Chapter 6: Discussion
6.2 Prevention as pedagogical and cultural control
6.2.3 The informal criminalisation of Islam
As metodologias são [...] modos de fazer: objetos domésticos, rodovias, argumentos, teses, pinturas, esculturas, culinárias. Para cada uma das coisas feitas, por um sujeito, há uma metodologia. [...] Para cada uma das coisas feitas, por inúmeros sujeitos, existem inúmeros modos de fazer. [...] No seguinte passo, podem perceber que a pesquisa não cria apenas interpretações. A pesquisa cria metodologias enquanto cria interpretações. O fazer alimenta o pensamento que mobiliza a arte de refazer diferente. (HISSA, 2013, p. 125, grifo do autor).
Trataremos, neste capítulo, dos caminhos metodológicos percorridos em nossa pesquisa, descrevendo os procedimentos referentes à construção, recorte e análise dos dados.
A metodologia aqui adotada visa, sobretudo, a construção de dados que deem visibilidade as propostas de produção escrita estruturadas nas coleções didáticas. Nossa preocupação deriva, exatamente, do percurso histórico da área de língua portuguesa enquanto disciplina curricular, como também dos elementos históricos constitutivos a ela relacionada: elitização do ensino; tradição relativamente recente de livros didáticos para a infância; ausência de materiais sem quaisquer orientações didáticas, tendo a voz predominante do professor na realização das aulas; uso da escrita para a produção de bons textos e ortograficamente corretos.
Além disso, no movente percurso desenhado pela investigação, a abordagem metodológica nasceu vinculada aos referenciais teóricos que sustentam o nosso estudo, imprescindíveis não somente à definição do que foi investigado, mas também à análise dos dados que foram construídos. Por isso, os modos de fazer estabeleceram relações com os modos de pensar desta dissertação, exercitando a prática no exercício com a reflexão teórica, especialmente, de reflexões fundamentadas na perspectiva bakhtiniana sobre os gêneros do discurso.
4.1 O pesquisador e o pesquisado: aproximação versus distanciamento
Levando em conta que o objeto desta investigação refere-se aos elementos constitutivos da produção escrita (gêneros do discurso e situações de produção), lembremos que, teoricamente, o capítulo três abordou os gêneros em conformidade com os estudos de Bakhtin, relacionando com outros conceitos centrais desenvolvidos pelo autor, tais como linguagem, relação dialógica, enunciado e texto.
Com base nisso, optamos por uma metodologia que trata as ciências humanas pela perspectiva bakhtiniana, de forma a explicarmos o posicionamento do pesquisador durante a trajetória metodológica.
Nas palavras de Bakhtin (2011), as ciências humanas têm o texto como objeto de pesquisa, visto que o intelecto não está diante de um objeto mudo ou de um fenômeno natural, mas sim de um texto que traz a expressão de um sujeito. Ou seja, na medida em que o objeto de análise é integralmente um texto (enunciado), materializa-se o pensamento de alguém, em sua visão valorativa sobre o mundo.
Nesse sentido, a produção de conhecimentos está necessariamente apoiada na relação entre investigador e investigado. Em outros termos, nós, enquanto pesquisadores, situamo-nos axiologicamente diante dos sujeitos da pesquisa, sendo estes representados pelos autores das coleções didáticas.
Por esse contexto, a análise feita não se limita a uma mera transcrição dos conhecimentos produzidos durante a coleta de dados, como se a pesquisa resultasse de dados assépticos, neutros e abstratos. Trata-se, pois, de uma análise baseada na posição valorativa do pesquisador e do sujeito a conhecer, a fim de que os sentidos sejam produzidos e, simultaneamente, interpretados.
Parece-nos fundamental entretecer, então, que:
Cada palavra (cada signo) do texto leva para além dos seus limites. Toda interpretação é o correlacionamento de dado texto com outros textos. O comentário. A índole dialógica desse correlacionamento. [...] A interpretação como correlacionamento com outros textos e reapreciação em um novo contexto (no meu, no atual, no futuro). O contexto antecipável do futuro: a sensação de que estou dando um novo passo (saí do lugar). [...] O texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectivas e prospectivamente, iniciando dado texto no diálogo. Salientemos que esse contato é um contato
dialógico entre textos (enunciados) e não um contato mecânico de ‘oposição’ [...] Por trás desse contato está o contato entre indivíduos e não entre coisas [...]. (BAKHTIN, 2011, p. 400-401).
Similarmente, em outro momento, Bakhtin/Volochínov (2012, p. 137) afirma que “Compreender27
é opor à palavra do locutor uma contrapalavra [...] como uma faísca elétrica que só se produz quando há contato dos dois pólos opostos.”.
