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Diante dos resultados acerca do poder preditivo e do ajustamento do modelo, considerou-se interessante a criação de dois cenários, em que o principal objetivo seria observar como variações na taxa de câmbio afetariam o restante da economia. Os resultados servem também como forma de verificar se o modelo, de fato, reflete as relações e decisões tomadas pelos agentes econômicos.

Dessa forma, criou-se um cenário considerando que a taxa de câmbio esperada cresceria a uma taxa de 5% ao mês, durante um período de seis meses. O objetivo foi poder fazer com que, dado esse choque na taxa de câmbio esperada, a taxa de câmbio à vista variasse e, a partir daí, observar as movimentações no restante da economia. Este cenário foi denominado de Cenário 1.

Para a construção do segundo cenário, assim como anteriormente, variou- se novamente a taxa de câmbio esperada, só que desta vez admitindo uma redução mensal de 5%, durante os mesmos seis meses. Essa variação, por sua vez, afeta a taxa de câmbio à vista, e, com isso, será observado como se comporta o restante da economia. Este cenário foi denominado de Cenário 2. Ambos os cenários foram comparados com um cenário-base, que reflete os valores previstos das variáveis endógenas do modelo. É importante ficar claro que a variação de 5% ao mês na taxa de câmbio esperada foi representada por uma variação na taxa de câmbio futura, visto que não se pode rejeitar que as expectativas são formadas racionalmente e que não foi confirmada a presença de viés de erro de expectativa nem de risco cambial. Além disso, a variação foi aplicada aos últimos seis meses da amostra.

A Tabela 17 informa a variação média das variáveis durante o período de seis meses, dada uma variação inicial na taxa de câmbio esperada e, por conseqüência, na taxa de câmbio à vista, para os dois cenários.

Tabela 17 – Efeito de uma variação inicial na taxa de câmbio à vista sobre o restante da economia Variação percentual t s pt Zt

(

mtpt

)

it yt Cenário1 22,1449 15,0468 10,0607 -2,5676 3,8331 0,0947 Cenário2 -14,6986 -11,0619 -10,1498 0,0201 -2,7654 -0,1193

Fonte: Elaborado pelo autor.

Analisando o Cenário 1, o efeito de um aumento mensal na taxa de câmbio esperada geraria aumento nos retornos dos ativo em dólares, medidos em reais, o que faz com que a taxa de câmbio à vista se eleve para manter o mercado de câmbio em equilíbrio. O aumento do câmbio à vista, segundo a paridade do poder de compra (ver a função estimada na Tabela 14), elevaria o nível dos preços internos. Como pode ser observado, o aumento na taxa de câmbio supera a elevação dos preços internos, gerando efeito positivo sobre as exportações líquidas. O aumento nos preços também reduz a oferta real de moeda, iniciando um processo de elevação da taxa de juros. Observando que a elevação percentual dos juros é inferior à encontrada nas exportações líquidas, há um processo de elevação na produção, visto que esta é afetada tanto pela taxa de juros quanto pelo saldo da balança comercial. Esse aumento no produto tende a expandir a demanda por moeda, contribuindo para que a taxa de juros se eleve ainda mais. Para finalizar, o aumento dos juros acaba por fazer com que, num segundo momento, a taxa de câmbio à vista caia para manter o mercado de câmbio em equilíbrio, permanecendo, contudo, acima do nível de equilíbrio inicial. Isso caracterizaria o overshooting da taxa de câmbio descrito por Dornbusch.

Esses movimentos são dinâmicos, e no final dos seis meses encontram-se aumentos referentes aos níveis de equilíbrio iniciais: de 22,14% na taxa de câmbio à vista; 15,04% nos preços internos; 10,06% nas exportações líquidas; 3,83% na taxa de juros; reduções de 2,56% na quantidade real de moeda de equilíbrio; e elevações de 0,09% no valor do produto de equilíbrio.

Observou-se que um pequeno aumento nos juros internos (3,83%) compensou uma considerável elevação das exportações líquidas (10,06%), praticamente impedindo o crescimento da produção. Esse resultado indica que a “locomotiva” da economia brasileira, no período de 1999 a 2007, foram as exportações.

Logo após a adoção do regime de câmbio flutuante houve elevação do câmbio, impulsionando as exportações e inibindo as importações. Contudo, o aumento nas exportações líquidas foi sensivelmente maior do que o acréscimo na produção. Para conter a fuga de capitais e a desvalorização da moeda, o governo elevou a taxa de juros, eliminando o efeito das exportações líquidas sobre o valor da produção. Isso ilustra a importância da política monetária em um regime de câmbio livre.

