2.3. Analysis of Art
2.3.1. Initial View on Photography in Connection to Art
Observa-se que o pensamento de Buber (1982, 1987, 2001), Gadamer (2004, 2007, 2008) e Freire (1983, 1987, 2013) possui elementos que os aproxima e os distancia à respeito do conceito de diálogo e sua relação com os mais diversos aspectos da vida humana. Para os três autores o diálogo representa um elemento intrínseco ao ser humano, ou seja, o indivíduo possui o aspecto da propensão ao diálogo e precisa de seu estabelecimento nas mais diferentes esferas de sua vida. Esses três pensadores também apontam o diálogo como um aspecto fundamentalmente edificante para as relações e para a transformação da realidade injusta e opressora em uma experiência mais humana e emancipadora.
Todavia, para Freire (1983, 1987, 2013), o diálogo contribui para essa transformação, no sentido de uma ação política, resultando no desenvolvimento da criticidade e na emancipação do sujeito. Dessa forma, o diálogo é uma questão política,
é comunicação, no contexto de uma prática social que dentro das relações com o outro e com o mundo, possui como um de seus objetivos, o fim da opressão.
Enquanto que para Buber (2001), essa mudança da realidade dos sujeitos envolvidos na relação acontece no patamar do encontro Eu-Tu e Eu-Isso, ou seja, na maneira como eu percebo o outro e tudo o que cerca esta relação. Segundo o autor, mediante o aspecto dialógico entremeado à dimensão existencial do indivíduo, é possível uma mudança de comportamento no indivíduo, ele se torna mais aberto para os encontros, respeitando as singularidades do outro. O diálogo é, pois, relação, o encontro do Eu com o Tu. O autor situa o diálogo num contexto existencial, fazendo do encontro entre os indivíduos a peça chave para legitimar o diálogo.
Gadamer (2004, p. 6) compreende o diálogo como interpretação, como compreensão que se efetiva na relação dialogal com o outro, uma questão epistemológica. A aprendizagem é influenciada por processos dialógicos nos quais às vivências externas estão vinculadas ao verdadeiro diálogo. As concepções de diálogo e compreensão são inerentes. A possibilidade de compreensão se estrutura no diálogo, ou seja, na dialética da pergunta e da resposta que permite “um mútuo entendimento e um mundo comum”.
Quanto à questão do relacionamento entre o educador e o educando, os autores concordam que não deveria haver espaço nas mediações pedagógicas para o autoritarismo, a opressão e a imposição. O reconhecimento e a aceitação do outro como um ser único, singular permeia as reflexões desses três pensadores, todavia, com diferentes tendências.
Para Freire (1987) esse reconhecer e aceitar estão vinculados, de forma mais acentuada, ao acolhimento do outro como um ser distinto, com suas particularidades e à promoção de uma comunicação efetiva, de um diálogo verdadeiro, porém, não deixando de apresentar em suas reflexões, o reconhecimento e a aceitação como possibilidades de legitimação da relação Eu-Tu.
De acordo com Buber (1987), o reconhecimento e a aceitação do outro vão além do respeito às diferenças e à contribuição para uma verdadeira comunicação. Esses dois elementos é que vão possibilitar que o Eu consiga perceber não só o outro na relação, mas a si mesmo, ou seja, esses dois elementos estão constituídos também como alteridade.
Gadamer (2007) compreende que este reconhecimento e esta aceitação ocorrem por meio da subjetividade e da intersubjetividade dos seres humanos nas relações
dialógicas, nas quais, há a interpretações dos fenômenos. Desta forma, o indivíduo consegue compreender o outro, pela capacidade que possui de se colocar em seu lugar, então a intersubjetividade prima pela “conservação e não a supressão da alteridade do outro no ato compreensivo” (Gadamer, 2004, p. 5).
Nas relações educacionais, segundo o pensamento de Freire apud Mayo (2004), a reciprocidade deveria permear toda a mediação pedagógica, e assim, educador e educando possuem o mesmo peso nessa mediação. Ademais, a mediação do processo educacional precisa ser compreendida como uma relação dialógica, na qual há uma intencionalidade envolvendo o diálogo entre eles.
Já para Buber (1969, apud Querette, 2007) a reciprocidade parte da atuação do professor, ela é parcial, não há um envolvimento recíproco entre o educador e o educando. Para esse autor, a relação que ocorre entre educador e educando é uma relação simplesmente pedagógica que pode vir a ser uma relação dialógica, porém, essa consequência, dependerá totalmente do educador. Além disso, o diálogo acontece de forma despretensiosa, não havendo motivação, ou seja, não há intencionalidade no diálogo proposto entre os indivíduos.
