREIRA, T., O Algarve Económico, p. 153.
156
CABREIRA, T., O Algarve Económico, p. 163.
157
Nesta localidade, um significativo número de mulheres dedicavam-se à confecção de balsas e alcofões de palma e ainda de outros artigos, com grande procura em «Londres e outros portos inglezes». Cf. Luiz Mascarenhas, "Roteiro do Algarve", O Algarve, 28/5/16, p. 1. Acerca da indústria de calçado em Loulé, consultar RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira, A Indústria de Curtumes e do Calçado em Loulé (1850- -1945), Câmara Municipal de Loulé, 2005.
158
CABREIRA, T., O Algarve Económico, p. 165.
159
CABREIRA, T., O Algarve Económico, p. 164.
160
55
Quadro n.º 31
As Principais Indústrias do Algarve em 1911 Indústrias N.º de fábricas N.º de motores Potência (HP) N.º de operários 1911 1917 1911 1917 Metalúrgicas 6 7 - 172,5 - 45 Cerâmicas 2 2 - 32 - 45 Químicas 3 2 - 16 - 15 Alimentares 41 59 - 659 - 3 206 Têxteis 15 1 - 27 - 340 Corticeira/mobiliária 22 5 - 118 - 1 244 Gráficas 3 7 - 110,5 - 124 Total Algarve Continente 92 - 77 - 70 2 205 1 135 - 1 430 105 742 5 019 - Fonte: CABREIRA, Tomás, O Algarve Económico, p. 160. Para 1917, MARQUES, A. H. Oliveira
(dir.), História da Primeira República Portuguesa. As Estruturas de Base, Iniciativas Editoriais, p. 215 e Estatística Industrial, Ano de 1917, Boletim do Trabalho Industrial, n.º 116, Lisboa, 1926.
Quadro n.º 32
Distribuição dos estabelecimentos industriais no distrito de Faro em 1917 Concelhos N.º de estabelecimentos N.º de operários e empregados Albufeira 2 231 Faro 32 553 Lagoa 10 835 Lagos 25 1 169 Loulé 13 377 Olhão 53 2 891 Alportel 28 357 Silves 20 663 Tavira 8 248 Portimão 12 1 225 V. R. S. A. 36 1 637 Algarve Continente 239 5 647 10 186 130 095 Fonte: ABECASSIS, D., Estudo Geral Económico e
Técnico dos Portos dos Portos do Algarve, Junta Autónoma do Porto Comercial de V.R.S.A., Porto, 1926, p. 21.
56
Quadro n.º 33
A Indústria Algarvia em 19 17
N.º de
estabelecimentos Homens Mulheres
Empregados de escritório Total Menores Maiores Mestres Total Menores Maiores Mestres Total
239 709 4 009 257 4 975 1 084 3 967 13 5 064 147 10 186 Fontes: MARQUES, A. H. Oliveira (dir.), História da Primeira República Portuguesa. As Estruturas de
Base, Iniciativas Editoriais, p. 215, Estatística Industrial, Ano de 1917 e Boletim do Trabalho Industrial, n.º 116, Lisboa, 1926.
Em relação à indústria têxtil, cerca de 1915, «vigorava um autêntico trust
industrial, conquanto limitado, o de Modesto Gomes dos Reis, que agrupava fábricas … em Loulé, Faro, Silves, Vila Real de Santo António, etc»161.
O distrito de Faro posicionava-se como o quarto mais industrializado do país, a seguir a Lisboa, Porto e Braga. A população operária era, em número absoluto, a mais importante, mais uma vez depois daqueles distritos, embora, «o numero de motores das
fabricas algarvias não [estivesse] na proporção do pessoal algarvio, o que, em parte, é devido à technica de certas indústrias algarvias e ao excessivo predomínio do trabalho manual noutras industrias»162.
Em Setembro de 1915, o comandante Mendes Cabeçadas traçava um quadro optimista da economia regional ao afirmar que estava «magnificamente estabelecida». E adiantava: «A nossa exportação excede em mais de dois mil contos a importação e a
balança comercial da provincia vae a perto de quatro mil contos. As nossas conservas de peixe, as nossas frutas verdes e secas, os nossos primôres, tudo isso tem os seus mercados no paiz ou no estrangeiro, não chegando em geral para os abastecer»163.
