Após discorrer sobre os hábitos, a conduta e a moral com base em uma discussão predominantemente psicológica, John Dewey expande o domínio dessa análise, utilizando as noções já firmadas para desenvolver uma reflexão em outro campo, o da política. Trata-se de uma estratégia argumentativa em que os consensos até então estabelecidos são empregados para facilitar a condução do auditório a reflexões que se supõe vinculadas ao assunto anteriormente discutido, mas que, se tratadas de outro modo, poderiam parecer independentes.
Conforme já foi explicado, os pares filosóficos que formam o raciocínio do autor buscam mostrar que, se o hábito for visto como repetição, será passivo, mecânico, um produto externo e compartimentado; porém, se entendido como arte, o hábito será ativo, inteligente, processual e contínuo. Como decorrência desses pares, localizamos então um outro, formado por autoritarismo e democracia, o qual permite a Dewey tratar do tipo de sociedade que se desenvolve quando os hábitos são entendidos ou como repetição ou como arte.
No raciocínio de Dewey, esse par associa-se a três outros:
Autoritarismo Conservadorismo Moralização ___________________ ________________________ __________________ Democracia Progressivismo Reflexão
Para firmar o par Autoritarismo–Democracia, Dewey observa que certas dicotomias – como corpo e mente, matéria e espírito, físico e moral, realidade e ideal, prática e teoria – impedem o entendimento dos hábitos como arte, fazendo com que a sua essência resida unicamente na repetição. Separa-se, assim, o hábito do pensamento e, frente à constatação de que o pensamento só existe e opera quando inserido nas ações habituais, essa dicotomia impede a articulação de meios de ação. Segundo Dewey (2002, p. 67), o “pensamento que não ocorre dentro das ações habituais não possui meios para a execução. Faltando aplicação,
também há ausência de teste e de critério”; conseqüentemente, o pensamento se torna “confuso e irrelevante, e o progresso, uma questão fortuita e com desfecho catastrófico”.
Concepções que situam o pensamento como algo “muito precioso e elevado para ser exposto às contingências da ação” acabam condenando-o a um domínio separado. Disseminam o ponto de vista de que os “ideais não podem correr o risco de contaminação e corrupção pelo contato com as condições concretas” (DEWEY, 2002, p. 68). Se o pensamento, a razão, a moralidade não nasce dos costumes, dos hábitos, da vida prática, então o que temos é um autoritarismo moral.
Mas, de modo contrário, se o que se busca é a readaptação inteligente e significativa dos hábitos e costumes, então a autoridade reguladora da conduta humana “é aquela que vem da vida”, que surge da investigação das coisas concretas (DEWEY, 2002, p. 81). Nesse caso, o pensamento é atuante e temos um caminho para pensar a democracia. Conforme a análise de Dewey (2002, p. 72), “a realização da democracia está limitada ao falseamento”, enquanto se mantiver o divórcio entre hábitos rotineiros e pensamento.
Para os que desejam o monopólio do poder social, essa separação entre hábito e pensamento é extremamente favorável, pois lhes permite pensar e planejar, enquanto outros permanecem como dóceis instrumentos de execução. Dewey (2002, p. 68) refere-se aos chamados “homens práticos”, isto é, “homens que aliam pensamento e hábito”, mas que usam o pensamento em seu próprio benefício. Dominando a situação concreta, denunciam os sinais de pensamento independente da grande maioria do povo como “anarquia subversiva”. Também encorajam nos outros a rotina e camuflam a sujeição em meio à narrativa daquilo que mais prezam: “espírito de equipe, dedicação, obediência, empreendimento, leis e ordem”.
Essa pequena parcela de homens práticos incentiva uma educação popular que objetiva disseminar para a grande massa, por meio de informações autoritárias, aquilo que uns poucos decidiram e estabeleceram para a vida social. Como menciona o filósofo, no sistema educacional atual, no qual se espera como fim algo mais do que a mera escolarização, “a
democracia multiplica as ocasiões para imitar, não para desenvolver o pensamento em meio à ação” (DEWEY, 2002, p. 72).
Tendo por esteio esse raciocínio que privilegia a democracia sobre o autoritarismo, constituem-se outros dois pares: Conservadorismo–Progressivismo e Moralização–Reflexão. Para Dewey (2002, p. 66), “em uma sociedade dominada por crenças e apreciações fixadas por costumes do passado, os hábitos são mais conservadores do que progressistas”. Se os hábitos são conservadores, não há chances para a renovação, para a reflexão e nem para o desenvolvimento criativo do pensamento; a conduta social é pautada no conservadorismo e em ideais moralizantes provenientes de uma esfera irreal e transcendental. Mesmo em sociedades ditas democráticas há, na realidade, facetas de conservadorismo e um progresso muitas vezes fortuito, casual. “Em teoria, a democracia deveria ser um meio de estimular o pensamento original”, mas o fato é que sua imaturidade é tão grande que o seu principal produto é justamente a imitação (DEWEY, 2002, p. 65).
