As emoções são processos internos dos indivíduos e somente podem ser medidas baseadas na sua exteriorização (Schütte, 2005; Nagamachi, 1995; Rouvray, 2006). Os autores relacionam que os meios de medi-las têm relação com as diferentes componentes das emoções, como a seguir:
Subjetiva – refere-se aos sentimentos e está mais fortemente associada com a expressão das emoções. Essa componente pode ser avaliada pelo pesquisador ou também auto-avaliada/medida pelo participan- te, utilizando-se a verbalização, questionários, entrevistas, pesquisas subjetivas e observações.
Cognitiva – são processos cognitivos que estão preocupados com a avaliação das situações e eventos. Também pode ser observada, por meio da auto-avaliação (como o Diferencial Semântico, por exemplo), questionário e entrevista.
Fisiológico – diz respeito às alterações registradas no sistema periférico (temperatura corporal, bati- mento cardíaco) e ao sistema central. Essa componente também está interligada com as alterações no tônus muscular, na modulação da fala e na aparência (rubor da pele). As respostas fisiológicas podem ser medidas com aparelhos autônomos apropriados.
Expressivo – compreende expressões faciais, postura corporal, gestos, sinais vocais e risadas. Essas podem ser avaliadas pelo pesquisador e auto-avaliadas pelo participante. Os instrumentos mais apropri- ados são: o registro fotográfico, filmagem e instrumentos capazes de medir a expressão dos indivíduos. Comportamental – constitui-se de um conjunto de tendências de ações associadas a determinadas
emoções. Pode ser vista como uma ligação entre o resultado de um processo de avaliação e ações efeti- vas. Essa componente pode ser avaliada pelo pesquisador com registros baseados na observação, vídeo- observação, registros fotográficos e questionário.
Devido à delicadeza da estrutura das emoções, que muitas vezes inclui as pequenas nuances de im- pressões emocionais, busca-se identificar os métodos capazes de apontar essas sutilezas. As medições das respostas fisiológicas, explica Schütte (2005), são caras e muitas vezes consideradas como inexatas, quando utilizadas isoladamente. A medida fisiológica não pode mensurar, por exemplo, a componente cognitiva da resposta emocional de um usuário. Além disso, a medida fisiológica não é capaz de aferir todas as emoções humanas, apenas um número limitado de emoções básicas (como medo, raiva e surpresa). Ou seja, não é
suficiente para medir a reação afetiva ampla dos indivíduos.
Da mesma forma, os demais métodos de medição não são capazes de revelar a emoção – por com- pleto – de alguém, mas pequenas partes desta. Isso torna necessário conhecer e escolher um ou mais méto- dos, dentre os mais apropriados para a realização da pesquisa.
Os métodos de automedidas das emoções são aqueles mais freqüentes na literatura, sendo, tipica- mente, de três tipos: (a) métodos verbais (utilizam palavras), (b) métodos visuais (utilizam sinais) e (c) métodos dinâmicos (moment-to-moment).
Outra modalidade, bastante expressiva, de iconografia, é a utilização de desenhos simplificados do corpo humano e expressões faciais para representar visualmente as emoções. De acordo com Damásio (2000, p. 75) “todas as emoções usam o corpo como teatro, mas as emoções também afetam o modo de operação de inúmeros circuitos cerebrais”. A variedade de reações emocionais responde por mudanças pro- fundas na paisagem do corpo e do cérebro.
Estudos sobre a evolução humana defendem que as emoções são parte dos mecanismos biorregula- dores, com os quais nós somos equipados para que possamos sobreviver. Por esse motivo, Darwin conseguiu catalogar uma série de expressões faciais – das mais variadas espécies – e encontrou consistências nessas expressões. Para Damásio (2000) isso pode explicar porque, em diferentes partes do mundo e culturas di- versas, as expressões faciais são facilmente reconhecidas e entendidas entre os homens. Há, entretanto, dife- renças significativas entre as múltiplas culturas, em especial entre os países do oriente e ocidente. Entretanto, “o que causa admiração, quando se observa o mundo lá do alto, é a semelhança e não a diferença” (DAMÁ- SIO, 2000, p. 77). É essa semelhança que possibilita a comunicação universal das artes, música, literatura, cinema e teatro, sem fronteiras. O autor comenta que essa concepção baseia-se na obra de Paul Ekman, que estudou os significados das expressões faciais humanas vinculadas às emoções.
Ekman e outros pesquisadores, como Izard, Russell e Frijda, consideram que as emoções básicas são expressas em formas, mais ou menos iguais, em todas as culturas. São elas: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa ou repugnância. A Figura 51 mostra essas expressões básicas – ou universais –, acrescida da ex- pressão neutra, numa espécie de alfabeto visual das emoções.
