O propósito principal desta investigação foi analisar, à luz da leitura ontológica da estética em Marx e Lukács, a produção social cinematográfica cearense e suas interseções com a formação cultural do cineasta no Ceará. Ao elaborar os dois questionários (ver em apêndices), convencionou-se abordar os sujeitos nas questões relacionadas aos desafios encontrados pelos respondentes no processo de financiamento público de suas obras por meio do VI Edital Ceará de Cinema e Vídeo e dos problemas de ordem estética, desde a concepção até a finalização dos filmes.
Os quatros entrevistados representam áreas de categorias distintas financiadas pelo VI Edital Ceará de Cinema e Vídeo: curta-metragem em vídeo, teleconto, vídeo ficção e documentário em 35 mm.
Com base nos questionários, foi possível analisar o posicionamento dos quatros entrevistados escolhidos e avaliar se suas respostas contradizem ou confirmam nossa hipótese de pesquisa.
As análises desses instrumentos de pesquisa provocaram algumas reflexões. Em relação ao primeiro item do questionário I “O recurso captado foi suficiente para a realização de seu projeto?”, três realizadores responderam positivamente e um negativamente. Esse item revela que os recursos recebidos por intermédio do VI Edital Ceará Cinema e Vídeo são atrativos para o segmento do audiovisual cearense, descartando inclusive a possibilidade a submissão do projeto a outros editais e formas de financiamento, bem como outras soluções de natureza econômica como indicam os questionamentos seguintes do questionário I.
Um dos respondentes contradiz esse posicionamento com seguinte argumento: “Contei com a parceira do NPD da prefeitura de Fortaleza no fornecimentos de horas para edição, cessão de direitos autorias para uma das músicas e ajuda de mão de obra de outros profissionais para finalização de parte gráfica do material.” (SUJEITO C).
Indagou – se, ainda, pelo instrumento do questionário I: “Você modificaria seu projeto devido a insuficiência de recursos? Em que aspectos?”
“Não vale a pena arriscar e tocar para frente um projeto moldado pela falta de recursos e apresentar ao público um produto de qualidade técnica e artística reprovável.” (SUJEITO A).
Todo projeto audiovisual deve ser preparado com previsão antecipada, analisando-se os recursos necessários para sua realização. Por isso, na elaboração do projeto, não há como fugir de adequá-lo ao aporte financeiro, fazendo modificações ao que antes se havia idealizado. (SUJEITO B).
“Sim, creio que com um pouco mais de tempo teríamos a possibilidade de fechar parcerias melhores e que viabilizariam outras áreas do projeto.” (SUJEITO C).
“Sim. Eu faço um filme de acordo com as condições que me são dadas.” (SUJEITO D).
A análise das respostas de um dos quatros realizadores confirma que houve uma carência de recursos durante a produção do filme, pois demonstrou preocupação em adotar parcerias para viabilizar seu projeto. As demais respostas indicam apenas pontos de vistas gerais e imparciais sobre a questão.
Somente na fala de dois realizadores, percebeu-se uma insegurança quando estes foram questionados sobre: “Você considera que houve desvalorização monetária dos valores do seu projeto?”
“Os preços do mercado cinematográficos são atualizados muito rapidamente.” (SUJEITO D).
Analisando a questão, nota-se que o repasse de verbas pela Secretaria da Cultura ocorre dentro do prazo estabelecido, não prejudicando, assim, a produção das obras audiovisuais.
Por se tratar de um edital público, na maioria das vezes não se torna necessário captar recursos. Esta conclusão pode ser considerada ao analisar as respostas da questão seguinte: “Quem fez a captação de recursos para esse projeto?”
Ainda no questionário I, o item 11 aborda a seguinte questão “Para você, qual é a melhor forma de financiamento do audiovisual cearense?” Somente um respondente forneceu uma resposta favorável relacionada ao financiamento direto por meio de dinheiro público. Seguem as outras respostas para a posterior análise.
Recursos através de bilheteria me parece a mais óbvia e acertada no sentido de independência do audiovisual, mas há a concorrência entre um mercado industrial como o americano, contra algo que sequer engatinha no Ceará. Há leis de incentivo de abatimento de impostos de empresas que investem em cultura e têm abatimento em impostos, mas a cultura do empresariado cearense não percebe o potencial de mercado de um investimento desses e os produtores não conseguem chegar com facilidade até elas. (SUJEITO A).
Enquanto não tivermos um mercado audiovisual consolidado, onde as empresas invistam numa produção, visando o lucro da bilheteria, observamos que os incentivos do Estado, tanto diretamente com dinheiro público quanto indiretamente via iniciativa privada, são imprescindíveis para realização de um filme. (SUJEITO B).
Isso vai depender do orçamento do projeto, ou seja, o volume de recursos que eles precisam. Creio que os curtas sejam de interesse maior para formação dos diretores, o que com recursos, aquece o mercado, mas que por terem o volume menor de dinheiro podem ser financiados através de editais. Já os longas creio que o mix de leis de incentivo e financiamento de empresas públicas, privadas e bilheteria equilibraria melhor o mercado sem que isso recai somente em cima do governo e do dinheiro público. (SUJEITO C).
Nesses depoimentos, fica evidente que uma parte dos realizadores não acredita que o Estado sozinho pode financiar o audiovisual cearense.
Na pergunta “Você acha que os recursos do VI Edital Ceará de Cinema e Vídeo atendem as condições de produção na categoria da qual você está incluído?”, todos os sujeitos de pesquisa responderam afirmativamente, não contradizendo a crença de que ser financiado em edital público é uma prática atrativa ao segmento audiovisual cearense.
No que tange ao último item − “Quais as maiores dificuldades que você enfrentou
na elaboração de seu projeto?”, as respostas foram variadas:
O maior entrave está na prestação de contas junto à SECULT. Há uma burocracia excessiva. O orçamento de um filme é algo vivo que tem que lidar com intempéries como acidentes, questões meteorológicas, com o humano e por mais que
precisemos, e devemos, estar o mais próximos do plano de trabalho entregue no ato da inscrição do edital, é quase impossível realizar um filme e não haver modificações e ajustes no orçamento ao longo da produção. (SUJEITO A).
“A única dificuldade que se apresentou na elaboração do projeto foi a de escolher, dentre os vários temas de minha preferência, aquele que se adequasse ao que pedia a categoria a que me propus concorrer no referido edital.” (SUJEITO B).
“A readequação ao orçamento principalmente porque o tempo estipulado para produção, realização e finalização é muito apertado dificultando a formação de parcerias.” (SUJEITO C).
“Definir as fronteiras entre a ficção e a realidade.” (SUJEITO D).
Em relação ao último item do questionário I, pode-se perceber uma dimensão inerente ao realizador de filmes no Ceará, a exigência de se administrar um projeto cultural ante a limitação de recursos financeiros, humanos e de tempo.
A finalidade do questionário II foi de caráter complementar à análise fílmica feita anteriormente, servindo somente como prova da coerência da metodologia proposta e como suporte para melhor compreensão das intenções estéticas dos realizadores.
Logo, dois aspectos foram abordados pelas respostas dos sujeitos nos dois questionários aplicados: o papel de gestor cultural, expresso pelos sujeitos como mediadores de contraditórias variáveis de produção entre artista/mercado, artista/Estado e artista/tempo, bem como o papel criativo do cineasta ou realizador cinematográfico que, no contexto social local, se mostra limitado, levando em conta sua formação cultural e interesse por uma produção artística mais inventiva.