5. Økonomisk mestring
5.5. Inntekt ingen betydning/hindring?
Como afirmamos anteriormente, o ego em Joyce tem uma função particularíssima. De fato, o ego joyciano tem um papel muito diferente daquele que se espera de um ego que é associado a uma dimensão imaginária. Porquanto, ele não equivale à forma como o sujeito se
relaciona com o seu próprio corpo, isto é, ele tem uma outra função na qual a relação imaginária não acontece, pelo menos no sentido que é dado a esta relação “em que um corpo é limitado a sua imagem no espelho” (LAIA, 2001, 132), ou, então, “na representação feita por um outro” (ibid). A função deste ego particular consistirá em remendar um erro, um lapso
no enodamento dos três registros: real, imaginário e simbólico. Mas não pretendemos entrar nesta questão ainda, antes abordaremos um ponto que julgamos fundamental para compreensão da função do ego em Joyce, a saber: a epifania.
Na aula intitulada de “Joyce e as falas impostas”, Lacan assevera, diante de seus
ouvintes, que na maioria das vezes não nos lembramos do fato de que as falas, de alguma maneira, nos são impostas. Por mais que o sujeito dito normal não perceba isso, a fala é como
“um parasita”, “uma excrescência” e uma “forma de câncer pela qual o ser humano é afligido” (ibid, p.92). Curiosamente, na maioria das vezes a facilidade de perceber a fala
como imposta é encontrada naqueles que são ditos como anormais. Não por acaso, nesta aula Lacan vai reportar-se a dois casos de psicose, a filha esquizofrênica de Joyce e um paciente que ele havia apresentado recentemente. Entre estes dois casos a fala imposta se apresentava como um fator em comum, seja pela telepatia que o paciente declarava ter, seja pela telepatia que Joyce atribuía a sua filha Lucia. Entretanto, nosso objetivo neste momento não é, a exemplo de Lacan, o de entrar no campo da narrativa desses casos, mas, sim, destacar que para Joyce alguma coisa, no que diz respeito à fala, lhe era como que imposta.
No esforço que faz desde seus primeiros ensaios críticos, logo depois em O retrato
do artista, enfim em Ulisses, para terminar em Finnegans Wake, no progresso de certo modo contínuo que sua arte constituiu, é difícil não ver que uma certa relação com a fala lhe é cada vez mais imposta – a saber, essa fala que, ao ser quebrada, desmantelada, acaba por ser escrita –, a ponto de acabar por dissolver a própria linguagem... (ibid, p. 93).
Trata-se, então, da experiência singular de Joyce com as palavras, já que ele as experimenta, como algo que lhe é estranho, heterogêneo, imposto. As palavras lhe aparecem como que estrangeiras por causa de seu sintoma, que como já afirmamos anteriormente está associado com a sua carência paterna. Lacan vai compreender o sinthoma em Joyce como algo que promove a compensação paterna, além de permitir que ele possa lidar com esse aspecto de imposição das palavras. Para tanto, o escritor irlandês irá chegar ao extremo de infligir à própria linguagem, por meio de sua escrita, “um tipo de quebra, de decomposição,
que faz com que não haja mais identidade fonatória.” (ibid, p. 93).
Deste modo, a arte de escrever em Joyce será marcada por uma decomposição da fala, porém, uma ambiguidade permanece em torno disso, porque não há certeza de que o escritor teria optado pelo caso de livrar-se: “do parasita [...] ou, ao contrário, de se deixar invadir por
propriedades de ordem essencialmente fonêmica, pela polifonia da fala.” (ibid). De qualquer
maneira, somos levados à hipótese de que a escrita de Joyce poderia ser concebida, na verdade, como um modo de enfrentar o caráter impositivo das falas. Uma forma de defesa frente à dimensão enlouquecedora da fala, naquele que não recebeu um apaziguamento nesta dimensão pela função do Nome-do-pai (MANDIL, 2003).
