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O Espírito Santo é o principal estado exportador de mamão do país desde 1991. O ano de 1998 marcou a reabertura, após 13 anos, do seletivo e cobiçado mercado norte- americano para a fruta brasileira. Uma meta alcançada a partir de um esforço de cerca de cinco anos de pesquisas, empreendido junto ao setor produtivo do município de Linhares, e da implementação contínua de melhorias nos processos de pré e pós-colheita, que culminaram na elevação do padrão de qualidade fitossanitária do produto local. Esforço, que só foi possível, devido ao estabelecimento de várias parcerias de sucesso entre empresas produtoras (principalmente as firmas líderes do APL), institutos de pesquisa e universidades.

Esta aproximação intersetorial viabilizou, além de melhorias de produto e de processo, o atendimento das exigências impostas pelo Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal (APHIS), do USDA, com relação à importação americana do mamão brasileiro, constantes na resolução APHIS/USDA 7 CFR 319.56 2w (Anexo 1).

O plano de trabalho assinado entre o MAPA e o USDA, logo após a publicação desta resolução da APHIS, em 1998, deu início a um amplo programa que visava, entre outros objetivos, atender e orientar os produtores que tinham interesse em exportar a fruta para os Estados Unidos. O programa foi fundamental não apenas como parte do processo de abertura de mercado, mas também, ao longo dos anos seguintes, como instrumento de apoio à manutenção da comercialização do produto no exterior.

Entre 1998 e 1999, impulsionados pela maxidesvalorização da moeda nacional e pelo mercado americano recém-aberto, os exportadores capixabas aumentaram seu volume de vendas externas em 61%. Como conseqüência, o valor total exportado, neste biênio, cresceu 48%, passando de US$ 6,9 milhões para US$ 10,2 milhões. Deste valor, US$ 9,1 milhões foram arrecadados somente com os mercados dos Estados Unidos e da União Européia (Figura 5.1).

Desde o início dos anos 2000, o valor médio exportado para os Estados Unidos se manteve próximo dos US$ 4,8 milhões por ano. As vendas para a União Européia, que já vinham crescendo desde 1996, prosseguiram em ascensão ininterrupta até 2005, caindo 12% em 2006. De 1998, quando houve a abertura de mercado, até 2006, o setor exportador do APL capixaba acumulou, com as importações americanas, US$ 36,8 milhões, e com as importações européias, US$ 91,6 milhões. Se somado a estes valores o total exportado para os demais destinos, segundo os dados da Secex, o montante chega a US$ 139,9 milhões, o que equivale a 70,9% do que o país arrecadou com o comércio da fruta no período.

Esta evolução nas exportações significou não apenas uma expansão do mercado consumidor, mas também um crescimento do market share do produto, o que indica uma maior participação do mamão brasileiro no mercado internacional.

Figura 5.1 – Evolução do valor exportado de mamão, pelo Estado do Espírito Santo, para os Estados Unidos e União Européia, de 1995 a 2006.

Após a publicação oficial do governo americano autorizando as importações, os agentes estrangeiros das firmas capixabas empenharam-se nos trabalhos de promoção da fruta naquele país. Entretanto, as exportadoras ainda não tinham produção suficiente para atender a demanda crescente e, por isso, passaram a absorver a produção de terceiros. Dessa forma, a súbita elevação de renda que a abertura de mercado produziu ao setor, não se concentrou apenas nas grandes empresas exportadoras, irradiando-se, em parte, para as empresas menores. Os dados da pesquisa mostram que, com o tempo, mais relacionamentos deste tipo surgiram e se firmaram, incitando o crescimento do setor como um todo.

Outros segmentos da cadeia produtiva foram igualmente estimulados. Segundo os entrevistados, o número de fornecedores de insumos e equipamentos específicos para o manejo do mamão, existentes hoje na região, é bem maior do que havia há alguns anos. Percebeu-se, também, uma melhora na estrutura de apoio técnico e financeiro à produção. Os produtores a avaliaram como mais ampla, mais especializada e de resposta mais rápida.

Analogamente, o novo panorama desenhado para o setor criou altas expectativas junto ao empresariado rural local, motivando o crescimento no número de propriedades destinadas à cultura e a formação de novas áreas de plantio. Conforme demonstrado na Figura 5.2, em 1998 havia 169 propriedades de mamão na região do APL. Em 2005, este número era quase 160% maior. A área plantada, que era de pouco mais de 5 mil hectares em 1998, já havia dobrado em 2002. Em 2005 estava em torno de 9,5 mil hectares. Com isso, o número de postos de trabalho também cresceu, projetando novas perspectivas para o trabalhador rural, aspecto importante do desenvolvimento e que está relacionado à dimensão social da sustentabilidade.

Figura 5.2 – Evolução da área plantada e do número de propriedades do APL de mamão capixaba, de 1998 a 2005.

Dentre os novos empreendimentos que se formaram, a maioria são pequenas produções familiares ou propriedades que foram arrendadas ou adquiridas por pequenos empresários. Há casos de produtores que desistiram de outras culturas para ingressarem no mercado de mamão, por perceberem uma melhor lucratividade neste setor. Outros tantos empreendimentos de porte médio se sentiram atraídos pelo APL, principalmente após o ano 2000, em virtude da forte conexão da região com grandes mercados no exterior.

Em 1998 havia apenas duas empresas exportadoras no arranjo. Em 2006, este número subiu para 14, sendo que cinco delas compunham o grupo das que estavam aptas a exportar para os Estados Unidos. Duas, entre estas cinco, na verdade, estabeleceram-se na região atraídas exatamente pela porta que se abriu no mercado americano.

