– O aluno hoje ele é do botão. Hoje a nossa juventude é do botão, é do liga e desliga, do conectar (Profa. Andréa Ferreira, E.E. Prof. José Felício Miziara).
Pode-se dizer que o botão é um dos símbolos da comunicação na contemporaneidade: apertamos o botão do telefone, que não é mais discado; apertamos o botão do celular não apenas para ligar, mas para consultar a agenda e enviar mensagens; apertamos o botão do controle para ligar a TV e zapear os canais; apertamos o botão para colocar o play e ouvir música e, enfim, apertamos botões do teclado do computador para entrar no ciberespaço e fazer todas as atividades enumeradas acima: conversar com pessoas por chat, assistir vídeos, ouvir música, escrever textos, desenhar imagens, publicar fotos.
A atual geração de jovens nasceu imersa num mundo em que apertar um botão é uma atividade banal do cotidiano: sem pensar muito, é uma ação automática. E essa realidade está totalmente vinculada com a dimensão que a tecnologia foi alcançando na vida das pessoas nessas últimas décadas. O resultado é uma juventude que pode ser caracterizada de geração botão, esta que está estudando no ensino fundamental e médio das escolas e que é figura chave para se pensar o cenário da educação na atualidade.
– O que pode acontecer é algum professor não entender o processo, mas o aluno vai ter o domínio porque obviamente ele nasceu apertando os botões, hoje ele tem MP3, ele tem celular, muitas vezes computadores nas lan houses que eles vai muito, eles fazem muitas coisas que estão atreladas ao uso destas tecnologias. E ele não tem medo de errar, né, a grande facilidade de comunicação que ele tem. Ele erra, vai lá e conserta, começa tudo de novo e vai fazendo, até acertar. E nós não temos esse tempo, a gente não foi formado pensando que podia errar à vontade. A formação nossa, não só do professor, mas do ser humano, ela foi muito tradicional, a gente pouco admite os erros das pessoas. Então, errar para a gente é uma coisa complicada (Silvia Galletta, então Gerente da GIP/FDE da Secretaria de Educação).
Segundo a pesquisa “Perfil da juventude brasileira”150, estudo quantitativo realizado em áreas urbanas e rurais de todo o território brasileiro, a qual abordou 3.501 jovens de 15 a 24 anos, de ambos os sexos e de todos as classes sociais, dos quais 76% só estudaram em escola pública, o meio de comunicação mais utilizado por estes jovens é a televisão (91%), seguida do rádio (89%), leitura de impressos (revistas – 55% e jornais – 35%) e, por último, navegar na Web (17%)151. Levando-se em consideração apenas 9 regiões metropolitanas e o distrito federal, há uma pequena diferença na porcentagem, que vale a pena considerar. A ordem de utilização dos meios continua a mesma, mas as porcentagens sofrem modificações: 92% assistem à TV, 92% ouvem rádio, 60% lêem revistas, 44% lêem jornais e 26% navegam na Internet152. Nota-se que o acesso à Internet em regiões metropolitanas aumenta 9%, no entanto, mesmo assim, o acesso a este meio de comunicação continua restrito. Para complementar este dado, retomarei a pesquisa “A Voz dos Adolescentes”, realizada pela Unicef, já citada no início desta pesquisa, sobre o acesso à Internet entre jovens: detectou-se que 27% têm acesso á Internet, sendo que, dentre estes, 72,4% são da classe A, 52,3% da classe B, 20,8% da classe C e 12,9% da classe D. Este dado reforça o fato de o acesso à Internet ainda ser restrito a uma classe social privilegiada da população. Como enfatiza Coutinho (2005, p. 104):
O caráter excludente do uso da Internet no Brasil não é uma novidade para ninguém. Diversos levantamentos e estudos acadêmicos e de mercado mostram que o acesso encontra-se concentrado entre as classes A/B e entre os mais
150 “A pesquisa Perfil da Juventude Brasileira é uma iniciativa do Projeto Juventude/Instituto Cidadania,
com a parceria do Instituto de Hospitalidade e do Sebrae. Foi realizada sob a responsabilidade técnica da Criterium Assessoria em Pesquisas, retomando e ampliando temas e questões investigados em outubro de 1999 pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo”. A pesquisa abordou 198 municípios
brasileiros, entre novembro e dezembro de 2003. Fonte:
http://www.projetojuventude.org.br/novo/index.html . Acessado em 20 de dezembro de 2008.
151 Estas porcentagens são relativas aos dias da semana de 2ª. a 6ª. Para os finais de semana, a ordem de
utilização por meio de comunicação continua a mesma, mas com algumas diferenças de porcentagem (assistir TV – 87%; ouvir rádio – 89%; ler revistas – 46%; navegar na Web – 17%).
152 Novamente estes dados se referem à utilização dos meios de comunicação de 2ª. a 6ª. Nos finais de
semana, os números mudam para: assistir TV – 84%, ouvir rádio – 91%; ler revistas – 48%; ler jornais – 46%; navegar na web 27%.
jovens, apesar de inúmeras tentativas de popularização realizadas pelas mais variadas esferas de governo, entidades da sociedade civil e empresas privadas .
A geração botão que está se formando ainda possui uma divisão em relação ao acesso aos meios de comunicação: a televisão é o meio mais assistido por boa parte destes jovens e a Internet ainda é restrita a um setor de maior poder aquisitivo. Partindo do pressuposto de que os alunos da escola pública, em sua maioria, pertencem às classes sociais de menor poder aquisitivo, o acesso ao TôLigado ficou restrito ao âmbito escolar, às Salas-Ambiente de Informática, espaço público disponível ao aluno. De acordo com Silvia Galletta, da Secretaria de Educação, em entrevista, “o nosso aluno não é um aluno de classe média que toda casa tem um computador. A maioria dos nossos alunos o computador está na escola”.
De acordo com a mesma pesquisa da Unicef, os adolescentes não estão satisfeitos em relação ao espaço físico de que dispõem nas escolas em que estudam: 61% dos entrevistados acham que o espaço físico da escola não é um lugar agradável e seguro e 67% não consideram boas as salas de aula e o pátio. Enquanto 76% acham a escola importante para sua vida e futuro profissional, 57% acham que as aulas não ajudam a compreender melhor a sociedade em que vivem. Para 48% dos entrevistados, a escola é fonte de informações esclarecedoras, sendo que 28% dizem não receber esse tipo de informação na escola e 18% consideram-nas confusas. Estes dados nos levam a pensar sobre as motivações dos alunos em utilizar projetos pedagógicos no espaço da instituição escolar e se este está sendo acolhedor para viabilizá-los.
Para problematizar sobre estas questões e com a intenção relacionar a juventude da escola estadual paulista com os meios de comunicação e as novas tecnologias, foram aplicados 588 questionários153 com alunos do ensino fundamental e médio das escolas estaduais pesquisadas, da faixa etária média de 13 a 18 anos. Destes, foram 255 alunos de 7ª. e 8ª. séries da E.E. Prof. João Portugal e 333 alunos do ensino médio (1°, 2° e 3° anos) da E.E. Prof. José Felício Miziara.. A partir dos dados levantados, serão feitas reflexões sobre a “geração botão”.
Como já descrito no capítulo 4, as duas escolas estudadas possuem perfis diferentes de alunos: enquanto a E.E. Prof. João Portugal possui alunos da periferia da cidade de Tanabi, a E.E. Prof. José Felício Miziara possui alunos de melhor poder aquisitivo, localizada em bairro de classe média da cidade de São José do Rio Preto. Para poder fazer