Vê-se, então, que, para o pensamento bakhtiniano, a interpretação é um processo ativo e responsivo, constituído dialogicamente e manifestado pelo encontro de dimensões axiológicas com quem se interage.
Desse modo, a nossa interpretação não deve ser entendida simplesmente como um reconhecimento passivo, como mera decodificação de um objeto contemplado. Ao contrário, para esta pesquisa, entende-se que a análise dos dados é uma réplica ativa, uma tomada de posição diante do texto, de forma a reagirmos valorativamente às manifestações que nos cercam.
Por esse entendimento, é possível perceber que a abordagem bakhtiniana transpõe a epistemologia convencional, a qual defende a neutralidade do pesquisador para com o objeto, em vista de obter o êxito da pesquisa. Todavia, questionamos: “Quando leio o mundo, como retirar a minha história de leituras do mundo [...], de modo a permitir, paradoxalmente, uma leitura asséptica que faço do mundo? Como fazer que a minha leitura do mundo exista independentemente da minha existência?”. (HISSA, 2013, p. 175, grifo do autor).
Por isso, defendemos que a nossa presença deve ser compreendida como condicionante para a produção de conhecimentos com o outro, e não para o outro. É, portanto, um procedimento metodológico que reconhece que a análise assevera nossos valores enquanto pesquisador, ao fazer réplicas ao dito, ao enunciar concordâncias, objeções e confirmações, ao buscar responsivamente um sentido diante da posição valorativa do outro - os autores das coleções didáticas.
Por outro lado, Bakhtin destaca também a importância de o pesquisador assumir um certo distanciamento/estranhamento do objeto falado/falante, o que nos remete ao conceito de exotopia, que consiste no encontro com o outro a partir de um lugar exterior. Se para Bakhtin
27
(2011, p. 341) “Ser significa ser para o outro e, através dele, para si”, esse lugar exterior possibilita que se veja algo que o sujeito pesquisado, em sua posição, não pode ver.
Logo, assumimos também o nosso lugar exotópico como condição para a análise interpretativa desta pesquisa. Assim como somos responsáveis em completar os sujeitos da pesquisa, reconhecemos que também precisamos deles para dar forma ao nosso pensamento, criando uma negociação de sentidos e confronto interdependente de ideias.
Para destacar a importância das ciências humanas esboçada por Bakhtin, Brait preconiza que tal abordagem:
[...] tem a vantagem de valorizar o corpus e despertar no leitor/analista/fruidor a capacidade de dialogar com esse corpus e, a partir de sua materialidade, de suas particularidades, surpreender nas incontáveis formas assumidas pela língua, no caso a Língua Portuguesa, o interdiscurso, as memórias aí contidas e em constante movimento [...]. (BRAIT, 2008, p. 16-17).
Por esse raciocínio, ainda que não tenhamos um contato face a face com os respectivos autores das coleções didáticas escolhidas, entende-se que as nossas vozes somadas às deles estão materializadas não por uma relação de ordem impessoal e neutra, mas por uma relação de sentidos marcada pelos modos de ser, de dizer, de fazer, de pensar, de silenciar, de dialogar, de influenciar, de se deixar influenciar, de compreender o mundo, etc.
4.2 Critérios de escolha das coleções didáticas
Como já mencionado na Introdução desta dissertação, o presente estudo vincula-se ao projeto Leitura e escrita: recortes inter e multidisciplinares no ensino de matemática e português. Em razão disso, tomamos como parâmetro um dos campos de investigação do projeto - coleções didáticas de língua portuguesa para o 4º e 5º do Ensino Fundamental, aprovadas pelo PNLD 2010 e adotadas em escolas da rede pública municipal de Natal/RN, situadas aquém da meta do IDEB 2009.
Essas informações foram coletadas, primeiramente, junto à Secretaria Municipal de Educação de Natal/RN. Posteriormente, a fim de confirmar as informações recebidas, os
membros do CONTAR fizeram-se presentes nas escolas, para que a equipe de professores respondesse a um questionário. Dentre as perguntas feitas, destacamos:
Figura 3: Modelo de questionário
Fonte: Programa Observatório da Educação (“Leitura e escrita: recortes inter e multidisciplinares no ensino de matemática e português”; CAPES/INEP; Grupo CONTAR - UFRN; Centro de Educação)
Ao observar que a Secretaria e os professores forneceram informações sem discrepâncias, elaborou-se um quadro apresentando as coleções adotadas pelas respectivas escolas municipais de Natal abaixo do IDEB 2009.
Quadro 2: Coleções didáticas x Escolas municipais
COLEÇÃO DIDÁTICA DE