Desde que as instituições eclesiásticas chegaram em Minas Gerais, durante o século XVIII, o catolicismo adquiriu singularidades que lhe deram uma identidade diversificada das demais regiões brasileiras na questão de religiosidade. O estabelecimento das instituições católicas em Minas foi determinado pelo Rei de Portugal devido às descobertas das jazidas de ouro e diamante em solo mineiro e da organização política local.
A migração para a região de Minas ocorreu em massa, um processo pioneiro de povoamento no interior do país. Enquanto nas outras regiões nacionais eram criados os grandes engenhos de cana-de-açúcar e fazendas destinadas à pecuária, em Minas Gerais surgia a urbanização. Foram criadas cidades, tais como: Vila Rica (Ouro Preto), Sabará, São João Del Rei, Vila do Carmo (Mariana) e o arraial do Tijuco (Diamantina).
Celebravam-se festividades em homenagem aos padroeiros nas Igrejas das Irmandades existentes, organizadas pela sociedade laica, enquanto o clero secular cuidava das matrizes e capelas de acordo com a hierarquia eclesiástica. Os homens veneravam as imagens das divindades, esculpidas por eles mesmos, nas capelas modestamente erguidas em locais que prosperavam com o árduo trabalho dos fundadores de Minas Gerais (AZZI, 1986).
A ordem católica era mantida pela força da sociedade laica, tendo, alguns de seus membros, assumido as funções devocionais dos padres68. Azzi (1986) acentua que o papel dos clérigos seculares nos centros urbanos mineiros, durante o século XVIII, foi importantíssimo devido ao seu elevado nível cultural, pois eram eles os transmissores dos princípios educacionais para a sociedade mineira nascente.
Uma parte significativa deles acompanhou o desenvolvimento da civilização ocidental, assimilando tanto os valores da racionalidade promovidos pelo movimento do iluminismo e do enciclopedismo, como as novas conquistas liberais. Essa aquisição da cosmovisão européia, porém, não foi feita apenas em moldes de (...) ou de ingênua repetição. É bastante notório o interesse desses clérigos pelos problemas do povo e da colônia. Preocupavam-se, sobretudo, em fazer com que também o Brasil pudesse elevar-se da precária situação social e cultural em que jazia (AZZI, 1986, p.15).
Fica evidente nesse comentário que esses eruditos tiveram uma visão clara sobre a exploração a que era submetida a Colônia, graças a uma nova visão de mundo com bases em conhecimentos científicos nas áreas física e natural, razão pela qual os clérigos, num futuro bem próximo, tomariam partido nas ações da Inconfidência Mineira69, como comenta Azzi, (1986).
Entende-se, a partir destas observações de Azzi, a razão pela qual o catolicismo em Minas Gerais tinha uma identidade peculiar, pois, embora o povo, com suas tendências religiosas, fosse fiel à fé católica em seu sentido ortodoxo, a classe sacerdotal alimentava-se
68 Destacam-se alguns nomes de eremitas, tais como: Félix da Costa, construtor do recolhimento de Macaúbas; Feliciano Mendes, que divulgou a devoção do Bom Jesus de Matosinhos; Irmão Lourenço, fundador do eremitério da Serra do Caraça; Antonio Bracarena, devoto de Nossa Senhora da Serra da Piedade (AZZI, 1986: p.14).
do ideário fundamentado nos segmentos político-sociais, uma atitude considerada um tanto permissiva para o estabelecimento do que se julgava, na época, uma religião sem moral. Essa postura do clero mineiro deu abertura às críticas de visitantes europeus reacionários, em especial a do representante da Igreja de Roma que acompanhava a família real em 1808.
D. Maria I preocupava-se com as questões de Minas Gerais, ao tomar conhecimento das tendências políticas do clero, em detrimento dos interesses religiosos e da fidelidade à Coroa Lusitana. A sugestão de uma reforma dos princípios religiosos praticados foi bem aceita no seio da realeza portuguesa. Assim, a Coroa de Portugal solicitou que o Bispo de Mariana tomasse providências a respeito. D. José da Santíssima Trindade, que pertencia à Ordem Franciscana, solicitou a vinda de alguns irmãos para a pastoral do seminário de Mariana, cujos princípios autoritários espelhados na Santa Sé, não foram bem aceitos nem pelo clero local e nem pela sociedade laica.
A reforma episcopal em Mariana só teve significação a partir de 1844, com a vinda dos lazaristas franceses; dessa forma, o século XIX testemunhou o destacado desempenho do clero no movimento da reforma religiosa. A obra de D. Bosco foi trazida para Minas Gerais pelos salesianos justamente no meio dessas ações que marcaram a região como “[...] o berço da reforma católica.” (AZZI, 1986: p. 19).
D. Viçoso, o Bispo de Mariana que sucedeu a D. José a partir de 1835, muito lutou pela autonomia da Igreja, pois somente com bases nessa liberdade de direitos eclesiásticos nas ações pastorais a reforma episcopal teria sentido integral, embora essa reivindicação tenha sido feita durante a vigência do Padroado70no Brasil. A reforma, sob o ponto de vista do Bispo de Mariana, deveria basear-se em duas prerrogativas: a de fazer com que o clero adotasse uma postura exemplar e a de estruturar a formação sacerdotal de acordo com novos modelos que deveriam ser seguidos pelos seminários diocesanos.