De extrema importância foi a instalação de Armazéns Gerais164 para a indústria de conservas165 e para a de cortiça166, destinados a auxiliar estas indústrias em contexto de alguma dificuldade na exportação, onde os industriais depositariam os seus produtos, em troca dos capitais necessários ao prosseguimento da sua actividade167.
161
ADF. Fundo: Câmara Municipal de Faro, Actas das Sessões da Câmara Municipal, 1910-1919, Sessão de 26/11/1911, Livro 42 (1910-1912), B/A.1 e OLIVEIRA M., O. H., História. da 1ª República Portuguesa, p. 223.
162
CABREIRA, Tomás, O Algarve Económico, p. 165.
163
MENDES, Adelino, O Algarve e Setúbal, p. 22.
164
Decretos n.º 766, 18/8/1914 e n.º 783, 21/8/1914.
165
Decreto n.º 1.972, 19/10/1915.
166
Consultar Decreto n.º 810, 29/8/1914 e decreto n.º 865, 16/9/1914.
167
Sobre um pequeno inquérito às fábricas de conservas e de cortiça para a atribuição de cerca de mil escudos para os armazéns gerais consultar ADF. Inventário do Governo Civil, Livro Copiador de Correspondência do Governo Civil, 1914-1915 (236), «Ofício ao Sr. Administrador do Concelho de Faro», n.º 335, 14 de Dezembro de 1914.
57
Analisemos, pois, a evolução das mais importantes indústrias algarvias durante a guerra, chamando a atenção para a grande carência de dados estatísticos respeitantes à produção e à exportação.
6.1. Conservas
Os principais centros conserveiros168 localizavam-se em Portimão, em Olhão, em Lagos e em Vila Real de Santo António. Este último centro tornar-se-ia na principal lota de atum, não apenas do Algarve, como do próprio país, e importante no fabrico e exportação de conservas do referido produto.
Com o deflagrar da guerra intensificar-se-ia a criação de novas fábricas e de infra- estruturas de apoio, nomeadamente, cais, litografias, secções de lata vazia, serralharias, etc. Em 1917, tinha crescido significativamente este sector, com primazia para os centros de Olhão, Vila Real de Santo António, Portimão e Olhão169. Naquele ano, representava 33,47% do número de estabelecimentos industriais do Algarve e empregava 77,28% do número de operários e de empregados (Quadro n.º 34).
Quadro n.º 34
Distribuição das fábricas de conservas de peixe no distrito de Faro em 1917 Concelhos N.º de fábricas N.º de operários Albufeira 2 231 Faro 2 206 Lagoa 9 830 Lagos 13 1 019 Quarteira 3 268 Olhão 34 2 638 Silves 1 91 Tavira 2 185 Portimão 6 1 055 Castro Marim 2 - V. R. S. A. 8 1 349 Total 80 7 872 168
Acerca da indústria de conservas no Algarve, consultar RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira, A Indústria de Conservas no Algarve (1865-1945), Tese de Mestrado, Lisboa, FSCH-UNL, 1997.
169
Na Câmara dos Deputados, António Macieira, diria com júbilo que «O país trabalha. Há uma nova, grande e útil agitação comercial e industrial em toda a nação. O Algarve aumenta com catorze as suas fábricas de conservas»(Diário da Câmara dos Deputados, Sessão de 7 de Fevereiro de 1917).
58
Fontes: ABECASSIS, Duarte, Estudo Geral Económico e
Técnico dos Portos dos Portos do Algarve, Junta Autónoma do Porto Comercial de V.R.S.A., Porto, 1926, p. 22 e ADF. Fundo Governo Civil, Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1918, Mç2/Cx761.
Como industriais destaque-se o incontornável «capitão da indústria de
conservas», Júdice Fialho (1859-1934), com fábricas em várias localidades do Algarve,
e mesmo fora da região, destinadas quer à produção de conservas de sardinha, quer de atum170.