A partir do ano de 2003, o efeito oposto é observado, ocorrendo valorização da moeda brasileira. Isso foi testado no Cenário 2. Neste cenário, admitiu-se redução de 5% ao mês, num período de seis meses, na taxa de câmbio esperada. Essa redução diminuiu o rendimento dos ativos em dólares medidos em reais, provocando queda da taxa de câmbio à vista para manter o mercado de câmbio em equilíbrio. A queda na taxa de câmbio à vista desencadeou uma retração nos níveis dos preços internos. Uma vez que a queda no câmbio foi maior do que a redução dos preços, houve diminuição no saldo da balança comercial. Contemporaneamente, a queda nos preços provocou acréscimo na oferta real de moeda, iniciando um movimento de redução na taxa de juros. Essa baixa nos juros (-2,76%), por ser consideravelmente inferior à queda das exportações líquidas (-10,14%), parece ter surtido mais efeito sobre o produto, de modo que, na média, ocorreu uma modesta queda do produto (-0,11%), durante o período total.

Esse resultado comprova mais uma vez que a influência da taxa interna de juros foi, sensivelmente, mais significativa sobre a produção do que as exportações líquidas, visto que uma pequena redução nos juros é capaz de anular a queda da produção proveniente de uma considerável queda nas exportações líquidas. Isso comprova novamente a efetividade da política monetária diante de um regime de câmbio flutuante.

No final do processo, observaram-se reduções de, aproximadamente, 14,69% na taxa de câmbio, de 11,06% nos preços internos, de 10,14% nas exportações líquidas, de 2,76% na taxa de juros e de 0,11% no produto, além de aumento de 0,02% na quantidade real de moeda.

O resultado encontrado com a construção dos dois cenários reforça o fato, citado no capítulo 1 e no capítulo 3, seção 3.3.1, deste trabalho, de que as taxas de juros e de câmbio são simultaneamente determinadas. Além disso, fica claro que o efeito do câmbio sobre os preços é neutralizado em parte pela política de variação na taxa de juros, o que justificaria a preferência, segundo Hermann (2006), que o governo tem de reduzir a volatilidade da taxa de câmbio em detrimento de uma maior volatilidade na taxa de juros.

Outro ponto importante é o fato de que o câmbio à vista e, conseqüentemente, os preços e os juros são muito mais sensíveis a aumentos na taxa de câmbio esperada do que a redução nesta, indicando certa assimetria, quanto a esse fato, na economia. Isso explicaria os movimentos vivenciados pela economia brasileira no segundo semestre de 2007, em que um processo de redução na taxa de câmbio, porém a taxa de juros não acompanha essa redução de perto. Por outro lado, em momentos em que a moeda brasileira se desvalorizou significativamente, como no período eleitoral de 2002, a taxa de juros acompanhou de perto o aumento do câmbio.

A simulação feita com o uso do modelo estimado deixa claro que a taxa de juros é a ferramenta utilizada para frear o crescimento dos preços e equilibrar os mercados de câmbio, monetário e real, no período analisado. No entanto, o modelo não permite afirmar que essa ferramenta é a mais adequada, embora ela se mostre, provavelmente, eficiente perante seus propósitos.

Outro ponto importante é com relação às previsões feitas com o modelo estrutural construído. Verificou-se que um modelo estrutural que incorpora informações significativas acerca das principais variáveis econômicas pode ser utilizado não só como análise de relações econômicas, mas também com o objetivo de prever o comportamento de determinadas variáveis.

O comportamento das variáveis nos dois cenários construídos e a narração das possíveis relações que levariam a esses acontecimentos em uma economia

mostram que os dados referentes à economia brasileira e, conseqüentemente, os acontecimentos contemporâneos caminham no sentido de comprovar a eficiência e os fundamentos da política econômica adotada pelo governo e pelo Banco Central a partir de 1999.

Por fim, a resposta das exportações líquidas, da taxa interna de juros e, conseqüentemente, do produto diante um aumento da taxa de câmbio à vista indica que, embora as condições externas tenham se apresentado fundamentais na determinação do produto interno, o ambiente interno, captado pelo nível da taxa de juros, exerceu influência significativamente maior sobre a produção brasileira no período.

Esse resultado mostrou que as condições externas e, por conseguinte, as exportações líquidas foram fundamentais para a economia brasileira no período, no sentido de evitar uma queda maior do produto interno. Essa queda seria proveniente da prática de uma elevada taxa interna de juros. Resumindo, pode-se concluir que, embora os fatores externos tenham colaborado, as condições internas foram decisivas na determinação da produção brasileira no período analisado.