É necessário salientar-se também que, o Bispo de Mariana pertencia à Ordem São Vicente de Paulo, tendo chegado de Portugal para o Brasil em 1819; além de ser um adepto do espírito tridentino71 e por possuir um caráter conservador, D.Viçoso guardava rigorosamente as tradições de sua formação sacerdotal, cujos princípios, completamente desvinculados de ideais políticos, eram os de santidade comportamental e de total fidelidade à
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Trata-se da designação do conjunto de privilégios concedidos pela Santa Sé aos reis de Portugal e de Espanha, que foram estendidos aos imperadores do Brasil. Configurando como um instrumento tipicamente medieval que possibilitava um domínio direto da Coroa nos negócios religiosos, especialmente nos aspectos administrativos, jurídicos e financeiros. Padres, religiosos e bispos eram considerados funcionários da coroa portuguesa no Brasil Colonial. O fim do regime de padroado no Brasil se deu com a Proclamação da República em 1889.
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Segundo Azzi (1986), foi D. Viçoso o introdutor do conceito tridentino no Brasil; Cônego Pedro Maria Lacerda, o responsável pela vinda dos Salesianos para o Brasil, foi discípulo de D. Viçoso.
missão religiosa. Dessa forma, sua ideologia incluía a formação sacerdotal como uma das prioridades na reforma episcopal.
No Rio de Janeiro, desde o período colonial, havia Congregações religiosas estabelecidas: franciscanos, beneditinos e carmelitas, embora os conventos estivessem em fase de decadência. Portanto, o movimento reformador teve, como uma das principais características, a renovação dos seminários para a formação sacerdotal dentro dos paradigmas tridentinos, mesmo sob o protesto de muitos que reagiram às medidas adotadas. No final do período imperial, já estavam estabelecidas no Brasil a ordem dos Jesuítas e a congregação Salesiana.
A instalação de congregações e ordens religiosas em Minas Gerais era sempre bem recebida pelos bispos, pois se constituíam em colaboradora da reforma episcopal e da consolidação do espírito tridentino da Igreja Católica no Brasil. Até o final do século XIX, as Congregações que se destacaram nesse sentido entre outras foram: ordem dos Frades Dominicanos, ordem dos Lazaristas, ordem dos Jesuítas, e congregação das Filhas de Maria Auxiliadora.
O papel dos lazaristas foi um destaque na reforma do clero, e os bispos os escolhiam como diretores seminaristas, devido à sua fidelidade ao rigor das práticas eclesiásticas. Assim, formavam-se clérigos dentro da mentalidade tridentina e ultramontana. Em Minas Gerais, bem como em todo o território nacional, os padres dedicaram-se à promoção da fé católica entre a população, estimulando os indivíduos à prática da moralidade como condição de se alcançar a eternidade.
É interessante observar-se o espírito religioso da comunidade mineira, já que a reforma ultramontana espalhou-se do interior de Minas Gerais pelas diversas regiões brasileiras, dando origem a uma classe clerical bem diferente do que se vira até então. Havia, agora, uma dedicação verdadeiramente pastoral e de acordo com as necessidades da Igreja por parte da classe episcopal, com bispos cujos interesses distanciavam-se da vida política, diferente do que acontecera no período colonial (LUSTOSA, 1990).
A congregação dos Lazaristas dedicou-se, em Minas Gerais, à educação da juventude e um dos educandários mais famosos do período imperial foi o Colégio Caraça. As Filhas da Caridade foram responsáveis pelo desenvolvimento da educação católica feminina em escolas e colégios.
Um fato pouco citado na historiografia eclesiástica de Minas Gerais, foi a atuação da congregação Dominicana em Uberaba desde 1881, haja vista que, nesse período, a região pertencia à diocese goiana, sob a orientação de D. Cláudio Ponce de Leão, Bispo de Goiânia,
que solicitou a vinda dos padres dominicanos franceses para o trabalho pastoral em sua diocese.
Em seguida à vinda dos irmãos da Ordem de São Domingos, vieram as Irmãs Dominicanas do SS. Rosário de Monteils, na França, também por solicitação de D. Cláudio, repetindo, em Uberaba, o trabalho das Irmãs da Caridade em Mariana. Assim, em 1885 as aulas do Colégio N. S. das Dores eram iniciadas em caráter de internato e externato para jovens do sexo feminino (AZZI, 1986).
O Bispo de Mariana solicitou a vinda de padres jesuítas para a assunção das tarefas educacionais da diocese, alicerçando as ações evangelizadoras junto a uma comunidade tão afeita à religiosidade como a de Minas Gerais. Porém, em função de dificuldades surgidas para seu estabelecimento, não foi possível aos jesuítas permanecerem em Mariana.
O empenho do Bispo de Mariana em Minas Gerais para a consolidação da reforma episcopal e da renovação católica na região era enorme, não poupando esforços em recorrer às autoridades eclesiais responsáveis pelas irmandades religiosas na Europa. Segundo Azzi (1986), os redentoristas foram os primeiros a responder aos apelos do Bispo.
Uma casualidade permitiu que salesianos e redentoristas se encontrassem e estabelecessem laços amistosos durante o percurso em Minas Gerais em 1895. A Congregação de D. Bosco, que chegara ao Brasil em 1883, já era conhecida em Minas Gerais, onde o Pe. Carlos Pereto estivera algumas vezes em busca de recursos financeiros para o andamento da fundação do Colégio de Niterói. Na verdade, os clérigos apreciavam a excelência climática de Minas Gerais, bem como as águas medicinais de Caxambu com seu alto teor de minérios, para os tratamentos de saúde.
Em 1890, já se ofereciam aos salesianos alguns projetos para a fundação de obras em São João Del Rei (onde foi instalado o Asilo de Órfãos pela Ordem São Francisco de Assis), Caxambu e Cachoeira do Campo. A obra em Cachoeira do Campo teve o apoio do Governo de Minas Gerais, a quem agradava, sobremaneira, a fundação de escolas profissionais e agrícolas na região.