Com o deflagrar do conflito a exportação de conservas de Olhão conheceu alguma dificuldade conduzindo à paragem dos cercos e ao encerramento das fábricas. Para diminuir os prejuízos os industriais solicitavam que fossem tomadas algumas medidas, designadamente a criação provisória do regime de warrants, que o governo adquirisse conservas em todos os centros produtores e alargamento dos prazos para reforma das letras171. A resposta a estas momentâneas dificuldades foi a criação dos armazéns gerais, como já deixámos sublinhado.
Também o deflagrar da guerra tinha tido um impacto negativo em Vila Real de Santo António. O minério das minas de S. Domingos e a exportação de conservas, estas para o importante mercado alemão, seriam afectados pela falta de transporte marítimo. O desemprego começava a alcançar uma dimensão preocupante172.
Durante a guerra esta indústria atravessaria sérios problemas no fornecimento de folha-de-flandres, cuja caixa, em Março de 1917, atingia os 48$00173, do estanho, de óleos e de azeite174, tendo mesmo levado ao encerramento de fábricas.
170
Este industrial que aliava a dureza das suas posições para com os operários à filantropia. Num gesto benemérito ofereceu à Cruz Vermelha 100 caixas de latas de conservas de sardinha com destino às tropas portuguesas algures na frente de combate (O Algarve, n.º 497, 30/09/1917, p. 1).
171
ADF. Inventário do Governo Civil, Livro Copiador de Telegramas do Governo Civil, 1908-1915 (447), «Telegrama aos Exmos. Ministro do Interior, das Finanças e Fomento», 18/8/1914.
172 “Alerta povo de Vila Real de Santo António”, Província do Algarve, n.º 307, 08/11/1914, p. 2. 173
O Algarve, n.º 470, 25/03/1917, p. 3. Houve mesmo casos de contrabando para Espanha. Cf. O Algarve, n.º 520, 10/03/1918, p. 2.
174
Cf. Decreto n.º 4.698, de 24/07/1918, O Algarve, n.º 541, 04/08/1918, p. 4, n.º 542, 11/08/1918, p. 1 e n.º 551, 13/10/1918, p. 1. Em telegrama de 3 de Dezembro de 1917, o Governador Civil, Francisco Vieira, afirmava que o azeite depositado nos armazéns gerais de Lagos pertenciam à firma União Industrial Lacobrigense, e que eram exclusivamente destinados ao fabrico de conservas (ADF. Inventário do Governo Civil, Livros Copiadores de Telegramas do Governo Civil, 1918 (138A), «Telegrama ao Exmo. Subsecretário do Ministro do Trabalho, Lisboa», de 3 de Dezembro de 1917).
59
Esta matéria-prima tinha também evidentes implicações sociais, às quais se aliava a paulatina introdução das máquinas de cravar com a viva oposição dos soldadores que temiam pelos seus postos de trabalho.
Aqueles contratempos175 foram rapidamente ultrapassados. O período de 1914- -24, foi a sua década de ouro, correspondendo, quanto a nós, a um verdadeiro take off do sector.
A enorme procura de sardinha por parte de espanhóis tinha feito subir fortemente o seu preço, colocando em risco o funcionamento das fábricas de conservas. Solicitava-se ao governo o estabelecimento de uma «taxa prohibitiva» da exportação de sardinha por fabricar, quer para Espanha quer para qualquer outro país176.
Entre 1914 e 1918, a exportação de conserva de sardinha, a mais exportada, aumentou 94%, em quantidade e, 1.191%, em valor. O preço médio da tonelada cresceu 667% (Quadro n.º 35).
Quadro n.º 35
Exportação de conservas de Sardinha (1914-1918)
Unidades: toneladas e contos
Anos Sardinha (1) Índice (2) Contos (3) Índice (4) Preço médio da tonelada (5) Atum (6) Outras (7) Total (1+6+7) 1914 18.488 100 1.678 100 90$08 1.633 142 20.263 1915 25.269 137 2.466 147 97$60 2.228 2.418 29.915 1916 24.537 133 3.701 221 150$83 1.337 3.233 29.107 1917 31.530 171 7.130 425 226$13 1.293 1.733 34.556 1918 35.880 194 21.658 1.291 600$36 858 810 37.548
Fontes: Comércio e Navegação. Estatística Comercial, anos de 1910 a 1920, in A. H. Oliveira Marques (Dir.),
História da Primeira República Portuguesa. As Estruturas de Base, p. 226.
