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Os anos 1980 representaram, para a arqueologia, uma etapa no surgimento de novas propostas, sugestões e revoluções interpretativas da cultura material. De origem inglesa, o chamado pós-processualismo inseriu-se na Academia com novas propostas teóricas e amplitudes temáticas anteriormente inexistentes ou suprimidas: gênero, identidade, simbolismo, colonialismo, oprimidos e poder (Trigger 2004; Johnson 2000). O retorno às perspectivas históricas e a adoção de abordagens marxistas advindas do revisionismo da Escola de Frankfurt marcaram fortemente os trabalhos da nova trupe anglo-americana que encabeçou a arqueologia pós-processual (Trigger 2004). “Nos anos 1980 a arqueologia viu a emergência gradual de estudos preocupados em interpretar significados culturais no passado que envolvessem questões de poder e dominação, história e gênero.” (Hodder, 1999, xiii).

As discussões sobre a episteme, legitimidade e multiplicidade dessa nova perspectiva são inúmeras, e não me cabe aqui colocá-las em tamanha totalidade. Meu interesse em relevar as propostas interpretativas, como são hoje mais evocadas, é em buscar a abertura temática e teórica rumo às discussões da responsabilidade social do arqueólogo, de seus impactos sobre o presente e ética profissional.

O início dos trabalhos ditos pós-processuais foi marcado por uma oposição forte de autores britânicos aos trabalhos da arqueologia antropológica americana denominada “Nova Arqueologia” (bem como a arqueologia analítica do britânico David Clarke). As propostas da Nova Arqueologia, ou arqueologia processual, foram construídas em contraponto ao excessivo historicismo e seriação que preponderava na arqueologia européia até os anos 1960 (conhecida como histórico-cultural) (Trigger, 2004). O processualismo, metodologia embasada nas “hard sciences”, considerando a sociedade como homogênea e a cultura material como seu fiel reflexo, propunha a possibilidade

53 de conhecer com precisão processos humanos de comportamento no passado que fossem passíveis de certa generalização (Shanks & Hodder 1998).

Certamente, a arqueologia processual possui seus méritos

metodológicos. No entanto, me aproximo mais da arqueologia pós-processual pois ela “não precisa mais ser ‘nova’ e unidirecional, apresentando uma frente unificada. Ela possui a maturidade para permitir o desvio, a controvérsia e a incerteza” (Hodder 1999).

Assim, um dos rompimentos que mais me atrai no pós-processualismo é justamente a frente que faz ao cientificismo do processualismo. Em sua afronta, o pós-processualismo inaugura a liberdade das subjetividades dentro da arqueologia.

As doutrinas e valores da “nova” arqueologia estão sob processo de desmantelamento; para muitos eles nunca foram aceitáveis. Livros tais como Symbols in Action de Ian Hodder (1982b), The Evolution of Social Systems (Friedman and Rowlands (eds.) 1978), Symbolic and Structural Archaeology (Hodder (ed.) 1982), e Ideology, Power and Pre-history (Miller and Tilley (eds ) 1984) tem demonstrado o valor e importância de novas orientações de pesquisa para a análise das relações entre práticas sociais e padrões de cultura material. (Shanks; Tilley 1992, p. 1).

Dentre as inúmeras influências que agiram sobre o pós-processualismo, vou me resumir à citação de algumas que me parecem as mais centrais. Bruce Trigger defende que o retorno às perspectivas históricas e a adoção de abordagens marxistas advindas do revisionismo da Escola de Frankfurt marcaram fortemente os trabalhos da nova trupe anglo-americana que encabeçou a arqueologia pós-processual (Trigger, 2004). De acordo com Mark P. Leone, Parker Potter Jr. e Paul Shackel (1987), “arqueólogos são convidados a considerar a teoria crítica, entre outros motivos, pelo fato de que interpretações arqueológicas apresentadas ao público podem adquirir significados não intencionados pelo arqueólogo e não encontrados nos dados” (p. 284). Entre as diversas propostas da arqueologia crítica está a desmistificação do trabalho arqueológico, encarado como ideologia, através da exposição aberta de todos os seus processos, deixando à clara vista os métodos de análise e construção do conhecimento (Leone et alli 1987).

54 A influência do pós-modernismo e do pós-estruturalismo francês também foi marcante nas novas propostas da arqueologia dos anos 1980. Matthew Johnson nos dá um excelente panorama das propostas revisionistas apresentadas pela “condição pós-moderna”.

