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Konklusjon

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Em As formas do falso, Walnice Galvão explicita como Grande sertão: veredas é construído em cima de ambuiguidades. Para a autora, esse é o esquema que organiza o romance, e “tudo se passa como se ora fosse ora não fosse, as coisas às vezes são e às vezes não são” (GALVÃO, 1972, p. 13). O diabo, na narração, não deixa de estar sob este princípio. Por exemplo, entre tantas outras ambiguidades que o romance comporta, destacam-se: Riobaldo é, ao mesmo tempo, filho de fazendeiro e jagunço, letrado e erudito, pactário e não pactário; Diadorim, homem e mulher; o diabo existe, e não existe. Galvão frisa que isso são ambiguidades, não se trata de contradição.

Ao longo da conversa que se desdobrará em toda a narrativa de Grande sertão: veredas, Riobaldo afirma que não comenta ou conversa sobre o diabo: “― Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores.” (ROSA, 2006, p. 8). No entanto, não é isso que se observa ao longo dos três dias em que o jagunço recebe o “doutor”: histórias de possessões, influências negativas e pactos são contadas ao hóspede. Mas o diabo, para o jagunço, não é somente um ser que não existe e do qual não se faz necessário falar. Há, para Riobaldo, um problema maior em relação ao diabo, que é de ordem ontológica. Pensando em todo contexto no qual o jagunço está inserido, “nada encarnaria melhor as tensões da alma, nesse mundo fantástico, nem explicaria mais logicamente certos mistérios inexplicáveis do Sertão” (CANDIDO, 1983, p. 307) do que a figura do diabo.

Um dos mistérios maiores, no entanto, reside no próprio diabo: por que ele, segundo o jagunço, às vezes existe e às vezes não existe? Que ambiguidade é essa

que está na forma de ele existir? Rosenfield (2006b, p. 212-213) propõe a seguinte forma de entender o diabo em Grande sertão: veredas:

Categoria aparentemente teológica, reduzida no mundo moderno a expressões insignificantes ou até mesmo folclóricas (no nosso romance, os demônios domesticados do imaginário popular), o mal volta a tornar-se, na interrogação riobaldiana da matéria vertente, uma noção indispensável para pensar o ser e a condição humana, ao mesmo tempo que força sua entrada no universo dos conceitos plenamente filosóficos.

No romance, o diabo não é só uma figura popular que justifica ou explica o mal, e os questionamentos do jagunço são uma tentativa de entender como o diabo — e, por extensão, talvez a vida — funciona e existe. A autora continua:

Se o narrador encerra seu relato com a “confirmação” aparentemente conciliadora do senhor de “que o Diabo não existe”, ele mantém numa astuciosa elipse o que diz o texto como um todo – isto é, aquilo sobre o que o mal insiste ao fazer-se presente na negatividade inerente à criação. Existem é o homem humano e a fórmula na qual o texto comprime a dupla face – positiva e negativa – da condição humana (ROSENFIELD, 2006b, p. 213).

Dessa maneira, o diabo é um elemento de análise da forma como as coisas existem, e essas análises estão compreendidas entre o início, quando declara que não conversa sobre o diabo, e o fim, quando declara que ele não existe. E a tese do ex-jagunço sobre o diabo, à luz do budismo, extrapola, não necessariamente negando, o entendimento do que, para Rosenfield, é a “dupla face — positiva e negativa — da condição humana”, e do que, para Galvão (1972) é a ambiguidade no romance.

O diabo, como um dos tantos elementos pitorescos que povoam o romance, poderia ser usado de maneira comum, como em obras regionalistas e, dessa forma, seria mera figura do imaginário popular. Em Grande sertão: veredas, no entanto, assim como outros dados do romance que “são meros condutores de um senso profundo dos grandes problemas do homem” (CANDIDO; CASTELLO, 1979, p. 366), o diabo, aproximado-se à investigação budista, é uma forma de entender como todos os fenômenos existem.

Diferentemente do que acontece em Magma, Sagarana, Tutaméia e Ave, palavra, em Grande sertão: veredas não há referências explícitas ao Buda ou ao budismo. Isso não seria possível, principalmente devido às molduras históricas e

regionais nas quais Riobaldo está inserido. Caso contrário, a verossimilhança da obra estaria comprometida.

Como já citado, diferentes estudiosos da obra de Guimarães Rosa indiciaram a presença budista no romance. No entanto, não o fizeram de maneira extensiva ou que implique mais uma interpretação de Grande sertão: veredas, sendo a visão budista o centro dessas propostas.

A filosofia budista em Grande sertão: veredas está implícita na obra e está dissolvida no primeiro raciocínio que o narrador protagonista tem sobre um elemento crucial da sua vida, o diabo, o que implica, direta ou indiretamente, outros dados da saga que Riobaldo narra ao seu hóspede. As ideias estão condensadas nos oito primeiros parágrafos, mas despontam constantemente ao longo do romance, sejam em indagações do jagunço sobre o diabo, em histórias sobre outras pessoas ou em análises de Riobaldo sobre a própria vida.

Como Utéza (2004) alerta, há uma inclinação em falar de sincretismo no romance: há tantos elementos cristãos, judaicos10, hindus e budistas coexistindo em um mesmo texto; não há, porém, uma junção de elementos particulares de diferentes tradições. Mas também não há, talvez, como o autor acredita, “uma convergência das tradições do Oriente e do Ocidente” (UTÉZA, 2004, p. 53), que revela um “Conhecimento que é Uno” e que se oculta debaixo de diferentes referências culturais.

O argumento de Rosenfield (2006a, p. 111) de que as narrativas de Guimarães Rosa revelam uma verdade válida, que extrapola o universo do sertão, colabora com tudo isso:

Eis por que na obra de Rosa a ardilosa sobreposição de referenciais heterogêneos e quase que opostos da realidade brasileira tem como corolário a sobreposição de dispositivos formais, de formas da expressão heterogêneas. As figuras autênticas do sertão sofrem imperceptíveis torções, que terminam por aproximá-las de outros contextos e culturas, de literaturas e gêneros diversos.

A favor de uma leitura que visa expandir a interpretação do papel do diabo na obra, a presença budista, que se dá por meio de uma imperceptível torção sofrida pelo jagunço, senão explicitada, será, no mínimo, inferida por meio dos raciocínios de Riobaldo, que, ao lado de textos budistas, tornam isso claro. Assim, parte da

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base filosófica de uma das grandes religiões do mundo iluminará uma das veredas de um dos maiores romances brasileiros do século XX.

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