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Innramming av livet

In document Utsyn med fridom (sider 77-80)

de nossa pesquisa, porém, vale ressaltar que essas transformações se deram em função de uma economia de poder que tinha exigência de métodos mais eficazes e rentáveis de se administrar as relações de poder. No caso das prisões – que depois se estendeu a todo o corpo social da época – se percebeu que a criação de técnicas de vigiar e punir eram cada vez mais eficazes e vantajosas, pois traziam como características principais a vigilância e o controle da disciplina imposta aos indivíduos.

Tomemos, como exemplo prático o Panóptico, adotado por Foucault, que o descreve como uma das mais brilhantes descobertas da sociedade capitalista. O Panóptico é compreendido como um aparelho compacto de exercício do poder, segundo as necessidades e peculiaridades daqueles que o exercem. A figura do Panóptico é vista por Foucault como um conjunto de mecanismos “que ligam os feixes de procedimentos do que se serve o poder” (FOUCAULT, 2008a, p. 160). Em termos de revolução, o autor compara o surgimento desta tecnologia do poder à máquina a vapor para o sistema de produção, dado o impacto dessa tecnologia na sociedade contemporânea. Isso ocorre justamente porque tal invenção foi utilizada em diversos ambientes sociais, nos quais se realizavam experiências de vigilância permanente.

Observou-se ainda o aperfeiçoamento dos registros, o surgimento dos dossiês, as anotações e classificações que, de certa forma, impulsionaram a ampliação desses procedimentos a outros segmentos da sociedade. Neste sentido, o panoptismo foi apoiado pelos aparelhos de Estado, pois, segundo Michael Foucault, este permitiu que os Estados se apoiassem nesses pequenos panoptismos por considerar que esta rede de dominação encontrara um instrumento que atenderia às necessidades na regulação das produções. Foucault descreve o Panóptico da seguinte forma:

O Panóptico de Bentam é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face inteira do anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central e, em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado ou um escolar. (FOUCAULT, 2008a, p. 166).

A partir desta descrição, podemos observar o que o autor define em que se pauta a genialidade desse dispositivo. O lugar possui diversas celas, ao mesmo tempo em que

cada um está totalmente individualizado e sozinho. Michel Foucault (2008a) aponta para o fato de que a visibilidade é enaltecida em detrimento da escuridão, típica prática nos antigos sistemas prisionais. Esta visibilidade pode ser considerada também como a grande armadilha do sistema.

Além da forma concreta com que o panóptico é visto na sociedade, faz-se necessário destacar o efeito apontado na teoria foucaultiana como sendo o mais importante deste dispositivo: “(....) induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder” (FOUCAULT, 2008a, p. 166). A esse respeito, Deleuze assinala:

Quando Foucault define o Panoptismo, ora ele o determina concretamente, como um agenciamento óptico ou luminoso que caracteriza a prisão ora abstratamente... A fórmula abstrata do Panoptismo não é mais, ‘ver sem ser visto’, mas impor uma conduta

qualquer a uma multiplicidade humana qualquer. (DELEUZE, 2006,

p.43).

É nesse sentido que direcionaremos nosso olhar ao abordarmos as questões relacionadas ao Currículo Lattes comparando-o ao modelo de panoptismo, sob o prisma tecnológico que – enquanto dispositivo de controle e vigilância – impõe, a partir de interesses e objetivos específicos, uma conduta de professores e pesquisadores frente às demandas no cenário institucional universitário brasileiro.

A essas considerações cabe-nos ainda destacar como este dispositivo age nas produções acadêmicas de pesquisadores da área de Arte, uma vez que esta possui características diferentes dos contextos acadêmicos das demais áreas de conhecimento, o que dificulta seu enquadramento a modelos e padrões de produtividade, presentes neste instrumento.

