Esta dimensão, importância das linguagens artísticas em contexto terapêutico, foi analisada com o intuito de conhecer as perceções dos participantes e dos técnicos relativamente à importância das expressões artísticas em contexto terapêutico.
Quanto a este ponto, interessou-nos conhecer a relevância das expressões artísticas na perspetiva da transformação e das mudanças pessoais e sociais (Abad, 2011; Bernet, 2004; Eça, 2010).
No que se refere às perceções dos participantes deste estudo, só um dos inquiridos não mencionou nada acerca deste assunto, o participante B. Relativamente aos outros participantes, as opiniões divergiram, onde cada um opinou de modo único e pessoal, no entanto, de uma forma geral, todas elas foram ao encontro do que tem vindo a ser mencionado: as artes enquanto metodologia interventiva, ferramenta privilegiada para processos de introspeção (Oliveira, 2007), onde o indivíduo cria e produz o seu próprio diálogo interior (Lopes, 2007): “foi uma forma de exprimir o que ia na alma [foi] uma forma de fazerem algumas pessoas das ditas excluídas pela sociedade obterem a atenção na parte de pessoas que no fundo, por breves momentos nos fazem sentir úteis.” (PE-Q1) e acrescenta “aprendi que com este tipo de atividades, pode ser o tempo necessário para fazer a escolha certa diante de alguns pensamentos que me levam à tentação de fazer coisas que em nada contribuem para qualquer coisa boa.” (PE-Q5).
Sobre esta opinião, tal como já foi referido anteriormente, estamos perante a introspeção, na qual acrescentamos aqui a exteriorização e reflexão. O momento em que a partir das artes o
participante reflete e cria um diálogo com o seu próprio interior, induzindo-o a manifestar os seus sentimentos, pensamentos e emoções.
Para o participante D, este contacto com as linguagens artísticas é benéfico porque, tal como ele refere: “(…) Foi um género de escape da vida quotidiana.”, salientando: “Acho que foi tudo engraçado, como se a gente levasse tudo natural sem pensamentos negativos (…)”, é a oportunidade que ele define e entende como: “ a gente pensar um bocadinho e refletir.”, um momento de: “(…)convívio entre todas as pessoas que vivem no dia-a-dia, praticamente na rua.” . Já o participante G admite que gostou “Do convívio, as pessoas estavam calmas e não havia confusões. Quando há convívio há tudo.”.
Os resultados obtidos revelam que o contacto com as artes proporciona a introspeção, mas, também conduz à oportunidade de convívio, de fomento das relações interpessoais entre todos os membros que integravam o grupo terapêutico. Mais uma vez, os dados apontam para a importância das artes enquanto impulsionadoras de expressividade interior e de desenvolvimento das relações interpessoais entre os indivíduos em contexto terapêutico (Cerdá, Cerdá & Cerdá, 2006; Jacob, 2007).
No que se refere às perceções dos técnicos, os dados apontam para um reconhecimento da importância das práticas artísticas em contexto terapêutico. Nesta linha, a diretora técnica esclarece:“(…) sempre reconhecemos essa importância das linguagens artísticas (…), enquanto motor na inclusão, quer em âmbito de outras atividades, quer em contexto terapêutico (…)” e explica “(…) estas linguagens artísticas são importantes, principalmente, quando têm um significado ou um objetivo e conseguimos trabalhar para além da competência artística uma série de outras competências que estão associadas.”.
No que se refere às representações do assistente social, este técnico admite: “(…) as linguagens artísticas acabam por ser uma forma de trabalho em contexto mais informal (…) e que nós achamos que, através destas práticas, conseguimos captar mais a atenção deles (…) isto em contexto terapêutico acabou por resultar muito bem. Porque conseguimos (…) captá-los e motivá-los a virem (…) participar nas atividades terapêuticas” e exemplifica: “Durante aquele tempo em que estavam a fazer os desenhos, estavam completamente atentos e pareciam que estavam nas «coisas». Mesmo o D a ler, a questão dos livros, as imagens, o A a participar, o C concentradíssimo (…)”.
No seguimento destas ideias, a enfermeira apresenta o seu ponto de vista: “Pode ser uma forma de expressão, porque muitas vezes eles não conseguem logo à partida falar diretamente aquilo que estão a sentir (…) a pensar. (…) as linguagens artísticas podem ser um meio para conseguirmos chegar a eles e eles se exprimirem.”, [o facto] de trabalharmos algumas questões artísticas, ajudam a desbloquear um bocadinho a forma deles se exprimirem, não usando o que é habitual,
que é a falar. (…) Podem usar a pintura, o desenho como meio de exprimir aquilo que estão a sentir (…) no desbloqueio emocional”,
Assim, os dados relativos às perceções dos técnicos permitem-nos perceber que todos admitem a importância das linguagens artísticas no que diz respeito a práticas inclusivas:“(…) As linguagens artísticas são sempre uma mais-valia, são certamente úteis na integração e na inclusão social. ” (DT-Q1) na medida em que “(…) permitem dar uma outra visão da intervenção, ou seja, salientar o demais positivo que há nestes grupos, que muitas vezes são excluídos e marginalizados. Permite ver o outro lado, potenciar estes fatores ou estas capacidades destes indivíduos e trabalhar outras questões, às vezes muito mais eficaz do que qualquer ação programada (…)” (DT-Q2). Por isso, as práticas artísticas “(…) podem ser uma ferramenta útil para ajudar as pessoas a ficarem mais à vontade, mais confiantes naquilo que vão dizendo. (…)” (E-Q1).
Neste sentido, os dados reforçam a ideia de que as linguagens artísticas são naturalmente uma ponte, são propulsoras e intermediárias para uma sociedade cada vez mais inclusiva. Dito de outro modo, as linguagens artísticas coadjuvam na interajuda recíproca, na uniformidade inter-relacional entre a sociedade e os indivíduos socialmente marginalizados e excluídos (Reis, 2014). As artes, como representação de uma forma de união, são terreno fértil na criação de oportunidades de igualdade (Lopes, 2007).