Esta tentativa de defesa vai resultar muitas vezes, na escrita de Joyce, em uma trama marcada por uma ilegibilidade. Na verdade, Lacan questiona seus ouvintes:
Por que Joyce é tão ilegível? É preciso fazer de tudo para imaginar por quê. Talvez seja porque não evoca em nós simpatia alguma. Mas, nessa nossa questão, será que alguma coisa não poderia ser sugerida pelo fato, patente, de ele ter um ego de uma natureza bem diferente? (LACAN, 1975-1976/2007, p. 147-148).
Para que possamos rastrear uma resposta a essa pergunta, devemos nos voltar para o nó borromeano que Lacan havia apresentado um pouco antes dele realizar estes questionamentos. Nesse nó ele propõe a suposição de que uma falha, um lapso, seja introduzido. Mas não em qualquer lugar, em um lugar específico, que como podemos notar ele destaca no nó:
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Esta falha consistirá na passagem do terceiro círculo, aquela correspondente ao simbólico, por cima do círculo do real, ao invés de passar por baixo deste. Como é possível imaginar esse lapso seria responsável pelo fácil desprendimento do círculo do imaginário. O que para Lacan representaria em Joyce, depois da surra sofrida por Stephen, o não acontecimento da relação imaginária. Assim, aquilo que anteriormente abordamos sobre a perspectiva da relação do escritor irlandês com seu corpo, agora também relacionamos com a trama das palavras que compõem a obra de Joyce. O porquê disso se deve ao fato de que com a queda da relação imaginária há um desprendimento entre o real e o inconsciente – sendo que este último também poderia ser tomado como simbólico –, já que como é de se esperar no nó borromeano, se um anel for cortado, todos os demais se separam.
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Este desprendimento do imaginário vem nos provar que no momento da surra o ego de Joyce não funciona, pelo menos de acordo com o que se espera de um ego associado à dimensão imaginária:
Precisamente no momento da sua revolta [...] esse ego não funciona, não prontamente, mas apenas um tempo depois, no momento em que Joyce testemunha não manter mais nenhum reconhecimento, se assim, posso dizer, por quem quer que seja, devido à surra que recebera. (ibid, p. 148).
Desta forma graças a essa falha e ao fato do ego de Joyce não funcionar, surge nele à possibilidade que uma obra seja concebida de tal forma que a leitura dela torna-se inviável, pelo menos segundo os parâmetros tradicionais de uma leitura que “exige a composição imaginária de um encadeamento narrativo, uma determinada captura do sentido do que foi lido, alguma subjetivação ou algum reconhecimento do que foi relatado.” (LAIA, 2001, p.
134).
Como afirmamos anteriormente, Lacan, ao término do seminário O sinthoma, irá agregar à epifania uma importante função de amarração, coisa que ele não havia feito durante todas as aulas anteriores: “É totalmente legível em Joyce que a epifania é o que faz com que
graças à falha, inconsciente e real se enodem.” (LACAN, 1975-1976/2007, p. 151). Além
disso, o psicanalista aproxima a epifania ao real, o que não quer dizer que ela possa ser tomada como tal, como o próprio real ou como parte dele. Para Lacan, o que haveria é uma ligação, graças ao erro no nó, entre as epifanias de Joyce e o real: “todas as suas epifanias são
caracterizadas sempre pela mesma coisa, [...], a saber, que o inconsciente está ligado ao
real.” (ibid). Esta é uma distinção importante, porque a ordem do real, diz respeito ao não-
interpretável ao não-analisável, aquilo que insiste em não se escrever e que abole todo o sentido.