Assim, podemos associar características da Arte nas considerações de Michel Foucault (2002) sobre as palavras e as coisas que se abrem para o infinito:

Eles formam, neste espaço unido, onde as coisas normalmente se distribuem e se nomeiam uma multiplicidade de pequenos domínios granulosos e fragmentários onde semelhanças sem nome aglutinam as coisas em ilhotas descontínuas; num canto, colocam as meadas mais claras, noutro, as vermelhas, aqui, aquelas que tem mais consistência mais lanosa, ali, aquelas mais longas, ou as que tendem ao violeta, ou as que foram enroladas em novelo. Mas, mal são esboçados, todos esses

destrói as mais evidentes, dispersa as identidades, superpõe critérios diferentes, agita-se, recomeça, inquieta-se e chega finalmente à beira da angústia. (FOUCAULT, 2002, p. XIV).

Desta forma, podemos verificar que o dispositivo tecnológico apresenta características de controle, vigilância e adestramento, as quais os pesquisadores em âmbito acadêmico, incluindo a área de Arte estão sujeitos. Segundo Foucault, (2008a) - este aparelho cria e sustenta o poder independente de quem o irá exercer, de modo que os próprios detentos podem ser os portadores deste poder. A esse respeito devemos destacar que o aparelho dispõe ainda daquilo que é denominado poder visível e inverificável, ou seja, que o sujeito saiba que é observado, sem nunca saber de fato quem o observa da torre central.

A relação é com o mecanismo que aprisiona o indivíduo e não com a pessoa que faz a vigilância. A idéia do panóptico imaginado pelo arquiteto Bentham trazia ainda uma leveza às instituições, na medida em que, não havendo mais grades nem correntes torna- se necessária somente que a divisão das celas fosse bem definidas a fim de atender ao propósito do sistema. Dentre as funções desse dispositivo, temos a utilização do aparelho como uma máquina de transformação de comportamentos, a partir de uma vigilância discreta e silenciosa que permeia o ambiente em que o individuo está inserido. O fato é que não se trata tanto da figura do vigia, mas é a consciência de que existe alguém vigiando que transforma a conduta do indivíduo segundo os padrões determinados pelas instituições sociais.

Atuando de maneira discreta, o dispositivo promove mudanças nos programas disciplinares e funciona com eficácia, ao impor e avaliar a conduta no indivíduo e definindo as relações de poder que agem na vida cotidiana dos homens. Este pode ser utilizado em qualquer uso específico, na medida em que se trata de uma figura tecnológica e política.

Michael Foucault indica a utilização da figura do Panopticon e afirma que ao se tratar de uma multiplicidade de indivíduos, é necessário impor uma tarefa ou comportamento a fim de alcançar os objetivos específicos da instituição. Para o autor, é o fato de que tal mecanismo se intensifica que permite o aperfeiçoamento do exercício do poder:

Em cada uma de suas aplicações, permite aperfeiçoar o exercício de poder. (...) porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo que multiplica o número daqueles que são exercidos. (...) permite

intervir a cada momento e a pressão constante age antes mesmo que as faltas, erros sejam cometidos. (...) sua força nunca é intervir, é se exercer espontaneamente e sem ruídos. É constituir um mecanismo de efeitos em cadeia. (...) age diretamente sobre os indivíduos; “da ao espírito poder sobre o espírito”. (...) assegura sua economia; sua eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus mecanismos automáticos. É uma maneira de obter poder. (FOUCAULT, 2008a, p. 170).

Destacamos que o modelo do Panóptico permite a vigilância não somente por parte dos vigias da torre central, mas também por parte de todos os agentes sociais. Desta forma, qualquer membro da sociedade pode constatar o funcionamento do dispositivo. Focault (2008a) alerta que nesse sistema não há possibilidade de degenerar qualquer tipo de tirania, já que o modelo permite que qualquer pessoa vigie o menor vigia. Para o autor, esta máquina que permite ver, é como uma câmera cuja possibilidade de espionar e exercer o poder pode ser visualizada e controlada por toda a sociedade.

Estamos, pois, diante de uma estrutura que não pode ser somente identificada como um edifício onírico, mas trata-se – segundo a teoria foucaultiana – de um diagrama de poder pautado nas relações do olhar. Para Deleuze (2006), quando Foucault apresenta a idéia de diagrama, isto é, um instrumento que funciona se abstraindo de confrontos, este pode ser utilizado para qualquer fim específico e o que está em jogo é o funcionamento de uma máquina abstrata de exercício do poder. Esta idéia de digrama descreve as sociedades modernas, no sentido em que se opera um enquadramento por meio de suas estratégias específicas. Assim para o autor:

O diagrama, ou a máquina abstrata é o mapa das relações de forças, mapa de densidade, de intensidade que procede por ligações primárias não localizáveis e que passa a cada instante por todos os pontos, ‘ou melhor, em toda relação de um ponto a outro. (DELEUZE, 2006, p. 46).

