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A área deAnálise de Gêneros contribuiu com a discussão sobre o real valor do propósito comunicativo na definição dos gêneros. A perspectiva foi amplamente debatida por Swales (1990, 1992) e absorvida e, de certa forma, reformulada por Bhatia (1993). Bhatia considera que, em sua natureza e construção, o gênero é caracterizado essencialmente pelos propósitos comunicativos que pretende realizar, ainda que seja influenciado também por fatores como forma, conteúdo, audiência, meio ou canal. Conforme exposto no item anterior, a relação entre o gênero e o propósito comunicativo é tão forte que se pode conceber o gênero como “um exemplo da realização bem-

sucedida de um determinado propósito comunicativo, utilizando o conhecimento convencionado de recursos lingüísticos e discursivos” (BHATIA, 1993, p.16). Assim, de acordo com o autor, mudanças radicais nos propósitos comunicativos implicariam na formação de gêneros diferentes.

Mas o que seria exatamente o propósito comunicativo? Bezerra (2006) levanta esse questionamento e afirma que, mesmo examinando toda a literatura existente sobre o assunto, não encontrou nada a respeito de forma direta e objetiva. O autor faz uma revisão por autores que tratam do assunto como Swales, Askehave e Bhatia e orienta suas conclusões para a definição de que os propósitos comunicativos têm a ver exatamente com aquilo que os gêneros realizam na sociedade, admitindo-se que o propósito de um gênero não é único e predeterminado. No conjunto de propósitos comunicativos realizados por um gênero, haverá propósitos específicos ou “intenções particulares” de certos atores sociais, sejam eles os produtores do gênero ou os controladores de sua produção e circulação,

Assim, segundo Bezerra, o propósito comunicativo:

não será algo simplesmente imanente no texto como tal, visto que se trata sempre de um processo de construção social desse propósito ou propósitos, nem será uma realidade meramente psicológica, definível como “intenção do autor”, pois seria imperativo questionar essa onipotência do autor sobre o texto e sua recepção na sociedade (BEZERRA, 2006, p.70).

O propósito comunicativo (que ajuda a definir estilo e escolhas semânticas) se tornou um critério privilegiado e capaz de classificar um gênero se focado nas ações retóricas. No entanto, muitas vezes é dada pouca atenção às similaridades quanto à estrutura, estilo e conteúdo, que também ajudam a identificar o gênero. Ele pode ser considerado como o elemento principal na classificação de um gênero em sua análise, mas, ainda que cumpra a função de base para a análise, a principal dificuldade do uso do propósito está (ou estava, como veremos a seguir) justamente na concepção e na proposição de procedimentos que permitam manter um conceito de valor.

Com o objetivo de aprofundar a temática, Askehave & Swales (2001) apresentam um artigo que trata do paradoxo da super-valorização do propósito comunicativo como forma para categorização de gêneros. Ao mesmo tempo em que o propósito comunicativo parece ser a forma mais sensata para análise, a noção de

propósito ainda gera algumas incertezas quanto à classificação de gêneros e, também, quanto ao uso.

De acordo com a concepção de Swales (1990), um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos com um conjunto de propósitos comunicativos. Esses

propósitos são reconhecidos pelos membros experientes da respectiva comunidade

discursiva constituindo o fundamento que molda o gênero e a estrutura esquemática do discurso.

Askehave & Swales (2001) apresentam alternativas para o uso do propósito comunicativo na definição de gênero, tendo em vista o problema de usá-lo sempre como critério privilegiado. Entre as sugestões propostas está a de que o propósito comunicativo inicial (e mais explícito) deve ser considerado apenas como aparente e que é necessária uma investigação que leva em conta os aspectos formais e pragmáticos para que se chegue ao propósito comunicativo mais próximo do “real”. Os autores citam exemplos que ilustram que nem sempre o propósito aparente é, de fato, o propósito do texto. Propõem, também, uma solução para demonstrar que o propósito comunicativo pode ser demasiadamente evasivo e altamente impalpável para uma identificação e categorização iniciais ou prévias de discursos como pertencentes a certos gêneros.

Como último tópico, os autores sugerem a adoção de um procedimento para análise de gênero levando em consideração o texto e o contexto do gênero para análise. Os procedimentos, conforme os autores explicam, também oferecem promessas de investigação que são sensíveis à natureza dinâmica e evolutiva dos gêneros.

Sem dúvida, uma das mais importantes considerações sobre o tema está no que os autores chamam de “revisão do status de gênero” ou “repropósito”15, que sugere que o propósito inicial seja dado como aparente e que deve ser feita uma análise mais consistente, levando em conta fatores externos e de entendimento da comunidade, o que pode fazer com que o gênero seja classificado de uma forma diferente da inicial (ou re-classificado). A discussão sobre a importância do propósito comunicativo é

15

Repropósito surge como uma alternativa de re-considerar a categoria. Embora reconheçam o neologismo, os autores Askehave & Swales (2001) não demonstram preocupação em adotá-lo. Ao retomar essa noção, Swales (2004, p. 73-74) diz que o repropósito é “parte do kit de ferramentas para a Análise de Gêneros”.

apresentada no referido artigo de forma a tentar equilibrar a análise dos gêneros, ou seja, o propósito não é o único ponto de apoio para análise, mas também não pode ser ignorado em detrimento da forma. Essa ampliação da concepção de propósito alarga as fronteiras da análise do gênero e faz com que o pesquisador-analista se aprofunde na investigação, não se deixando levar pela forma aparente e simples de classificação. Araújo (2004) realizou o mesmo procedimento para analisar/mapear os propósitos comunicativos da constelação dos gêneros chats. Araújo usou entrevistas com os usuários para saber se eles “confirmavam” o que o analista pensava ser os propósitos dos chats. Em nosso trabalho, partimos desse ponto para melhor compreender sobre o propósito das mensagens, que explicitaremos melhor no capítulo 2. Metodologia.

A aplicação de uma metodologia que relacione o estilo do texto produzido (e aí se associam a forma/estrutura e o conteúdo) ao seu contexto de uso acaba por direcionar a pesquisa a um entendimento mais completo do gênero abordado. Nesse ponto é possível identificar as possíveis intenções do autor em produzir determinado texto, enquadrando-o em um gênero específico. Sem dúvida, a abordagem do “ponto de vista” do autor (ou do produtor) do texto através de pistas internas acabam por evidenciar o propósito comunicativo e, assim, oferecer mais segurança na classificação do gênero. O que muitas vezes parece ser um propósito inicial acaba sendo, de certa forma, substituído por um “repropósito” depois da análise mais cuidadosa.

No próximo item abordaremos o meio digital como “lugar” de criação/circulação e reprodução das cartas-correntes digitais, o que nos ajudará a entender o seu papel social e a sua formação.