A reciprocidade acontece para Gadamer (2004) com a fusão de horizontes. Esta aliança de diferentes pontos de vista é o produto das relações. Só haverá diálogo no encontro se a interpretação e a compreensão em torno de algo se efetivar. O legítimo diálogo é constituído quando vivenciamos no outro algo que ainda não havíamos experimentado. Este autor complementa: “Um diálogo aconteceu quando deixou algo dentro de nós” (p. 211).
Ao tratar em suas reflexões das questões de cunho coletivo, Buber (1987) enfatiza mais as relações interpessoais, sendo que as mudanças nessas relações por meio do diálogo proporcionam consequentemente as mudanças nas comunidades e no decorrer do processo, na sociedade. É na comunidade que o ser humano vivencia o diálogo.
Freire (1987) afirma que as mudanças que ocorrem na sociedade por meio da educação partem de realizações dialógicas estabelecidas no âmbito coletivo. Elas devem ser entendidas, tanto como metas como produtos do diálogo, uma vez que essas mudanças permitem ao oprimido se emancipar e inferir na sociedade.
Na pedagogia fundamentada no pensamento freireano e na hermenêutica gadameriana é possível identificar a compreensão como elemento comum. Segundo, Freire (1987; 1996) a compreensão acontece quando se partilham as perspectivas,
quando o indivíduo se reconhece no outro de forma recíproca e quando o diálogo o leva a buscar sua autonomia e emancipação.
No entanto, na perspectiva de Gadamer (2004; 2008), a compreensão ocorre quando se estabelece a fusão de horizontes e a proposição de questões importantes à existência humana. Observa-se dessa forma, que os autores em questão, embora entendam o elemento da compreensão com base em perspectivas diferentes, percebem que o estabelecimento desse aspecto é necessário num processo educacional dialógico fundamentado nas questões humanas e na liberdade.
Uma teoria que possivelmente apresente maior proximidade é a da percepção que esses autores possuem a respeito das situações antidialógicas. Gadamer (2008) propõe uma abordagem em que o diálogo não desfigura a alteridade, numa tentativa de apropriar-se de seu interior. Para ele, “faz parte de todo verdadeiro diálogo entender realmente o outro, fazer valer seus pontos de vista e pôr-se no seu lugar” (p. 389).
Continua ressaltando que os educadores acreditam que estão se comunicando com seus alunos, pois se apresentam de forma articulada e como detentores do saber absoluto, todavia, não percebem que não estão proporcionando dentro do espaço escolar uma abertura para que os alunos também se utilizem da palavra, gerando assim, uma situação antidialógica, na qual, o monólogo é estabelecido no processo educacional. A compreensão do outro se dá somente pela capacidade de se pôr em seu lugar. A intersubjetividade é uma questão decisiva para a hermenêutica, porque por meio dela, é possível preservar a alteridade do outro.
Em sua reflexão Freire (2013) considera uma situação como antidialógica quando numa relação educacional a comunicação se estabelece do docente sobre o aluno e não com o aluno. É o que ele chama de relacionamento vertical e que culmina na educação bancária, que, além de opressora, é caracterizada pela transmissão e não pela construção de conhecimentos, estando permeada por relacionamentos nos quais são feitos comunicados aos alunos.
O diálogo e o monólogo, segundo Buber (2001), são dois movimentos essenciais ao diálogo verdadeiro. No monólogo o indivíduo volta-se para si, e no diálogo há o voltar-se para o outro. No entanto, na medida em que o indivíduo se volta para si negando toda e qualquer forma de alteridade, essa relação se apresenta como uma possível situação de antidiálogo.
A questão do diálogo em Buber (2001) é tratada de forma existencial, é a relação entre os seres humanos que vai desvelá-lo. Já Freire (2013) a entende como uma
questão política e social. Dessa forma, o diálogo se estabelece na relação mediante uma comunicação que sirva para emancipar os envolvidos nesse processo. Para esse autor, há um terceiro aspecto, além da relação do Eu-Tu, a se desvelar: a relação com o mundo, que implica na respectiva leitura que o indivíduo faz desse mundo. O diálogo tratado como uma questão epistemológica representa a proposta de Gadamer (2008). Esse autor propõe o diálogo como interpretação, como compreensão dos fenômenos cotidianos.
Portanto, a abordagem de uma educação humanística com viés sociopolítico está presente nas reflexões dos três autores; todavia, a maneira como esta abordagem se estabelece é diferente no âmbito das relações dialógicas.