175
Cf. por exemplo "O Algarve e a Guerra", O Algarve, n.º 333, 09/08/1914, p. 1 e "No período da guerra", O Algarve, n.º 334 , 16/08/1914, p. 1.
176 “Assunto grave”, O Arauto dos Interesses Algarvios, n.º 27, 21/01/1915, p. 3.
60
Gráfico n.º 4
Fonte: Quadro anterior.
Gráfico n.º 5
Fonte: Quadro anterior.
1914 1915 1916 1917 1918 100 2100 Índ ic e Anos
Índice da Exportação de Conservas de Sardinha 1914-1918 T one la da s Va lor 1914 1915 1916 1917 1918 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 30.000 35.000 40.000 Anos
Exportação de Conservas de Sardinha 1914-1918
Toneladas
61
Para o Algarve, apenas conhecemos a produção de 1915 e 1916, em caixas de 100 latas de 1/4 club 30 mm, cujo aumento apenas atingiu os 4,3%, longe dos quase 30% de aumento registado no total (Quadro n.º 36).
Quadro n.º 36
A Produção de Conservas nos Centros Conserveiros Algarvios (1915-1916)
Anos Lagos % (1) Portimão % (1) Olhão % (1) V.R.S.A . % (1) Total Algarve Total Geral 1915 192.159 12,56 265.026 17,32 307.277 20,08 81.562 2,38 846.024 1.529.814 1916 171.321 8,76 336.681 16,95 293.455 14,77 81.184 4,44 882.641 1.985.545
(1) - % da produção total nacional.
Fonte: Boletim dos Organismos Económicos, n.º 2, vol.1º, Dezembro 1935, Gráficos 22, 30 e 31.
Embora sejam parcos estes elementos, os dados da exportação nacional e os testemunhos deixados permitem-nos afirmar que os lucros dos conserveiros algarvios foram consideráveis.
Em Olhão o impacto da guerra contribuiria para o seu desenvolvimento industrial visto que «o fornecimento de peixe em conserva, tanto em molhos como em
salmoura, quer às tropas portuguesas envolvidas em operações de guerra em África e na Flandres (...), quer aos exércitos dos outros países Aliados contra a Alemanha, fez aumentar muito o número de fábricas...». Neste centro conserveiro, no final da
contenda, existiriam cerca de 80 unidades, embora, algumas «verdadeiramente
improvisadas nas instalações e apetrechamento, sem organização eficaz e sem suporte financeiro suficiente, …», pelo que, terminadas as hostilidades, muitas encerraram177
. A exportação enriqueceu grande número de industriais; Júdice Fialho178 - «o
maior armador de pesca de todo o mundo»179 - de Portimão; os Ramires, de Vila Real
de Santo António; os Padinhas, de Tavira, entre outros. «A França e a Inglaterra
devoravam as suas conservas de peixe»180.
A acumulação de capitais fora enorme: «Lucros, muitos lucros! Fábricas, muitas
novas fábricas!
177
NOBRE, Antero, História Breve da Vila de Olhão da Restauração, p. 160.
178
O jornal O Arauto elogiava este industrial pelos «bairros novos de Portimão, criados principalmente com a migração dos seus operarios e maritimos e a epargne de seus salariados. [...] sem o auxilio do Estado, britanicamente ou melhor à yankée, tem sido o maior propulsor do fomento da provincia», (“Patrícios ilustres. João António Judice Fialho”, O Arauto dos Interesses Algarvios, n.º 46, 3/6/1915, p. 1).
179
MENDES, Adelino, O Algarve e Setúbal, p. 94.
180
62
Era verdade que o escudo se desvalorizava quási dia a dia; que os preços das matérias primas subiam vertiginosamente; que os escudos que se recebiam pela venda das conservas, não chegavam para fabricar a mesma quantidade de mercadoria.
Mas ninguém, ou poucos, se preocupavam com essas ninharias.
Estava-se num período áureo de «laissez faire», de «laissez aller», da economia libera»l.