Este aparelho tecnológico, portanto, tem por objetivo vigiar os sujeitos submetidos a este modelo, em qualquer que seja o âmbito de sua aplicação. De acordo com Foucault, isso se configura em nossa sociedade como o “(...) princípio de uma nova ‘anatomia política’ cujo objeto e fim não são as relações de soberania, mas as relações de disciplina.” (2008a, p.172). O autor classifica três importantes aspectos nas transformações dos contextos sociais que levaram a formação de uma sociedade disciplinar, a saber:

1. A inversão funcional das disciplinas: as disciplinas que até o momento deveria neutralizar os perigos, evitar inconvenientes, passaram a ter nova função na medida em que impulsionou ao crescimento das habilidades dos indivíduos, passou a coordenar suas ações, acelerando e controlando tempo e movimentos, fazendo crescer as aptidões e, portanto lucros. Sua função ainda será a de moralização das condutas, mas com um diferencial de modelar os comportamentos, fazendo com que os corpos atendam à demanda da economia. 2. A ramificação dos mecanismos disciplinares: a multiplicação dos

estabelecimentos em que a disciplina passa a ser institucionalizada favoreceu uma tendência a se desinstitucionalizar e a circular de maneira mais livre tornando-se mais flexíveis e fáceis de adaptar-se;

3. A estatização dos mecanismos de disciplina: em alguns países como Inglaterra e França o poder soberano passou a ser substituído por meio da descentralização do poder do soberano e a regulamentação dos institutos policiais que passara a organizar a ordem, por meio da vigilância, dos registros, tornando visíveis suas ações perante a sociedade.

Esses aspectos contribuíram para a formação de uma sociedade disciplinar, na medida em que ela se expandiu nos âmbitos sociais e possibilitou que os efeitos do poder pudessem atingir os lugares mais recônditos e particulares, de forma capilar, assegurando uma ampla ação das relações de poder. É na particularidade da penetração deste poder que a sociedade disciplinar irá se configurar como uma grande mudança estrutural, pautada na administração dos pequenos exercícios do poder, isto é, os micro-poderes agindo na sociedade contemporânea.

A partir desta função capilar, o poder passa a ser definido pelos pontos específicos por onde passa, tendo como característica básica a continuidade de sua linha, não possuindo um centro controlador, mas funcionando em segmentos, prolongando-se como se fosse uma grande teia de relações. É necessário, portanto, captar em que medida esse poder se torna algo intrínseco às relações das instituições e aos agentes disciplinados.

Trata-se (...) de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá onde ele se torna capilar, captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras que o direito delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violento. (FOUCAULT, 2008b, p.182).

As práticas do poder disciplinar disseminadas e corporificadas nas relações entre agentes e instituições – pautadas na vigilância – tornaram-se um dos principais instrumentos da sociedade contemporânea. A vigilância, ou a Sociedade Vigilante apresenta-se na contemporaneidade como um fenômeno que diminui ou faz desaparecer fronteiras nacionais e internacionais tendo sua ação ampliada com o advento das novas tecnologias por meio da democratização das informações pela rede mundial da internet a todos os grupos sociais.

As relações sociais são cada vez mais pautadas a partir de dispositivos tecnológicos de identificação e vigilância que tornam esta sociedade propicia ao surgimento de novos mecanismos que a legitimam como uma sociedade do controle por meio da vigilância. Estas multiplicaram e sofisticaram as práticas de vigilância e de controle, de modo que a sociedade não se concebe sem tais mecanismos que, de certa forma, asseguram a ordem e protegem os indivíduos por meio da identificação, do registro e da observação real ou virtual daqueles que atuam neste ambiente social.

1.4. Sociedade da Vigilância e o Currículo Lattes: dispositivo

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