Apesar dessa imaturidade, a democracia leva, em algumas ocasiões, ao progresso, mas a causa disso é meramente acidental. A diversidade de modelos, regras, comandos mecânicos gera conflitos que podem dar à individualidade uma oportunidade de expressão em meio ao caos de opiniões. Acontece que, na maioria das vezes, o resultado das associações humanas resulta mais em confusão do que em disciplina ordenada dos hábitos ou libertação criativa do pensamento. Os variados modelos para imitação acabam gerando um cancelamento mútuo, de modo que a maioria das pessoas não pode tirar vantagem nem do treino uniforme e nem da adaptação inteligente.
As conseqüências sociais vivenciadas confirmam, para Dewey, que o “divórcio social entre hábito e pensamento” é constantemente afirmado pelos dualismos filosóficos que separam a mente do corpo, o espírito do mero fazer exterior. A filosofia de Bergson, com bastante influência no início do século XX, vem “confirmar e aprovar o dualismo em toda a sua antipatia” (DEWEY, 2002, p. 73), pois, na tentativa de recuperar a metafísica, emprega
um pensamento fortemente espiritualista, reforçando a concepção dual que opõe o espírito à matéria.18
Na visão deweyana, o princípio vitalista desenvolvido por esse filósofo francês representa “a reminiscência da perspectiva otimista do romantismo, um otimismo que é apenas o lado oposto do pessimismo sobre a realidade”; enquanto uma força que se diz criativa, o élan vital parece mais destrutivo que criativo, ao trocar o trabalho detalhado da inteligência, que pensa seus costumes e instituições e cria as possibilidades de uma contínua e flexível reorganização da cultura, pela crença em uma intuição mística (DEWEY, 2002, p. 74).
Os dualismos filosóficos, segundo Dewey, padecem todos de um mesmo erro: ignoram a força projetiva dos hábitos, bem como a sua interpenetração e modificação mútua. As teorias da moral que se fundamentam nessa perspectiva antinômica acabam não compreendendo a unidade entre caráter e conduta, entre hábito e ação. De modo abrangente, surgem duas escolas morais que visam à reforma social e que pensam a moralidade com base em dois grandes extremos.
Um tipo de teoria afirma que “somente a vontade, a disposição e o motivo contam moralmente; pois as ações são externas, físicas, acidentais”. Desse modo, o bem moral é diferente da bondade na ação, haja vista que o “bem moral ou a virtude é intrínseco, completo em si mesmo, uma jóia que brilha por ter própria luz” (DEWEY, 2002, p. 43). Nessa visão, a única maneira de mudar a realidade social é purificar o coração dos homens; “quando isso acontecer, a mudança das instituições se seguirá” (DEWEY, 2002, p. 9). A outra teoria, por sua vez, nega a existência desse poder interior, afirmando que os homens são como são devido às forças do ambiente; até que as instituições não mudem, nada pode ser feito. Esse
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O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) “valoriza a intuição contra o intelecto, considerando que este é incapaz de apreender a realidade em seu sentido mais profundo e de explicar a nossa experiência” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 29). A expressão francesa élan vital é “utilizada por Bergson para designar um impulso original de criação de onde provém a vida”, que em um processo de complexidade crescente chega ao instinto, no animal, e à intuição, no homem, caso em que representa o “próprio instinto tomando consciência de si mesmo e de seu devir criador” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 79).
segundo modo de entender a moralidade não deixa esperanças e acredita em algum tipo de mudança violenta, a ser buscada por intermédio da guerra civil.
Na perspectiva deweyana, os idealismos e os materialismos, separando o que é interno daquilo que é externo, estabelecendo uma ruptura entre o que é mental e o que é físico, não entendem que “a verdadeira oposição não é entre razão e hábito, mas entre o hábito rotineiro e não inteligente e o hábito inteligente ou artístico” (DEWEY, 2002, p. 77). A concepção deweyana propõe que o hábito como repetição é mecânico, um produto externo que favorece um caráter passivo; resulta de um pensamento dicotômico que separa a ação habitual, de um lado, e o pensamento, de outro, obtendo, como conseqüência social, o conservadorismo que visa moralizar a conduta das pessoas. Essa noção de hábito filia-se a teorias morais que, por não confiarem na alma humana, acreditam ser necessário ditar as normas e as regras de ação que as massas devem seguir.
Em contrapartida, a idéia de hábito como arte sugere uma experiência inteligente que pode ser reavaliada e repensada, como meio e também como fim, em uma perspectiva filosófica unificadora que não dicotomiza o corpo e a mente, apresentando um caráter ativo, com uma operação contínua e interligada que produz, a todo momento, novas equilibrações. Entendido como arte, o hábito é progressivo e possibilita a instauração da democracia; por meio da educação, remete a uma moral que é produto da reflexão e que se volta para o que, diante das circunstâncias, poderá tornar-se a melhor conduta para o estabelecimento de associações entre os homens.