Nas empresas exportadoras entrevistadas, o número de empregados passou de 281, em 1998, para 1406, em 2006. Neste mesmo período, o número de países para onde o produto foi enviado subiu de oito, para 16. E o volume total anual produzido, que era de pouco mais de 9 mil toneladas em 1998, atingiu 58,9 mil toneladas em 2005 (Tabela 5.2).

Tabela 5.2 – Dados sócio-econômicos do APL de mamão do Espírito Santo – comparativo entre 1998 e 2006.

Indicadores 1998 2006 Taxa de

crescimento Todo o APL

Número de empresas exportadoras 2 14 600,0%

Número de empresas exportadoras para os EUA 2 5 150,0%

Número de países atingidos pelas exportações do APL * 8 16 100,0%

Volume produzido (ton) 415.520 622.531** 49,8%

Volume exportado (ton) 6.881 18.608 170,4%

Empresas entrevistadas

Número de funcionários 281 1406 400,4%

Empresas exportadoras Volume produzido (ton) 9.066 58.900 ** 549,7%

Propriedades parceiras 2 36 1.700,0%

Número de funcionários 82 278 239,0%

Empresas não exportadoras Volume produzido (ton) 8.365 21.096 ** 152,2%

Área plantada (ha) 331 729,3 120,3%

Fonte: Elaborada a partir dos dados desta pesquisa, de Martins (2003) e de IBGE (2005).

Obs.: * Considerando o destino final da fruta.

** Dados de 2005.

Uma referência bastante relevante é o crescimento no número de propriedades parceiras (fornecedoras) dessas empresas. Em 1998, apenas duas propriedades forneciam seu produto para outras empresas exportá-lo ou revendê-lo no mercado interno. Em 2006, este tipo de parceria envolveu 36 pequenas propriedades. Um acordo desta natureza gera uma certa garantia de venda aos pequenos produtores e diminui sua apreensão quanto a incertezas

futuras, além de estimular o aumento em seu volume de produção, o que conseqüentemente, gera novos investimentos.

Ademais, as características organolépticas e fitossanitárias da fruta produzida nas pequenas propriedades têm evoluído bastante, inclusive nas produções que se destinam ao mercado interno, onde o nível de exigência é bem menor. Estas parcerias têm contribuído categoricamente para o envolvimento de pequenos produtores no processo de desenvolvimento local. Das 15 empresas não exportadoras entrevistadas, grupo formado por micros e pequenos produtores e empresários rurais, 10 revelaram possuir, já há alguns anos, algum tipo de acordo de parceria para fornecimento do produto a outras empresas.

De 1998 a 2006, o número de funcionários nas 15 MPEs entrevistadas saltou de 82 para 278, ou seja, mais que triplicou. Paralelamente, sua área plantada aumentou em 120%, expandindo os 331 ha de 1998 para quase 730 ha em 2006, e o volume de produção anual aumentou de 8,36 mil toneladas para pouco mais de 21 mil toneladas, em 2005, representando um crescimento de 152%.

São números que indicam a importância das exportações, também para aqueles produtores que não exportam. Uma vez que o produto a ser exportado precisa ser produzido dentro de rigorosos padrões sistêmicos de qualidade fitossanitária, as empresas exportadoras custeiam, no total ou em parte, os investimentos necessários para que a propriedade parceira mantenha sua produção dentro destes padrões. Isso inclui a difusão das técnicas de manejo da fruta e a transmissão do conhecimento teórico. Assim, estes produtores têm a oportunidade de acesso direto a inovações técnico-produtivas relacionadas à cultura.

Pôde-se verificar que grande parte da produção local encontra-se reorientada ao mercado externo. Uma estratégia que tem gerado resultados bem mais estáveis e lucrativos e que vem ganhando ainda mais em atratividade à medida que as firmas líderes, à frente do processo, têm se empenhado em manter derrubadas as barreiras externas de âmbito coletivo. Contudo, cabe a cada firma exportadora, ou que queira exportar, individualmente, superar as barreiras relacionadas ao padrão de qualidade de seu produto, garantia da segurança fitossanitária, sustentabilidade ambiental, certificação e outros aspectos. Exigências que são, muitas vezes, complexas demais para as firmas menores.

Assim, a maioria dos postos de trabalho que são abertos na região, são destinados à contratação de uma mão-de-obra com certo grau de qualificação. As empresas almejam, principalmente, profissionais que possuam um conhecimento mais amplo sobre a cadeia de produção. A elevação no nível técnico-produtivo sempre foi fundamental para as firmas com interesse em participar, direta ou indiretamente, do programa de exportação.

Uma última evidência a ser destacada, diz respeito exatamente a uma importante questão para quem deseja exportar o mamão para os Estados Unidos. Segundo a Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Espírito Santo (SFA/ES), é necessário que as firmas interessadas implementem o sistema de mitigação de riscos, cuja atividade base consiste no monitoramento contínuo da mosca-das-frutas, instalando-se armadilhas propriamente desenvolvidas para esta finalidade. O monitoramento deve ocorrer ininterruptamente por 12 meses antes do início da colheita e se estender até o final do ciclo da lavoura. A SFA/ES é quem supervisiona e afere a qualidade dos trabalhos (PRATES, 2005).

Como as lavouras comerciais de mamão se renovam a cada dois anos, a área monitorada pela SFA/ES e o número de armadilhas instaladas variam constantemente. Ainda assim, observou-se que, desde o início do programa, o número de propriedades participantes e a área monitorada no APL aumentaram consideravelmente, comprovando a reorientação produtiva ao exterior. Os dados de 2005 deste órgão indicam um total de 1.700 hectares de lavouras monitorados na região, abrangendo cerca de 60 propriedades (pouco mais da metade destas propriedades se concentra no município de Linhares). Dos 16 municípios capixabas que possuem lavouras comerciais de mamão, em 8 deles há este tipo de monitoramento.