Part III Results and Discussion
19 In-Situ Observations of Limited Open Area Initialization
Ernesto Korrodi iniciou a sua atividade de projetista como autodidata em 1897, quando a titularidade do exercício da profissão não estando de jure estabelecida, era socialmente reconhecida a todos os que de facto a exercíam.
Tendo-se associado ao engenheiro José Theriaga, com quem fundou um «consultório» de arquitetura e engenharia, entre 1900 e 1907 elaborou projetos para particulares e também para a Câmara Municipal de Leiria, cujos paços concelhios foram o seu projeto público pioneiro.
Ávido por arte166 e pelo que de mais recente ocorria na arquitetura, aperfeiçoava- -se com a leitura de livros e revistas que assinava, designadamente a Academy Architecture
and Architectural Review167, a Schweizerishe Bauzeitung168, a Die Architektur der neuen
freien Schule169, La Ilustración Artistica170 e a Seitschrift den bauerifdjen Kunst Gewerbe
Vereins in München171. Entretanto, diversas revistas portuguesas da especialidade foram
dedicando crescente atenção ao seu trabalho nomeadamente o «Boletim da RAACAP», «A
Architectura Portugueza» e «A Construção Moderna». Esta, já em 1903 publicava um artigo
sobre o edifício dos Paços do Concelho de Leiria, enaltecendo o «Ilustre architecto» Ernesto
166 Nos seus périplos europeus, designadamente em 1900 (Viterbo,1904) e em 1939 (diário de viagem arquivado no ADLRA), visitou importantes museus de arte.
167 Até 1895, era designada de Academy Architecture and Annual Architectural Review. Korrodi foi assinante de 1895 a 1914.
168 Ou «Construção Suíça» em tradução livre, era uma revista anual publicada pelo Instituto Politécnico de Zurique entre 1883 e 1978 (renomeada depois para Schweizer Ingenieur und Architekt), que Korrodi assinou entre 1900 e 1935.
169 Ou, em tradução livre, «A Arquitetura da nova Escola livre», foi assinada por Ernesto Korrodi entre 1900 e 1905.
170 Korrodi deixou quatro volumes encadernados das edições de 1887 a 1891.
171 Volumes I e II duma publicação editada por uma associação de comércio de arte de Munique referente ao ano de 1890.
Fig. 13 - Obras de Korrodi na revista «O Occidente»
Korrodi. À mesma obra e ao pavilhão de doenças infectocontagiosas de Leiria também se referiu a revista «O Occidente» na edição de 30 de setembro de 1924.
No plano institucional, a crescente importância de Korrodi no panorama arquitetónico português ficou patente com a sua integração na Academia de Belas-Artes, na Real Academia de Belas-Artes de S. Fernando, de Madrid (1921) e, desde 1901, também no Instituto de Coimbra172, fundado em 1851 e dedicado aos estudos arqueológicos (Ferreira, 2012). A sua nomeação para a Comissão Estética da Câmara Municipal de Braga, entre 1919 e 1920, (Costa, 1997, p. 133) e a contratação como arquiteto do Banco Nacional Ultramarino, entre 1920 e 1922, acompanharam o prestígio alcançado.
Reconhecendo o trabalho desenvolvido, Viterbo (1904, p. 45) justificou a exceção aberta no primeiro volume do seu dicionário dos arquitetos portugueses para nele incluir Korrodi, que não conhecia pessoalmente, anotando que,
A letra K não faz propriamente parte integrante do alphabeto português[173], mas, apesar d’isso, não quisemos deixar esta lacuna no nosso Diccionário, embora sob esta inicial fique inscripto apenas o nome do Sr. Ernesto Korrodi.
A inclusão do seu nome no Dicionário dos Arquitetos, Engenheiros e Construtores Portugueses de 1904, indubitavelmente resultou da notoriedade alcançada pelos seus estudos historico-artísticos dos monumentos nacionais e foi precedida dum convite ao próprio para que lhe remetesse uma nota biográfica. Receando que a pronta anuência pudesse vir a ser interpretada como pretensiosismo, Korrodi manifestaria elegantemente a sua relutância em carta datada de nove de julho de 1901, onde argumentou:
1.º Porque sou autodidacto [sic] e os meus diplomas de architecto resumem-se nos estudos feitos principalmente durante a minha estada em Portugal.
2.° Porque não possuo nem medalhas nem premios, a não ser uma commenda de merito industrial, que seria um tanto difficil de relacionar como premio de actividade de um architecto, se não fosse dada como recompensa do nosso estudo historico-artistico sobre o Castello de Leiria, e que em tempos, subsidiado pelo Governo, appareceu á publicidade.