A epifania em Joyce vai representar um enodamento entre inconsciente e real, significando que o campo do sentido encontra-se fora desse processo. Pois, como vimos no capítulo anterior, Lacan localiza em sua representação do nó borromeano plano a noção de sentido na articulação entre o Simbólico e o Imaginário. Sendo que este último vai exercer um papel importante ao sentido, já que o imaginário é o seu suporte, nas palavras de Lacan: “O sentido é aquilo pelo que alguma coisa responde que é diferente do simbólico, e essa alguma coisa, não há meio de suportá-la senão pelo imaginário do corpo.” (LACAN, 1974/1975, 10
de dezembro de 1974). Sendo assim, o campo do sentido é resultado do enodamento do simbólico com o imaginário. Porém, de acordo como Laia (2001), mesmo na epifania haveria uma abertura no texto de Joyce para o sentido, para a legibilidade¸ o que se opõe a
brilhantemente: “A obra joyceana, mesmo inundada de neologismos e de enigmas, mesmo
transliterando a letra em lixo, isto é, mesmo marcada por uma certa ilegibilidade, não deixa de comportar uma dimensão narrativa em que algum sentido, mesmo em fuga, não deixa de fluir. (p. 150).
Então, diante do fato de que em Joyce haveria uma falha que permite a queda do imaginário, poderíamos questionar: o que impede que a sua obra não se constitua como uma avalanche verbal desprovida de qualquer sentido ou, então, em algo que se igualaria até mesmo com a delirante da psicose? A resposta para isso encontra-se naquilo que o ego particular de Joyce encarna diante desta falha: um artifício de escrita que recompõe o nó borromeano, tal como Lacan desenhou no lugar do lapso.
Ilustração 8 19
Tratar-se-á, pois, de um ego particular que pode ser concebido no caso de Joyce como uma alternativa ao desvanecimento do ego como figura imaginária, ou seja, tal como Lacan destacou no relato da surra de Stephen, à ausência de interesse do escritor pelo ego como dimensão imaginária do corpo. Um segundo enodamento, que diferentemente do primeiro, seria responsável por uma amarração do simbólico e do real que inclui o imaginário. Graças a esse enodamento que não permite que o imaginário se solte é que a obra de Joyce ainda mantém um compromisso com a narrativa e a legibilidade.
A seguir, apresentaremos algumas considerações finais.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Lacan afirma, na primeira aula do Seminário 23, que o pai é um sintoma, ou melhor, um sinthoma. Isto nos remete père-version, termo francês, que faz homofonia com
perversion, permitindo assim uma aproximação, mesmo que fonética, entre versão do pai e perversão do pai, representa um conceito que nos permite abordar uma nova perspectiva no ensino de Lacan, em que ele pluraliza os Nomes-do-Pai, tal como havíamos assinalado no primeiro capítulo. Mas, o que queremos ressaltar neste momento, é que Lacan, nesta passagem, havia enfatizado a necessidade da ex-sistência de um sintoma para que o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real seja possível.
Por isso no Seminário R. S. I., anterior a este, fomos introduzidos por Lacan na topologia borromeana dos nós. Com a qual o psicanalista francês passou a enfatizar a necessidade de um quarto elemento que funcionaria como ponto de amarração, proporcionando, assim, em seu ensino, uma nova forma de enodamento dos três registros, a saber: o nó borromeano de quatro anéis.
Lacan encontrou em James Joyce, escritor irlandês, que para muitos era um psicótico não desencadeado, uma invenção que diz respeito a esta amarração dos três registros. Uma invenção que no escritor irlandês ocupou o lugar de quarto elemento e que o psicanalista chegou a denominar de Sinthoma.
Trata-se da escritura de um nó, que em Joyce mantinha uma profunda ligação com a literatura. Porém, não uma ligação qualquer, mas sim, por meio de uma escrita incomum, recheada de enigmas e de suas famosas epifanias. Com a qual, ele promovia uma experiência singular com as palavras, com o propósito de infligir na própria linguagem uma quebra e uma decomposição. O que, posteriormente, veio a ser compreendido como uma forma de enfrentar aquilo que o afligia, a saber: o caráter impositivo das falas.
Sem dúvida a escrita teve um papel fundamental em Joyce, por meio dela ele pôde promover uma amarração entre o simbólico e o real. Todavia, este enodamento não incluía o registro do imaginário que se desprendia do simbólico, resultando assim numa escrita destituída de sentido. Pois, em Joyce havia uma falha no enodamento dos registros e a escrita por si só não era capaz de solucioná-la. Tal solução foi identificada por Lacan naquilo que ele denominou de ego particularíssimo de Joyce.