A “condição pós-moderna” foi definida pelo filósofo francês François Lyotard como de incredulidade às metanarrativas. Lyotard sugere que a condição pós-moderna é o que caracteriza o conhecimento nas sociedades capitalistas ocidentais.

Uma metanarrativa é um discurso sério que se apresenta como reivindicação à posse de uma verdade absoluta. (Johnson, 2000, p. 201).

Ela visa à desconstrução dessas metanarrativas que “se apresentam” como detentoras da verdade absoluta e, conseqüentemente, do poder de manejo das realidades sociais. A ciência é uma dessas metanarrativas e na Academia segue-se o questionamento da disciplinaridade como produtora de visões oficiais e superiores sobre as realidades sociais no presente e no passado (Johnson, 2000). Cabe aqui assinalar três concordâncias entre o pós- modernismo e o pós-processualismo essências para minha argumentação.

Primeiro, “a perda de confiança na Ciência, a crítica ao essencialismo, a ênfase na diversidade de leituras e a dificuldade de fixar-se em um significado” (Johnson 2000, p. 206). Segundo, o questionamento sobre a segurança metodológica da disciplina: seria a arqueologia uma disciplina com métodos tão específicos, distinta de suas similares nas ciências humanas? E terceiro,

O pós-modernismo sugere que exista um comprometimento com outras formas de conhecimento fora da esfera do que tradicionalmente se conhece como “arqueologia” ou “ciência”. (…) Não podemos simplesmente continuar escrevendo sobre o passado como “pensamos que deve ter ocorrido”, independentemente do presente. De fato, devemos atender ao contexto social, político e cultural da arqueologia (Johnson 2000, p. 206-207).

Essa preferência por uma posição política ao invés de uma suposta neutralidade científica é uma das contribuições que mais me interessam do pós-modernismo. A possibilidade de abrir a caixa-preta e mostrar seu complexo funcionamento (Latour 2000) permitindo aí a inclusão de outros discursos no fazer arqueológico é um meio de lidar com as situações de conflito, de

55 democratizar as formas oficias de construção de conhecimento, de dar voz a setores sociais antes silenciados. O pós-processualismo parte do pressuposto de que a ciência não nos traz a verdade, mas sim uma das possíveis perspectivas sobre o objeto estudado, sendo assim subjetiva e aberta a revisões (Shanks & Hodder 1995, p. 3).

No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, a arqueologia pós- processual assume uma nova postura. Em 1995, Michael Shanks e Ian Hodder publicam um texto em que tentam remanejar a imagem do pós-processualismo, de maneira que passe a evocar mais as “maneiras correntes de pensar em arqueologia” do que a oposição entre duas tendências. Assim, sugerem o conceito “arqueologias interpretativas”, já que o interesse do artigo é pela “interpretação em arqueologia” (SHANKS & HODDER 1998, p. 3).

O passado, mesmo quando foi presente, nunca se apresentou de maneira homogênea, assim como tampouco se apresenta padronizado nos dias de hoje. “A história é uma bagunça” (SHANKS & HODDER 1998, p. 9), o cotidiano do passado é polissêmico, defendem os autores, e, portanto, cheio de incertezas, conflitos e possibilidades. Citarei aqui apenas dois exemplos de como a arqueologia interpretativa traz preocupações que são características da arqueologia pública.

Um deles me foi indicado e pode ser encontrado numa obra igualmente marcante entre as produções de arqueologia na pós-modernidade. Janet Spector possui um artigo no livro Engendering Archaeology (“Colocando gênero na arqueologia”), editado por Margaret W. Conkey e Joan M. Gero.

Nesse texto (What this Awl means – “O que este furador31 significa?”) (Spector

1991), a autora nos apresenta, como define, o desenvolvimento de seu método de escrever arqueologia: de seus questionamentos sobre uma possível arqueologia feminista aos questionamentos sobre uma arqueologia demasiado colonialista.

31 Em inglês, o termo “awl” significa “um instrumento com ponta para perfurar pequenos buracos em couro, madeira, etc.” (Dictionary.com 2010).

56 Seu primeiro interesse foi tentar descobrir a que ponto podemos enxergar, e a que ponto se pode preservar, relações de gênero na cultura material. Para isso, partiu de dados etnográficos e etnohistóricos, além do desenvolvimento do que chamou de Task differentiation system (“Sistema de diferenciador de tarefas”), que aparenta ser uma tábula que identifica primeiramente as relações de gênero e funcionalidades a elas atreladas e, em segundo lugar, as expressões que essas relações deixam na cultura material. A continuação de sua proposta era tentar identificar os resultados dessa tábula em um sítio arqueológico.