3.º Porque, excluindo alguns trabalhos que, attendendo ao acanhado meio em que vivemos, não
172 No qual já se encontravam inscritos os seus futuros clientes e «irmãos» maçónicos Egas Moniz (Prémio Nobel da Medicina de 1949) e António Caetano Macieira Júnior (Prémio Valmor de 1910), respetivamente desde 1898 e 1899. A ligação deste último à maçonaria é refutada por Macieira-Coelho (2013).
173 A rigor, a letra K fazia parte do alfabeto português e só deixou de ser assim entre a normalização ortográfica (unilateral) aprovada por portaria publicada no D.R. no 206 de quatro de setembro de 1911 e a entrada em vigor do Acordo Ortográfico (multilateral) de 1990. Sousa Viterbo terá levado à letra as «Bases da Ortografia Portuguesa», de 1885, documento sem caráter vinculativo e cujo conteúdo seria parcialmente acolhido na normalização de 1911.
offerecem interesse artistico, nada absolutamente temos feito até hoje que nos recommende a passar á
posteridade como architecto constructor.
Após insistência de Sousa Viterbo, Korrodi acabaria por prestar as informações solicitadas, que foram reproduzidas, na íntegra, no dicionário e referidas na nota biográfica deste trabalho.
Mais complexa seria a questão à luz da regulamentação do título e da profissão de arquiteto que seria instituída pelo Decreto no 10663 de 31 de março de 1925 que era de tal modo restritiva que não reconhecia, sequer, os profissionais portugueses formados em prestigiadas escolas de belas-artes estrangeiras. Por sua vez, o respetivo regime transitório contemplava apenas os que tivessem concluído os estudos numa das escolas de belas-artes nacionais, fixando-lhes um prazo de seis meses para o subsequente tirocínio, o que ditava o fim da carreira para Korrodi.
O Decreto no 11089, de 17 de setembro do mesmo ano, veio atenuar o rigor daquele diploma, designadamente com o seu artigo 3o, ao estabelecer:
O Ministro da Instrução Pública poderá, a requerimento dos interessados favoràvelmente informado pela Escola de Belas Artes de Lisboa e mediante parecer favorável e fundamentado da Sociedade dos Arquitectos Portugueses, autorizar o exercício da profissão aos arquitectos que tenham cursado qualquer escola estrangeira de arquitectura, de reconhecido mérito, dos países que admitam reciprocidade de direitos aos arquitectos diplomados pelas escolas portuguesas, devendo os ditos interessados ter prèviamente comprovado as suas aptidões profissionais.
A vasta e meritória obra de Korrodi afigurava-se como uma sólida base para obter o parecer favorável da SAP174, mas para concordante decisão da EBAL, carecia duma interpretação ampliativa da norma, no sentido de considerar o seu currículo académico próprio duma «escola estrangeira de arquitetura», questão mais semântica do que substantiva, como se depreende da análise das suas habilitações175. Dada a natureza cogente do decreto, põe-se a hipótese de ter havido influência maçónica para a boa resolução do caso. Registe-se que Ernesto Korrodi (e o seu discípulo Raul Lino, que beneficiou de idêntica solução) bem como João José da Conceição Camoesas, ministro da tutela que subscreveu o citado Decreto no 11089 e Eduardo Ferreira dos Santos Silva ministro que o sucedeu e exarou o despacho de autorização do exercício da profissão em 6 de maio de 1926 e ainda o Presidente da República
174 O que, à partida, não seria fácil, haja vista a influência da SAP na génese do primitivo Decreto no 10663. 175 No ADLRA estão arquivadas certidões (zeugniss) semestrais de aproveitamento, discriminando as disciplinas concluídas.
Bernardino Machado176, eram mações. Contudo, o caráter inovatório da norma, o teor da disposição transitória analisada e o percurso profissional de «arquiteto de facto» desenvolvido por Korrodi durante 29 anos, mostram ser mais apropriado dizer que lhe foi «conferido» o título de arquiteto do que «atribuído» ou «concedido», expressões com conotação de benesse, frequentemente utilizadas para qualificar o evento.
A autorização para continuar a usar o título e a exercer a profissão foi crucial para a afirmação e reconhecimento da sua atividade de arquiteto; não fora a pronta e eficaz resolução da questão e provavelmente jamais aconteceria, já que, três semanas depois, Bernardino Machado seria deposto e todos os liberais perderiam influência, particularmente os mações cuja sociedade viria a ser proscrita pela já referida Lei no 1901 de 21 de maio de 1935.
O ocaso profissional de Korrodi, perceptível desde então, não esmaece tudo o que realizara anteriormente nem o que viria ainda a produzir até à sua morte, cada vez mais em parceria com o seu filho Ernesto Camilo Korrodi que se formaria em arquitetura pela Escola de Belas-Artes do Porto em 1931.
Coube a Raul Lino, então presidente, o elogio fúnebre na Academia Nacional de Belas-Artes: «Ernesto Korrodi entra na conta daqueles artistas que fizeram de Portugal a sua segunda pátria, tornando-se fervorosos obreiros da arte nacional.».