O que nos remete ao fato de que o ego em Joyce, que Lacan também chegou a denominar de sinthoma Joyce, representa uma prova incontestável de que a falha no enodamento dos três anéis pode ser suprimida por uma outra amarração possível, ou seja, uma outra amarração do nó, por meio do acréscimo de um quarto anel, que não consiste no Nome-
do-Pai, mas naquilo que vai além dele. Sem dúvida, como vimos anteriormente, em Joyce a
forclusão de fato, caracterizada pela demissão paterna, já que seu pai jamais fora um pai para ele, foi compensada pelo desejo de ser um artista reconhecido por muitos e um trabalho de nomeação infligido pelo próprio escritor.
De fato, para Lacan, o desejo de Joyce de ser um artista reconhecido e homenageado pelos universitários, por um longo período de tempo, trezentos anos para ser exato, representava uma compensação de uma carência paterna. Já que ele era um filho de um pai bêbado e decadente, que havia se demitido de sua função paterna. Sendo assim, o caso de Joyce representou e ainda representa para a clínica da psicose, uma solução da falha da carência paterna que faz a mesma função do Nome-do-Pai, porém, sem ser o significante deste. Dito isso, partindo do nó apresentado por Lacan, podemos concluir que a falha corresponde a essa carência paterna em Joyce e o ego que corrige, por sua vez, se encontra no escritor atrelado ao desejo de ser artista e à invenção de um nome próprio.
Somos convocados pela clínica da psicose para criar condições, nas quais o paciente possa tecer o seu próprio sinthoma. Esse é um fato que sempre nos guiou na elaboração deste trabalho. Agora, ao término deste percurso, em que procuramos avaliar o papel do sinthoma
joyciano na clínica da psicose, podemos concluir, mesmo que parcialmente, que esta solução vem representar uma suplência na qual Joyce compensa a sua falha. A sua suposta forclusão
de fato que estaria relacionada a uma demissão paterna. Tratar-se-á, pois, de uma compensação que ocorre em função de um ego que corrige. Um ego que não diz respeito ao ego narcísico com o qual estamos familiarizados, mas um ego particularíssimo.
A partir de tudo que estudamos, promovemos uma reflexão com o propósito de articular àquilo que a suplência joyciana pode vir a contribuir com a clínica e com a estabilização psicótica. Apresentaremos algumas contribuições à clínica psicanalítica que podem ser elencadas aqui:
A pluralização dos Nomes-do-Pai vem representar no ensino de Lacan uma perspectiva que permite pensar o conceito de suplência com base numa generalização, já que este passa a ser pensado na neurose como um elemento suplementar. Enquanto, na psicose surge a oportunidade de conceber outros
significantes que possam vir a exercer a mesma função do Nome-do-Pai, ou seja, uma função de basteamento do imaginário e do simbólico.
As possíveis tentativas de soluções que o sujeito psicótico pode vir a apresentar não seguem necessariamente os padrões de uma metáfora delirante, tal como o exemplo que encontramos no caso paradigmático de Schreber.
Há multiplicidades de soluções, já que Joyce apresentou antes mesmo do desencadeamento psicótico uma suplência singular que fez função do Nome- do-Pai.
Com base no último ensino de Lacan, e o uso que ele irá fazer da teoria dos nós borromeanos, podemos dizer que as suplências psicóticas sempre dizem respeito à escritura de um nó, de um enodamento dos três registros. Entretanto, isso não quer dizer que o psicótico, em sua solução, sempre vai percorrer uma via que leve à produção literária.
Certamente, ainda existe muito a ser estudado sobre esse assunto, porque um trabalho de dissertação não é capaz de dar conta de tudo aquilo que a psicose pode vir a contribuir para a psicanálise. Mas encerramos aqui com a esperança de poder continuar trabalhando esta temática em uma outra oportunidade, ou mesmo deixar que nossos colegas tragam outros desvelamentos.
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