O clima de euforia, perante os tempos que corriam, a ganância dos industriais e a falsificação da qualidade do produto foram retratados por um técnico da Direcção-Geral das Indústrias: «Veio depois a Grande Guerra, em 1914, e então a grande maioria dos
conserveiros portugueses pôs absolutamente de parte todos os princípios de higiene a que já me referi, e, tendo unicamente como objectivo fabricar muito e vender depressa, porque então tudo se vendia para os países em luta, começou a encher as latas com qualquer espécie de peixe e assim tivemos ocasião de ver, como conservas de sardinha portuguesas, o carapau, a cavala, toutiços, cabeças, etc.
Resultou de todo este abuso, como era de esperar, o descrédito da nossa indústria de exportação, que durante tantos anos marcou na nossa balança económica do nosso país como a de maior rendimento em moeda estrangeira.
Mas não pararam aqui as aspirações industriais, que nunca pensaram um momento nas consequências funestas que este estado de coisas havia de causar a toda a indústria! Continuaram montando mais fábricas nas mesmas condições, com todos os defeitos de instalação, sem que aparecesse alguém com autoridade que lhes embargasse o passo. [ ... ]»181. Um outro autor dá-nos conta do comportamento dos vários sectores sociais ligados às conservas neste período de vacas gordos. Com a guerra «a indústria de conservas absorvia sempre mais peixe. Cresceram os armadores,
multiplicaram-se os conserveiros e os exportadores.
E as conservas portuguesas desacreditaram-se!», visto que «encheram-se latas de sardinha com tudo: - cabeças de sardinha, talos de couve, serradura...
E, então, ninguém reclamou ao Governo!
A trampolinice criminosa, fazia-se, contando com o afundamento do barco, para roubar a companhia de seguros.
181
63
Autor do crime o industrial, seu cúmplice, às vezes instigador, o comerciante”182
.
6.2. Cortiça
Sector antiquíssimo na província era, conjuntamente com a antecedente, uma das mais importantes, tendo em Silves183 o seu epicentro, embora S. Brás de Alportel184, Faro e Portimão185 fossem também destacados centros corticeiros186.
O negócio da cortiça, no último quartel do século XIX, criaria uma nova burguesia. Foi «Gente simples e humilde» que «bafejada pela fortuna ... conseguiu
triunfar. Os Uvas, Louros, Dourados, Viegas, Barreiras, Claras, Eusébios e Gagos dominam a estrutura social» de S. Brás de Alportel. Os sinais exteriores de riqueza
surgem em vários momentos, designadamente, nos casamentos187.
Em 1910, a indústria de cortiça representava 8,9% e 6,9%, respectivamente do número de trabalhadores e do valor acrescentado do total da indústria portuguesa188.
Em 1911, o parque industrial da cortiça assentava essencialmente na manufactura e em unidades domésticas oficinais, repousando a confecção dos produtos
182
DIAS, Da Cunha, Conservas de Peixe. Subsídios Para o Estudo de um Problema Nacional, pp. 177 e 179.
183
Sobre a introdução da indústria corticeira em Silves ver DOMINGUES, J. D. Garcia, Silves. Guia Turístico da Cidade e do Concelho, Região de Turismo de Algarve, 1989, p. 54 e CUSTÓDIO, Jorge, “Tecnologias e Maquinismo na Avern, Sons & Barris de Silves”, Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês. Exposição Permanente. Estudos e Catálogos, Fábrica do Inglês, S.A., Silves, 1999, p. 84.
184
No projecto de lei de criação deste concelho constatava-se: «Foram os habitantes de S. Brás de Alportel quem iniciou, em Portugal, o comércio das cortiças e provocou o desenvolvimento da indústria correspondente. São ainda os habitantes de S. Brás quem colhe e negocia 50% da produção corticeira do país» (Arquivo Parlamentar, ano de 1914, cit. in Estanco Louro, O Livro de Alportel, p. 146.
