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Intervju med Morten Barreth, Veidekke

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3.8 Intervju med Morten Barreth, Veidekke

Como até aqui pudemos ver, se no plano econômico os séculos 18 e 19 foram radicalmente marcados pelas mudanças trazidas pela Revolução Industrial, podemos dizer que a Revolução Francesa foi a alma no que concerne a todo o complexo ideológico das ideias políticas que percorreram o fim do século 18 e todo o século 19. A este respeito o historiador marxista inglês, Eric Hobsbawm, sintetiza o duplo movimento perpetrado por ambas as revoluções.

Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução francesa.43

A compreensão profunda destes dois grandes eventos que os precederam, com a aquisição teórica proporcionada pelos anos de debate com os jovens hegelianos e com o pensamento de Hegel, assim como com as aquisições no campo da experiência política proporcionada pela realidade alemã, possibilitou a Marx e Engels elaborarem uma nova e radicalmente crítica filosofia. Uma filosofia que não atribuísse tanto às ideias qualidade de sujeito ativo nas transformações

42 Ibidem, p. 126-127

ocorridas no mundo dos homens, como também às forças mecânico-deterministas da natureza.

Com a Revolução Industrial estava lançada de forma efetiva a possibilidade de no plano do pensamento os homens entenderem a si mesmos como os reais construtores e senhores de seu mundo; com a Revolução Francesa esta real possibilidade de compreensão teórica era corroborada. Por meio dela, a compreensão de que se um homem é servo e outro é nobre, não poderia mais ser explicada nos termos de uma predestinação divina em que uns nascem para serem sempre servos, enquanto outros vieram ao mundo para serem reis, nobres e clérigos.

Se, até então, os homens estiveram organizados em relações sociais que os faziam pensar que uma ordem natural ou divina era a criadora ou mesmo a portadora da estabilização do mundo (do universo), com as transformações postas em marcha por ambas as Revoluções, não mais eram aceitáveis tais explicações. Atribuir a entidades, para além dos homens, a construção da realidade humana não passaria de devaneios frente ao que mostrava Revolução de 1789. A transformação desencadeada na Inglaterra e na Francesa pôs abaixo todo o misticismo que vedava entender até a raiz a realidade social.

Foi a partir desse solo histórico que nossos autores puderam alcançar a raiz do ser social, superando as concepções de mundo desenvolvidas tanto pelo idealismo alemão, como pela teoricamente avançada economia política clássica e, por conseguinte, entender, para além da pretendida nova filosofia de Feuerbach, que o mundo sensível é fruto da atividade sensível dos homens; que os homens fazem as circunstâncias, tanto quanto as circunstâncias fazem os homens, por mais que tais circunstâncias estejam perpassadas pela alienação.

A partir destas condições é que nossos autores desenvolveram uma nova concepção de mundo, em que o homem, o ser social, não é entendido como “um ser abstrato, acocorado fora do mundo”44, senão que o “homem é o mundo do

homem”45. Uma nova concepção que permitiu entender tanto a história humana como uma processualidade distinta da que configura os demais seres naturais, como também evidenciar as raízes ontológicas da alienação, a qual paira na vida dos homens como uma “força natural”.

44 MARX, K. 2005, p.145 45 Idem.

– CAPÍTULO 2 –

TRABALHO E DEVIR DO MUNDO DOS HOMENS

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da Natureza orgânica, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da história humana: o simples fato, até aqui encoberto sob pululâncias ideológicas, de que os homens, antes do mais, têm primeiro que comer, beber, abrigar-se e vestir-se, antes de se poderem entregar à política, à ciência, à arte, à religião, etc; de que, portanto, a produção dos meios de vida materiais imediatos (e, com ela, o estádio de desenvolvimento económico de um povo ou de um período de tempo) forma a base, a partir da qual as instituições do Estado, as visões do Direito, a arte e mesmo as representações religiosas dos homens em questão, se desenvolveram e a partir da qual, portanto, das têm também que ser explicadas — e não, como até agora tem acontecido, inversamente.46

Com estas palavras de Engels é que dialogaremos neste capítulo. Não por serem belas as palavras, senão porque contém em si um denso conteúdo que sintetiza, a nosso ver, o núcleo da concepção materialista histórico-dialética do mundo dos homens. No diálogo com os problemas que tal citação suscita iniciamos nossa investigação, a saber: o que vem a ser o processo de autoconstrução humana, a história humana, posto em movimento pela mediação do trabalho, e a alienação (estranhamento) que encontramos nessa história.

Desde os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 (Manuscritos de Paris,

Manuscritos de 44) à A ideologia alemã, ou seja, passando pela A Sagrada Família

e as Teses ad Feuerbach, encontramos a edificação de um pensamento filosófico, uma concepção de mundo que, nos parece, possibilita compreender o movimento do devir humano em todas as suas contradições.

Com efeito, podemos dizer que é emblemática47 essa afirmação com que iniciamos o capítulo, quando lida à primeira vista. Verdade que não deixaria – e não

46 Discurso pronunciado em inglês por Engels no cemitério de Highgate em Londres, em 17 de Março

de 1883. Publicado em alemão, integrado num artigo de Engels sobre o enterro de Marx — Das

Begräbnis von Karl Marx — no jornal Der Sozialdemokrat, n.° 13, de 22 de Março de 1883. Publicado

segundo o texto do jornal. Traduzido do alemão. Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida por um coletivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo III, pág: 179-181.

47 É importante alertar para o risco de se extrair da afirmação de Engels algum caráter determinista

nos moldes de uma linearidade em que primeiro é necessário comer para depois fazer arte. Antes, Engels demarca um ponto de inflexão no modo como devem os homens interpretar sua realidade, já

deixou – de causar aborrecimentos nem mesmo entre os pós-modernos de nossos tempos, nem tampouco entre os mais modernos filósofos48. O fato é que falar de “lei do desenvolvimento da história humana” suscita, a nosso ver, alguns problemas.

Atualmente, vemos como se apresenta tal desenvolvimento – em seus aspectos destrutivos e trágicos para a humanidade –, o que nos leva de imediato a enumerar duas inquietações a esta afirmação de Engels, e também de Marx: a) Seria a história humana um movimento linear evolutivo – marcado por um desenvolvimento necessário regido por leis implacáveis à semelhança da natureza – , cujos variados acontecimentos “trágicos” ou “gloriosos” que atravessaram a humanidade até hoje seriam acidentes necessariamente naturais fadados a acontecer? b) Estariam as palavras de Engels na contramão de declarações que propositalmente tendem a naturalizar as relações sociais alienadas presentes nos termos de um “inevitável o existente estado de coisas”49?

As respostas a tais inquietações tentarão ser apresentadas por nós como aportes a uma das questões fundamentais de nossa pesquisa: O que é a história

humana (historia do ser social), ela difere da história dos seres naturais? A resposta

a esta pergunta basilar nos ajudarão a entender o que é a autoconstrução humana e, por conseguinte, nos proporcionará a compreender a alienação (estranhamento) do ser social.

Muito alcançaremos no que concerne a estes problemas, se tentarmos entender o que vem a ser o homem para filosofia marxiana. Todavia, nos parece conveniente realizar algumas considerações necessárias antes de adentrarmos nesta problemática.

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