Figura 51 – Expressões faciais básicas, com base em Ekman4
Foram identificadas 14 ferramentas para medir a reação emocional, conforme mostrou o Quadro 9. Esse grupo de ferramentas tem base – teórica e prática – em estudos da fisiologia, medicina, psicologia, an- tropologia, comunicação e computação, para medir as reações emocionais dos indivíduos diante de inúme- ras circunstâncias, tais como: eventos, atividades físicas, atividades laborais, interação com produtos, interfa- ces de computador e serviços.
Ao avaliar as ferramentas identificadas no primeiro grupo, foi possível categorizar tipologias distintas entre eles, quais sejam:
1) Métodos de automedição verbais (Izard, 1977 e Mehrabian, 1978); 2) Métodos baseados no modelo Circumplex (Russell, 1980); 3) Métodos baseados no modelo de Plutchik (1997);
4) Métodos para medir a emoção de forma dinâmica; e 5) Método baseado no reconhecimento digital das emoções.
Algumas dessas ferramentas foram selecionadas por apresentar potencial para o modelo, estando apresentadas a seguir:
As emoções podem ser medidas pela Escala de Emoções Diferenciais (DES), criada por Izard (1977). A escala DES é constituída de sete emoções negativas (raiva, desgosto, desprezo, angústia, medo, vergonha e culpa), duas emoções positivas (interesse e alegria) e uma neutra – surpresa– que pode estar relacionada tanto a emoções positivas (surpresa agradável) quanto negativas (surpresa desagradável). O Quadro 10 lista as emoções principais, suas variações e valência.
Quadro 10 – Escala de Emoções Diferenciais (DES) baseado em Izard, 1977
As emoções experimentadas pelos indivíduos podem ser básicas ou combinadas (mais de uma emo- ção). Para medir a intensidade das emoções utiliza-se uma escala Likert, ancorada por 1 (muito fraco) e 5
(muito forte). Dependendo de cada pesquisa, pode-se planejar e testar as emoções que se queira medir, de maneira a retirar itens redundantes – ou não aplicáveis – em determinadas situações. O DES foi formulado para registrar o estado emocional dos indivíduos no momento específico que estão respondendo ao instru- mento.
O modelo “Circumplex” foi criado por Russell, em 1980; e é bastante utilizado em diversas áreas do conhecimento, seja na psicologia, no marketing e, especialmente, na área da música. Esse modelo consis- te de uma estrutura circular, bidimensional, dividida em quatro quadrantes; em dois deles estão situadas as emoções, com valências – positiva e negativa e nos outros dois, elas se agrupam em níveis de atividade – alto e baixo. No total, Russell localizou 135 emoções inseridas no círculo, portanto a Figura 52 mostra a estrutu- ra do método, mas ilustra somente parte das emoções.
Figura 52 – Modelo Circumplex baseado em Russell (1980)
Os níveis de atividade correspondem a respostas fisiológicas tais como: calmo/agitado, cansa- do/excitado, enquanto as valências correspondem a estados de alegria/tristeza, satisfação/descontentamento, por exemplo. Dentro dessa estrutura, emoções opostas encontram-se correlacionadas em lados opostos: tris- teza e alegria.
O modelo “Circumplex” leva em conta dois aspectos importantes da emoção: 1) Os diferentes graus de similaridade – feliz/satisfeito/contente;
2) A bipolaridade de emoções – alegre/triste.
O modelo sugere um modo simplório de organizar diferentes emoções, em termos de apreciação a- fetiva (gostar/desgostar), ou de reações fisiológicas (alto ou baixo nível de excitação). Devido a essa simplo- riedade, outros métodos foram propostos, com base em seus fundamentos teóricos.
A terceira ferramenta é baseada na teoria de Russell é o Geneva Emotion Wheel, desenvolvido pe- lo Geneva Emotion Research Group, do Departamento de Psicologia da Universidade de Genebra, na Suíça. Trata-se de um método para medir reações emocionais diante de produtos, acontecimentos e situações. O participante é solicitado a indicar sua emoção experimentada em um círculo (roda), onde cada uma das 16 emoções é apresentada em 4 intensidades diferentes, como mostra a Figura 53 (a), (c).
Podem-se escolher intensidades diversas, para uma única emoção, ou uma mistura de várias emo- ções, de famílias distintas. O espaço das emoções (Figura 53 b) dentro do círculo segue o seguinte esquema: nos quadrantes da direita encontram-se as emoções positivas (prazer) e nos da esquerda, as negativas (des- prazer); enquanto que os quadrantes superiores e os inferiores equivalem à dominância. As emoções de alto controle estão localizadas nos espaços superiores e as de baixo, nos inferiores.