185
Por exemplo, nesta cidade, em 1870, José Joaquim Serpa (Portimão, 8/8/1827 – Portimão, 25/6/1912), visconde de Alvor, fundou uma fábrica de rolhas de cortiça, com o capital de 50.000$000 réis. Nela trabalhavam 100 operários, utilizando matéria-prima do Algarve e Alentejo, e com uma produção de 35.000.000 de rolhas por ano no valor de 52.500$000 réis. Como muitos industrias algarvios também negociava em frutos secos (SILVA, José Krohn da e CÔRTE-REAL, Miguel Maria Telles Moniz, Titulares do Liberalismo do Algarve. Subsídios Histórico-Genealógicos, Edição dos Autores, Lisboa, 2006, p. 78).
186
ABECASSIS, Duarte, Estudo Geral Económico e Técnico dos Portos dos Portos do Algarve, Junta Autónoma do Porto Comercial de V.R.S.A., Porto, 1926, p. 22.
187
DUARTE, Afonso da Cunha, Memórias – S. Brás de Alportel. Igrejas e Instituições Religiosas, vol. I, Casa da Cultura António Bentes, S. Brás de Alportel, 2005, p. 75.
188
LAINS, Pedro, Os Progressos do Atraso. Uma Nova História Económica de Portugal 1842-1992, Quadro n.º 4.6, p. 138. Em princípios de Fevereiro de 1893, aquando da visita ao Algarve de Alfredo de Canellas e de Azedo Gneco, membros da comissão central de inquérito à indústria corticeira, o último lastimaria que a «grande exportação de cortiça em prancha que, por não ser cá manipulada, vae, com grande prejuizo nosso, enriquecer os mercados das outras potencias; ...» (Noticias do Algarve, Semanário Monárquico Independente, n.º 1, 5/2/1893, p. 1).
64
no trabalho operário - «energia a sangue» -, com pouca incorporação da mecanização189. Entre 1870 e 1920, a história do sector rolheiro nesta cidade, pautou-se
«pela presença da mão e da habilidade ou “indústria” do operário corticeiro ...»190. Em 1913, o número de fábricas teria descido para 13, nas quais trabalhariam 1.050 operários191, enquanto, os dados referentes a 1917 mostram que se verificara um acentuado crescimento no número de unidades (Quadro n.º 37).
Quadro n.º 37
Distribuição das fábricas de cortiça no distrito de Faro em 1917 Concelhos N.º de fábricas N.º de operários Alportel 23 299 Faro 9 114 Silves 13 503 Portimão 2 99 Total 46 1 015
Fonte: ABECASSIS, Duarte, Estudo Geral
Económico e Técnico dos Portos dos Portos do Algarve, Junta Autónoma do Porto Comercial de V.R.S.A., Porto, 1926, p. 22.
Aceitando os dados anteriores, concluir-se-á que a média de operários por fábrica se reduziu significativamente, acentuando a pulverização industrial - anúncio de problemas no sector e correspondente crise social -, localizando-se, em Silves, e, em Portimão, as fábricas com maior concentração de operários.
Em Silves e noutros centros corticeiros algarvios predominava a indústria rolheira. Entre 1914 e 1919, a exportação de matéria-prima e cortiça semi- manufacturada correspondeu a valores que raramente ficavam abaixo dos 90%192.
O deflagrar da contenda colocou em difícil situação o comércio de cortiça: entre 1914-1918, «as exportações de quase todas as classes de cortiça sofrem uma quebra
notável: 63,9 por cento na cortiça de prancha, de 88,9 por cento na cortiça virgem, de 39,3 por cento nas aparas e de 38 por cento nos quadros. Apenas a exportação de
189
Entre a maquinaria utilizando a força braçal encontramos as garlopas (máquinas para fazer rolhas), as máquinas de rabanear, as quadradoras manuais, as contadoras, as calibradoras e as prensas manuais.
190 CUSTÓDIO, Jorge, “Tecnologias e Maquinismo na Avern, Sons & Barris de Silves”, Museu da
Cortiça da Fábrica do Inglês. Exposição Permanente. Estudos e Catálogos, Fábrica do Inglês, S.A., Silves, 1999, p. 85, 93 e 110.
191
BERNARDO, Hernâni de Barros, "Subsídios para o estudo da indústria corticeira", Boletim da Junta Nacional de Cortiça, n.º 47, Set. 1942, p. 12.
192
65
rolhas não manifesta tendência para o declínio e a serradura, pelo contrário,