Clara Maria Violante foi o membro da família que possuiu maior número de afilhados. Para percebermos o nível de importância social dos indivíduos da família Machado, buscamos em nosso banco de dados os assentos em que os membros desse grupo familiar apareciam como padrinhos e madrinhas. Após a contagem temos a relação apresentada na Tabela 15.
TABELA 15:
Afilhados dos familiares de Clara Maria Violante
Membro Número de
Afilhados
Parentesco com Clara
Caetano José Machado 2 Pai
Clara Dias Cunha 2 Mãe
José Caetano Machado 1 Irmão
Maria Caetana 2 Irmã
Joaquina Machado 1 Irmã
Clara Maria Violante 14 _
Fonte: AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lvs.1, 6 e 8.
370 SLENES, 1997, p. 268.
Ao analisarmos os assentos em que os familiares de Clara aparecem como padrinhos e madrinhas, conseguimos perceber a diferença entre a influência social dela e dos parentes mais próximos.
O pai, a mãe e a irmã Maria Caetana estabeleceram laços de parentesco espiritual ape- nas com pessoas cativas. A irmã Joaquina Machado só aparece entre os assentos já registrados em nosso banco de dados como madrinha do sobrinho Lúcio (filho natural de Clara) que fora exposto na casa da avó materna em 1805. O único irmão de Clara, José Caetano Machado também apadrinhou apenas uma inocente, sua neta Francisca, filha legítima de João Pereira Dias e Maria Clara.
Também é possível perceber que a legitimidade não foi um requisito para que os pais e irmãos de Clara aceitassem o papel de parentes espirituais. Entre os afilhados de Caetano José Machado, Clara Dias Cunha, Maria Caetana e José Caetano Machado, identificamos apenas uma criança proveniente de relação legítima para cada um dos indivíduos citados.
Entre os afilhados legítimos dos pais e irmãos de Clara, apenas José Caetano Machado não era padrinho de criança cativa. Maria Caetana e seu pai foram padrinhos de escravinhos pertencentes à escravaria de Antonio Luís de Oliveira; ele apadrinhou Francisca em 1759 e ela foi madrinha de José em 1804.371 Clara Dias Cunha, que também batizou um escravo fruto de relação legítima, aceitou o convite do senhor Antonio Soares Ferreira em 1760.372
Em 1761, Caetano José Machado fora padrinho de uma escravinha que também per- tencia a Antonio Soares Ferreira, que era fruto de uma relação natural. Clara Dias Cunha tam- bém batizou uma criança ilegítima e escrava um pouco mais tarde, em 1768, que pertencia a Francisco de Almeida.373
Outro membro da família que teve seus laços de compadrio limitado ao universo es- cravo foi Maria Caetana, que além do escravinho legítimo, anteriormente citado também foi madrinha de um homem cativo de origem africana e adulto, pertencente ao Alferes Manoel Ferreira Campos, no ano de 1818.374
Também comparamos os laços de compadrio de Clara Maria Violante e seu cônjuge, Antonio de Souza Lobo. Em termos de número de afilhados, ele foi o que mais se aproximou de Clara, mas mesmo assim estava abaixo de sua esposa nesse quesito de relevância social, sendo padrinho de 10 indivíduos.
371 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 1, p. 34 e lv. 8,
p.72.
372 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 1, p. 62. 373 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 1, p. 74 e 151v. 374 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, s./lv., s./p.
Entre os 14 afilhados de Clara, três eram comuns a Antonio de Souza Lobo. O primei- ro afilhado do casal foi batizado em 1816, era filho legítimo de um casal de escravos mistos (um africano e uma crioula) pertencentes aos Alferes Manoel Ferreira de Souza.375 A segunda criança que batizaramjuntos, em 1830 era filha natural de uma mulher parda.376 E, em 1831, foram padrinhos de uma inocente legítima, fruto de uma relação de crioulos forros.377
Antes de se casar com Clara Maria Violante, Antonio apadrinhou cinco crianças, sen- do três legítimas e duas naturais. Seus três primeiros afilhados tiveram madrinhas diferentes, que não aparentavam ter nenhuma ligação com ele. A primeira e o segundo afilhados foram batizados em 1802 e 1803, respectivamente. Eram filhos legítimos de casais cativos: Felicida- de e os pais (um casal misto, africano e crioula) pertenciam ao Alferes Manoel Ferreira Cam- pos e Adão e seus pais (pai sem origem declarada e mãe crioula) ajudavam a compor a escra- varia de Francisco Moreira Ribeiro.378
Em 1812 e 1814 Antonio aparece novamente como padrinho. Nas duas ocasiões fez par com a primeira esposa, Inácia Maria do Sacramento. Primeiro tornou-se pai espiritual de um menino, filho natural de uma mulher crioula e forra. Depois estabeleceu laços de compa- drio com outra mulher – essa, escrava – ao receber sua filha natural.379
Em 1816, além do afilhado legítimo que batizou ao lado de Clara, Antonio também foi padrinho junto com Aguida Gonçalves de Moraes de duas meninas naturais, filhas de uma escrava cabra do Capitão José Gonçalves Couto.380 O fato dos batismos ocorrerem na mesma data e ter os mesmos padrinhos nos leva a crer que as batizandas eram gêmeas.
Os afilhados de Antonio de Souza Lobo foram divididos igualmente entre legítimos e naturais. No entanto, das crianças nascidas de uniões sacramentadas pelo matrimônio, apenas uma era livre. Os afilhados de pais incógnitos eram três escravos e dois filhos de mães forras. Ao compararmos os laços de compadrio de Clara e Antonio temos uma diferença no número de afilhados e na composição social da rede em que cada um se inseriu. A Tabela 16 faz uma comparação entre os batizandos acolhidos por cada um e nos mostraque Clara estava mais envolvida com famílias legítimas e livres do que seu cônjuge.
375 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 6, p. 39. 376 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 6, p. 50. 377 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 6, p. 53. 378 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 8, p. 55v e 26. 379 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv.6, p. 32 e 37. 380 AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lv. 6, p. 39.
TABELA 16:
Afilhados de Clara Maria Violante e Antonio de Souza Lobo
Afilhados Naturais Afilhados Legítimos
Livres Escravos Livres Escravos
Clara Maria Violante 2 3 6 3
Antonio de Souza Lobo 2 3 1 4
Fonte: AEAM. Registros de Batismo. Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, lvs.6 e 8.
Ficaevidente que além de possuir um maior número de afilhados que os pais, irmãos e marido, Clara estava envolvida em uma rede de compadrio com mais pessoas livres e com relações legítimas. Além disso, essa mulher só estabeleceu laços espirituais com pessoas ex- ternas ao seu núcleo familiar. Ela pode não ter acumulado o maior monte-mor dos indivíduos que viveram em Manja Léguas e nem ter levado uma vida luxuosa – como destacamos, atra- vés da análise dos bens arrolados no Inventário –, mas se destacou no meio social em que vivia e firmou vínculos, expandindo suas relações e ganhando mais representatividade do que seus consanguíneos e seu cônjuge, sendo escolhida como madrinha, até mesmo, por um casal de brancos.