Figura 53 – Geneva Emotion Wheel. Fonte: Disponível em http://www.unige.ch/fapse/emotion
Atualmente, o método foi aperfeiçoado e lhe foi conferida uma versão em forma de um aplicativo. Além desse instrumento, o grupo idealizador desse método realiza outros estudos de interesses similares: dentre eles, uma lista de descritores das emoções – em diversos idiomas (inglês, alemão, francês, italiano e espanhol) – e protocolos de pesquisas internacionais – na área das emoções – que estão disponíveis, gratui- tamente.
O instrumento permite uma rápida leitura da reação emocional para uma determinada experiência, por ser de fácil entendimento. Por sua característica iconográfica, tem facilitada sua utilização, uma vez que permitem aos participantes, entender, rapidamente, seu princípio (SCHERER, 2005).
PrEMO – Measuring Emotion é um instrumento de auto-avaliação das reações emocionais, pro- jetado para auxiliar as empresas e designers no desenvolvimento de produtos – desde a inspiração, até a ava- liação, descrito em (DESMET, 2002, 2003, 2007), (DESMET, P.M.A.; HEKKERT, P.; JACOBS, J.J, 2001).
a confrontação dos atributos concretos do produto, com valores particulares do usuário. O instrumento tra- balha com 14, sendo, 7 de valências positivas e 7 negativas; e utiliza desenhos animados (Figura 54 a), com duração de 1–2 segundos, que expressam as emoções (faciais e corporais); e é um aplicativo, por meio do qual o participante interage com o produto da pesquisa, e o pesquisador faz o tratamento estatístico, após a coleta dos dados.
A Figura 54 b ilustra o PrEMO, aplicado numa pesquisa para uma empresa automobilística, e permi- te visualizar o esquema do método. No grupo da direita estão as sete emoções consideradas positivas: desejo, surpresa agradável, inspiração, diversão, admiração, satisfação, e fascínio e no da esquerda as sete negativas: indignação, desprezo, desgosto, surpresa desagradável, insatisfação, decepção, e tédio. As três cores indicam a intensidade da emoção, numa escala: “eu sinto a emoção expressa na figura”; “em parte, eu sinto essa e- moção”: “eu não sinto a emoção expressa na figura”.
a)
b)
Figura 54 – PrEMO: (a) exemplo do tipo de animação utilizada; e (b) tela do aplicativo para a entrada de dados. Fonte: DESMET, 2002
Há, ainda, outro método, utilizado em conjunto com o PrEMO, desenvolvido pelo mesmo pesquisa- dor; o “product & emotion navigator”. Trata-se de um navegador que ilustra padrões distintos de circunstân- cias (eventos e produtos), os quais podem evocar certas emoções nos indivíduos e são apresentados no for- mato de uma coleção de exemplos. O usuário consulta os exemplos e escolhe aqueles mais pertinentes ao produto que está sendo avaliado. Essas escolhas fornecem “pistas”, para a equipe de projeto e empresas, servindo de argumentos para discussão e inspiração do design.
Comentários sobre as ferramentas de medidas da reação emocional
As medições fisiológicas são consideradas parciais, do ponto de vista da emoção global, pelas seguintes razões: medem uma única dimensão da emoção, são individuais e não medem a componente cognitiva da emoção. A aplicação dessas medições requer equipamentos autônomos de medição e profissionais habilitados para proceder às medições, e é considerada cara.
A automedida é a forma mais utilizada para aferir a reação emocional dos usuários, dentre as aborda- gens identificadas na literatura. Esses métodos oferecem uma vantagem significativa, quando compara- dos aos métodos de medições fisiológicas; sua capacidade de medir emoções “mistas” (Desmet, 2002). As várias teorias apresentadas mostram que há uma convergência com relação à bipolaridade das emo-
ções (positivas e negativas), e as dimensões mais freqüentes foram: prazer, excitação e dominância. A medida dinâmica, ou contínua, considera que nossas emoções mudam, momento a momento. Os méto-
dos dessa modalidade são capazes de medir, com maior realidade, a dinâmica presente nas experiências. A partir dos vários métodos apresentados, foi possível concluir que a automedida (verbal, visual ou di-
nâmica) é uma modalidade bastante utilizada, e a maior parte deles é de média ou baixa complexidade, seja na coleta ou no tratamento de dados.