Durante os trabalhos de campo, encontrou um furador decorado de maneira peculiar. O trabalho com descendentes dos indígenas que viveram em Little Rapids (comunidade de seu trabalho de campo), com outros indígenas Wahpeton e em contato com bibliografia sobre o assunto, a autora começa a se questionar sobre a forma como deveria escrever as interpretações dos dados arqueológicos: “Enquanto o diferenciador de tarefas chama atenção para o gênero ele não altera o modo como apresentamos conhecimento sobre o passado” (Spector 1991, p. 393). Sentindo o peso do eurocentrismo na prática arqueológica contraposto à alternativa interpretativa que lhe fora ficando clara durante seu trabalho (pela etnografia, etnohistória, contato pessoal com descendentes) a autora elege uma forma diferente de condensar seus dados e apresentar seu trabalho. Ela cria uma narrativa centrada em uma garota indígena de grande importância em sua aldeia, cujo furador é um elemento de expressão de suas habilidades manuais na juventude e representa sua capacidade em tornar-se uma mulher central na vida comunitária. Através do mesmo foco, ela tenta alcançar a imagem ridícula de um missionário que tenta ensinar aos Wahpeton como plantar.

Primeiro, Riggs [o missionário] ofereceu-se para ensinar aos homens como arar como se eles nunca tivessem considerado a idéia, ou como se as mulheres estivessem dispostas a abandonar seus campos de milho. Suas idéias sobre o trabalho adequado que cabia a homens e mulheres lhes apreciam espantosas, e suas sugestões de ferir a terra, cortando-a com um arado era incompreensível. Finalmente, Riggs insultou-lhes inconscientemente ao sugerir que poderia substituir Mazomani como líder espiritual da comunidade.

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(...)

Uma noite, enquanto guardavam o resto do milho colhido elas [mãe e filha] riram juntas, lembrando do “rezador” Riggs e suas idéias sobre homens plantando milho (Spector 1991, p. 398; 401).

De fato, a narrativa apresenta relações de gênero expressas nas condutas cotidianas (resgatadas por documentação e oralidade) e marcadas na cultura material (o furador decorado, peça central, mas não única, da narrativa). Em contraponto ao seu próprio trabalho, ela nos dá detalhes da análise de outro pesquisador, bem mais tradicional, do mesmo tipo de furador. A análise tradicional se debruça mais sobre os dados quantitativos na formulação de suas propostas. No entanto, o resultado é um discurso que trata a presença de metal em aldeias indígenas, a exemplo, como prova de aculturação.

Por exemplo, um tema dominante em suas apresentações é que os furadores de metal produzidos pelos europeus são mais significativos que os instrumentos produzidos pelos indígenas. Essa história é incorporada as suas classificações, títulos de tabelas, e freqüentemente enfatizado ao longo do texto. Finalmente é reforçada quando os autores reiteram a significância dos de pontas de metal como marcadores de influências européias sobre indígenas e a desintegração da cultura nativa em suas discussões. Imagino que para mulheres Dakota (e certamente de outras tribos) essa história teria soado divertida, irritante, ou simplesmente errada, especialmente aquelas que inscreviam seus instrumentos de osso ou chifre como um modo de visualizar e expressar publicamente suas realizações (Spector 1991, p. 402).

Antes de uma arqueologia que fale sobre quantidades levando a um perigoso estamento de aculturação, uma que fale de qualidades e se abra a expressão de outras histórias e discursos. Sua proposta, condizente com a corrente interpretativa, abarca questionamentos diretos sobre o rumo da disciplina acadêmica. Que tipo de arqueologia queremos? Aquela que responda às questões do colonizador branco ocidental ou dos povos colonizados a lutar ainda hoje por seu passado? Seria melhor adotarmos uma perspectiva mais metódica e, no entanto, mais excludente ou uma narrativa diferenciada e, no entanto, menos precisa? Seria possível uma visão metódica e includente? O texto da autora apresenta uma boa alternativa, a meu ver, para essas questões. Pode ser que alguns ainda não aceitem tão bem a

58 fragmentação da Verdade, mas parece interessante, em nossos dias, que aprimoremos propostas multivocais. Veremos um caso similar sobre a “cor” dos antigos egípcios quando for comentar as propostas de “alcance e educação”.

