4.3.1
– A ecovila e a dimensão social, seus indicadores e atributosPara atestar a dimensão social da sustentabilidade no projeto da Ecovila Viver Simples, mensurou-se uma de suas faces: o indicador de RELAÇÕES SOCIAIS.
Em todos os atributos derivados desse indicador que foram estudados, pode-se verificar que as opiniões apontaram uma preocupação excessiva com aspectos envolvendo o trato entre os participantes, principalmente com o respeito às individualidades dentro de uma comunidade que preza a coletividade. Uma característica marcante das respostas ao formulário foi a discussão que criava regras, em certos pontos severas, que previam punições por comportamento destoante com a proposta da ecovila. Ambos aspectos,
surpreendentemente mostraram-se destoantes, na essência, da fundamentação teórica que trata manejam esses assuntos.
Nas observações sistemáticas nas reuniões, constantes alertas sobre a importância de criar e manter um relacionamento saudável com a vizinhança mostrava os esforços necessários para inserir a ecovila na comunidade, sem artificialismos. Segundo os entrevistados, a ecovila não podia ser um assentamento com aspectos de “corpo estranho” na região, sendo rechaçada pela circunvizinhança, caso houvesse negativa no relacionamento social entre os atores – membros e população local. A ecovila pleiteava sua aceitação e inclusão na vida da localidade como agente ativo de transformações, e a forma assertiva de implementar tais ações era desempenhar as RELAÇÕES SOCIAIS da forma mais receptiva e agradável entre os envolvidos.
No que tange a dimensão social, uma das limitações desse trabalho é tratar somente os assuntos relacionados ao relacionamento social intra-ecovila. Optou-se por basear a percepção de inclusão social por parte da comunidade vizinha, na seção referida a desenvolvimento local.
4.3.1.1 –
Governança circularSegundo May East (2006), o poder tem um preço alto para quem o detém, visto que está intimamente relacionado com a idéia de dominação. O poder funciona como uma camisa de força, criando cenários que imperam a inflexibilidade, a restrição de movimentos e o estreitamento da criatividade e da visão holística. Cientes das relações de poder estabelecidas nas organizações atuais, onde há prevalência da burocracia e da hierarquia, os participantes da ecovila planejam romper com o statu quo na gestão do assentamento Viver Simples.
Os dados coletados a partir do formulário apontam que, para os envolvidos no projeto da Viver Simples um dos principais fatores que levam a exercitar a experiência em ecovilas dizem respeito ao emprego do poder e ação através de liderança circular. Para tal, o grande desafio das relações na comunidade é fortalecer os grupos de trabalho, por meio de uma política de gestão por colegiado (dos Conselhos), com rotatividade no exercício de tomada de decisão, numa tentativa de governança coletiva.
Para criar mecanismos, que incentivem uma participação mais livre dos atores envolvidos nos processos de liderança e resolução de conflito, a Ecovila Viver simples optou pela criação de um fórum democrático de discussão no formato de assembléias. Essas reuniões diferem das chamadas assembléias gerais ordinárias, que ocorrem em prazos
trimestrais e possuem, essencialmente, a responsabilidade de tratar de assuntos administrativos propostos pelos conselhos. Os fóruns democráticos criados pela Viver Simples estariam embasados nas práticas previstas pela Agenda 21, segundo Krzyzanowski (2005), que promovem o desenvolvimento institucional e o fortalecimento da capacidade de planejamento e gestão democrática do local.
No que tange ao processo de votação nas assembléias, cada fundador possui o poder de voto igualitário, e basta a maioria simples, ou seja, a aprovação de mais da metade dos fundadores presentes, para decisão das proposições.
Contudo, alguns aspectos demonstram que a proposta de governança circular ainda apresenta limitação, uma vez que as votações dos temas de interesse do assentamento ficam restritas aos fundadores. Um dos atores fundamentais na estrutura da Ecovila Viver simples, os incubados não detêm poder de voto, ainda que convidados a participar das assembléias. No caso de eventuais sugestões ou queixas, os incubados devem propor suas considerações aos Conselhos competentes, ou em assembléias ordinárias ou extraordinárias em se tratando de matérias estranhas à competência dos Conselhos. Tal mecanismo indica que avanços podem ser feitos no sentido de promover maior flexibilização nas votações e inclusão desses participantes que estão mais intimamente ligados às ações cotidianas do assentamento do que possivelmente o fundador a qual está vinculado. A característica de tratamento diferenciada entre os atores que representam o papel de incubados e os membros fundadores, confere a governança circular a ser empregada na Viver Simples, uma orientação que vai, parcialmente, de encontro ao movimento contestatório e libertário das ecovilas, que deveriam quebrar os paradigmas e hábitos de desigualdades nas relações sociais e na execução de poder (SANTOS JUNIOR, 2006).
Outro assunto que vêm sendo constantemente discutido nas reuniões dos participantes, e carece de melhor prática na sua execução, são os assuntos que devem entrar em pauta nas votações das assembléias. Há um consenso estabelecido que uma assembléia extraordinária poderá ser convocada a qualquer momento, a pedido de qualquer participante, seja fundador ou incubado, desde que julgado procedente pelo Conselho de Administração Geral. O procedimento criado justifica-se na alegação de garantir a relevância dos temas a serem votados, entretanto a obrigatoriedade de submissão à aprovação de um conselho restringe as sugestões cotidianas e naturais, características em regimes com viés acrático, como as ecovilas.
O amadurecimento das relações de governança seria a resposta para o rompimento dos padrões de dominação trazidos pelos participantes do projeto e que emergiram nos resultados
obtidos. Os fundadores entrevistados, embora cônscios dos efeitos repressivos causados pelas medidas adotadas, ainda carregam consigo certos vícios adquiridos por anos expostos a modelos que negligenciam o incentivo de relações solidárias e a democratização das administrações de sociedades. Houve um comprometimento dos fundadores da ecovila em aprimorar, no futuro, o mecanismo de tomada de decisão para uma forma mais abrangente, inclusiva e equânime, envolvendo os atores interessados, como incubados e população circunvizinha.