Alguns métodos exigem a utilização de aplicativos especializados, como o caso do “2DES”, “PrEmo”, “Feeltrace”, “Emotion's Next Frontier” e “FaceReader” e, por essa razão, dificilmente serão aproveitados neste trabalho. Contudo, são os métodos mais interativos e interessantes, do ponto de vista da sua comu- nicação, como instrumentos de pesquisa. Outros, caracterizam-se pela simplicidade, como é o caso do “Self-assessment manikin (SAM)”, com, apenas um questionário cujos ícones correspondem às emo- ções, e o “Monitor Warmth”, no qual o participante registra suas emoções, por meio de linhas e utili- zando um simples lápis, ao longo de um evento.
Independente do método, o tempo destinado à auto-avaliação deve ser suficiente para uma reflexão e decisão da medida. Essa regra também vale para as medições multidimensionais. Nesse aspecto, com- porta uma crítica ao método PrEMO, que, apesar de muito interativo e lúdico, é de uso prolongado, pois requer que o usuário veja as 14 animações, para proceder sua medição. Nesse tempo, o usuário pode perder seu estado emocional original.
As dificuldades dos usuários, em expressar seus valores e emoções, podem ser favorecidas com o uso de métodos mais intuitivos, como a iconografia e métodos de simples entendimento.
A criação de um contexto de entrevista familiar pode, igualmente, favorecer as verbalizações dos usuá- rios. Ainda assim, podem-se esperar reações diversas, por parte dos indivíduos, que podem limitar e re- primir sua resposta.
O único método, especialmente desenvolvido para medir as emoções evocadas pelos produtos, é o PrE- MO. Porém, para efeito deste trabalho, o PrEMO apresenta as seguintes desvantagens: para utilizá-lo é necessário adquirir o aplicativo (o que está fora do objetivo desta pesquisa) e o método não permite a- valiar os produtos reais, mas somente na forma de imagens digitais, favorecendo a modalidade visual.
Nenhum dos métodos faz menção às limitações acerca dos tipos de estímulos que podem ser avaliados. No caso dos produtos, não há nenhuma informação que possa indicar se ele é avaliado como um todo, ou se pode sê-lo por partes, ou um elementos. Entretanto, sabe-se que o estímulo pode ser definido na pesquisa, como por exemplo, a cor do produto, o acabamento, o material, ou a forma.
Os métodos estudados facilitam a visualização e compreensão das problemáticas emocionais que devem ser consideradas pelos designers em seus projetos, contudo não apresentam solução para o projeto. Desmet (2002) defende uma pesquisa de aprendizagem progressiva: uma sensibilização dos designers aos diferentes tipos de emoções. A equipe de projeto deve tomar consciência de que um produto possui várias camadas de significado emocional e que alguns desses significados podem ser antecipados e con- cebidos de maneira intencional.
Para finalizar, alguns instrumentos são flexíveis, sendo possível adaptá-los às situações particulares. Dessa maneira, os pontos positivos podem ser aproveitados para o método a ser proposto neste trabalho, acres- cidos de outras características que permitam avaliar as emoções evocadas na interação dos indivíduos com determinados materiais, sejam esses presentes em um produto, ou em amostras do material.
Meyer e Damazio (2005): Contudo, o instrumento desenvolvido por Desmet também parece desconside- rar questões importantes tais como o contexto de uso e a diversidade cultural, além de partir de premis- sas já refutadas, tais como a que utiliza-se de expressões faciais para manifestar a emoção ocasionada por um produto, ou a que considera apenas o contato visual na relação entre indivíduo e produto (am- bos os pontos tratados mais a frente). O instrumento PrEmo, assim como os demais mencionados, pre- ocupa-se em indicar as emoções experimentadas pelos usuários durante o contato com os produtos. A- credita-se, em contraponto, que o ponto de partida para o desenvolvimento de um instrumento, deva ser a compreensão dos motivos que fazem um indivíduo se emocionar com os produtos e não as emoções que foram ocasionadas. Não há meios para dar conta da complexidade de um instrumento desta nature- za sem antes esboçar um pano de fundo para tal construção. A identificação dos aspectos envolvidos na apreciação das emoções evocadas por produtos é fundamental para que se possa construir um instru- mento que não peque pela parcialidade em sua aplicação.
O estudo de Meyer e Damazio (2005) discutiu algumas questões a respeito das pesquisas sobre a rela- ção afetiva entre indivíduos e produtos. Os autores destacam alguns pontos que devem ser levados em consideração: os motivos pelos quais as emoções são evocadas (vimos que o aprendizado e as constru- ções pessoais ocupam um espaço importante); a relação entre os sinais manifestos pelo corpo e a emo- ção correspondente (em que a correlação nem sempre é fidedigna); a compreensão do contexto de uso e da diversidade cultural (cujo conhecimento é fundamental para situar relação afetiva entre indivíduos e produtos); e a contemplação das diferentes fases de uso (já que diferentes emoções são evocadas du- rante o uso do produto).