O segundo exemplo é da arqueologia da repressão, presente na produção, por exemplo, do arqueólogo Andrés Zarankin. Um de seus textos conta sobre os trabalhos desenvolvidos em um Centro Clandestino de Detenção (CCD), o Clube Atlético (na verdade, codinome para Centro Anti- subversivo, CA), que funcionou de fevereiro a dezembro de 1977, em Buenos Aires. Esse artigo, escrito com um sobrevivente de um CCD, deixa bem claro seus objetivos:

Por um lado, buscamos entender a lógica de funcionamento e organização do espaço e a arquitetura deste dispositivo desaparecedor de pessoas. O segundo objetivo foi contribuir à construção de uma memória material. Ou seja, transformá-la em algo físico, para assim poder ser percebida de maneiras diferentes à palavra (falada ou escrita). Uma memória que possa ser tocada, cheirada, experimentada (Zarankin & Niro 2006, p. 179).

Nesse trabalho, participaram outros sobreviventes de CCD’s. Além de atrelar indivíduos à reconstrução de um passado marcante em suas vidas, oferece novas possibilidades interpretativas à cultura material, como vemos no trabalho de Janet Spector, contemplando significações profundas aos signos materiais de momentos extremamente carregados.

Usando métodos de análise espacial provenientes da arquitetura, os autores propõem uma compreensão dinâmica do funcionamento do porão do CA.

A aplicação destes modelos permite observar como elemento como organizativo do espaço, um parâmetro de maximização e operacionalidade dos procedimentos repressivos. Funciona como base desta estrutura, uma circulação restringida e controlada, além de um profundo isolamento dos ambientes. (...)

Existe também um elemento simbólico associado à organização do espaço. Assim, a medida que se avança em direção ao interior do CCD, o nível do suplício vai aumentando. Imaginemos que o prisioneiro não pode ver, mas sim experimentar esse espaço através dos sentidos. Os odores de

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corpos e fluidos humanos, a umidade e a falta de ventilação, o calor e o frio, os gritos e lamentos de outros detidos, a dureza das paredes e do piso – onde era colocados - (Zarankin & Niro 2006, p. 175).

Como podemos ver, o espaço não é um mero conjunto de materiais construtivos, mas uma estrutura erigida em aspectos formais que dialogam com nosso corpo, sem palavras a serem lidas, apelando para os demais sentidos. Os trabalhos de Zarankin em arqueologia da arquitetura e arqueologia da repressão mostram como os métodos e parâmetros analíticos da arqueologia podem ser adotados para a compreensão do conflito na sociedade contemporânea, através da demonstração sobre os mecanismos de repressão. Não somente de compreensão, mas também de atuação na sociedade contemporânea, na medida em que essa reificação das memórias dos sobreviventes é artifício para o “não-esquecimento” e para a reivindicação de justiça.

Não poderia me esquecer da importância do World Archaeological Congress – WAC (Congresso de Arqueologia Mundial) nesse movimento de “humanização” da disciplina. O WAC surgiu em 1986 como dissidência do International Union of Prehistoric and Protohistoric Sciences - IUPPS (União Internacional de Ciências Pre-históricas e Proto-históricas), devido a um desentendimento interno sobre as posturas da instituição frente à liberdade acadêmica e o regime do apartheid na África do Sul (Funari 2006). Desde seu inicio, a proposta do WAC tem sido aproximar a prática e o conhecimento arqueológico daqueles das populações vivas: aproximar-se do outro não como um objeto de estudo, mas como indivíduos e grupos humanos que vivem o mundo de acordo com suas próprias normas. Além de incorporar o outro leigo, reforça a unidade e proximidade da ciências européia com os demais continentes, bem como entre esses próprios continentes.

WAC é o resultado dessa luta, rompendo com a tradição ao incluir na Organização, representantes de todos os continentes e de povos indígenas. Pela primeira vez, a arqueologia teve chance de libetar o mundo ao invés de explorá-lo (Funari 2006, p. 75).

60 Em suma, meu propósito com essa rápida passagem pelo pós- processualismo foi mostrar como “nos anos 1980 a arqueologia viu a emergência gradual de estudos preocupados em interpretar significados culturais no passado que envolvessem questões de poder e dominação, história e gênero.” (Hodder, 1999, xiii). Nos anos 1990 a perspectiva pós- processual começa a tomar sua independência da dicotomia criada com o processualismo e volta-se cada vez mais às múltiplas possibilidades que criou dentro da teoria arqueológica.

É nesse contexto que o conceito de arqueologia pública começa a ampliar suas fronteiras e ir além da batalha jurídica e legislativa, embora esse tipo de atuação nunca tenha se esgotado (e não creio que deva).