Para entendermos o universo que envolve a problemática do Ensino de Física voltado aos alunos com deficiência visual, a questão da acessibilidade e o processo de inclusão escolar, foi preciso um olhar mais de perto, buscando descrever e interpretar a realidade observada dentro do contexto ao qual estava inserida, ou seja, no campo escolar.
Neste sentido, o trabalho foi estruturado sob as bases da “Pesquisa Qualitativa” ou “Interpretativa”, cujas características podemos citar:
O pesquisador observa os fatos sob a ótica de alguém interno à organização;
A pesquisa busca uma profunda compreensão do contexto da situação;
A pesquisa enfatiza o processo dos acontecimentos, isto é, a sequencia dos fatos ao longo do tempo;
O enfoque da pesquisa é mais desestruturado, não há hipóteses fortes no início da pesquisa. Isso confere à pesquisa bastante flexibilidade;
A pesquisa geralmente emprega mais de uma fonte de dados. (TEIXEIRA, 2011, p. 137)
Dessa forma, partindo de uma questão central, a pesquisa vai sendo tecida, e à medida que o pesquisador vai se envolvendo com o objeto de estudo, novas questões vão surgindo, hipóteses vão sendo levantadas e generalizações vão sendo construídas. Para Bauer, Gaskell e Allum (2010, p. 23), ao diferenciarem a pesquisa qualitativa em relação à quantitativa, exemplificam que “a pesquisa qualitativa evita números, lida com interpretações das realidades sociais [...] e o protótipo mais conhecido é, provavelmente a entrevista em profundidade”.
Segundo Moreira (2011), quando direcionamos a abordagem qualitativa à pesquisa em ensino, em que a escola, a sala de aula, são vistas como ambientes dinâmicos nos quais as ações estão em constante mudança, significados são adquiridos e compartilhados e o contexto passa a ter um lugar de destaque. O autor conclui que:
A pesquisa interpretativa procura analisar criticamente cada significado em cada contexto. O pesquisador, nessa perspectiva, pergunta-se continuamente que significados têm as ações e os eventos de ensino, aprendizagem, avaliação e currículo para os indivíduos que deles participem. Indaga-se permanentemente sobre o que está acontecendo e como isso se compara com o que está acontecendo em outros contextos (MOREIRA, 2011, p. 49).
Nesse sentido, entendendo que a participação do pesquisador nessa perspectiva não é passiva, pelo contrário, segundo Moreira (op. cit.) ela é crítica, a definição da estratégia de pesquisa fundamentou-se em uma abordagem qualitativa com enfoque na “Pesquisa Participativa”. Pois se trata de “um modelo e de um meio de mudança efetiva para o qual os sujeitos implicados devem elaborar e trabalhar uma estratégia de mudança social” (CHIZZOTTI, 2011). O intuito foi envolver a escola em nosso projeto de pesquisa, nos moldes de uma “Pesquisa para a ação”36, em que pesquisador, direção da escola e professores trabalharíamos na organização de uma ação coletiva, com vistas à solução do problema de pesquisa, que afeta diretamente o contexto escolar, no que se refere a melhoria no atendimento educacional especializado à alunos com deficiência visual, rumo a inclusão escolar.
4.1.1 Instrumentos de coleta de dados e forma de análise dos resultados
Devido ao caráter qualitativo da pesquisa, nos defrontamos com as mais variadas fontes de dados, desde depoimentos, gravações e transcrições de áudio e vídeo, documentos, notas de campo, até conversas informais.
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Para a primeira etapa do projeto, os dados se restringiram às transcrições de áudio das ferramentas de interface auditiva ao serem submetidas à leitura de textos que contemplavam a linguagem matemática presente na Física. Já para a segunda etapa, em que acompanhamos alunos com deficiência visual tanto em sala de aula quanto em atividades de apoio pedagógico, os dados compreenderam desde gravações de áudio e vídeo, com o auxílio de uma videocâmera e um gravador, anotações de campo e entrevistas, que segundo Gil (1999) trata-se de uma técnica eficiente para a obtenção de dados em profundidade.
Para interpretação dos dados, nos pautamos na Análise do Discurso, cuja ideia central, segundo Bauer, Gaskel e Allum (2010) se baseia na rejeição da noção de linguagem como um meio neutro de descrever o mundo e uma convicção do papel central do discurso na construção da vida social. Chizzoti (2011) complementa ao considerar o discurso como “a expressão de um sujeito no mundo” (p. 120), não se restringindo a uma mera estrutura ordenada de palavras ou a uma expressão verbal do mundo, portanto carrega traços de sua identidade e papel social. Buscamos nas concepções de linguagem em Bakhtin as bases para essa análise.
O eixo central do conceito de linguagem em Bakhtin (1997) é seu caráter dialógico e ideológico. Ele faz uma crítica à Linguística Geral, que trata o processo de comunicação verbal apenas como uma função acessória da língua, em que o papel do “outro” perde sua importância, considerando os interlocutores como sujeitos passivos do processo, meros ouvintes. Para Bakhtin, o processo da comunicação passa pela “compreensão” e posteriormente pela “resposta”, em que os interlocutores saem da condição de somente ouvintes e passam a ter uma atitude “responsiva ativa”. Nas palavras de Bakhtin (1997) “toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz; o ouvinte torna-se locutor” (p. 290). Neste processo, a voz alterna-se entre o locutor e seus interlocutores. Bakhtin (1997) introduz então os conceitos de “compreensão responsiva ativa” (p. 290), em que os interlocutores buscam a compreensão do que foi falado e em seguida pronunciam sua resposta e o de “compreensão responsiva de efeito retardado” (p. 291), em que o sujeito após ouvir, permanece mudo por alguns instantes em seu processo de compreensão e somente então toma uma atitude responsiva.
Neste contexto, analisar um discurso, segundo Bakhtin (1997), requer considerar como “unidade real da comunicação verbal”, não a palavra, o signo, mas o “enunciado” (p. 293). Não importa o gênero do discurso, o enunciado possui características comuns e fronteiras bem definidas, marcadas pela alternância dos locutores. “Desde a breve réplica (monolexemática) até o romance ou o tratado científico – comporta um começo absoluto e um fim absoluto” (p. 294).
Os resultados oriundos desta etapa do projeto foram organizados em episódios, em que acompanhamos dois alunos com deficiência visual cursando o
Ensino Médio de uma escola pública, com o auxílio de um computador associado a um software ledor de tela, na resolução de problemas de Física utilizando a linguagem LaTeX. Os episódios ocorreram tanto em sala de aula quanto em ambientes de Atendimento Educacional Especializado, onde podíamos adotar um gênero de discurso mais informal, descontraído. Os episódios foram gravados e posteriormente transcritos na forma de diálogos.
Uma análise das relações estabelecidas entre os enunciados contidos nos diálogos, olhando para os níveis de compreensão responsiva ativa adotados pelos interlocutores, nos permitiu, dentro de nossa pesquisa, estudar a introdução da linguagem LaTeX no processo ativo de resolução de problemas de Física por alunos com deficiência visual. Neste sentido, foram estabelecidas as seguintes categorias de análise:
Categoria I – Acessibilidade da linguagem LaTeX. Buscamos analisar a relação entre o ledor de tela e a linguagem LaTeX;
Categoria II – Correspondência entre a Linguagem Matemática convencional (LMc) e a Linguagem LaTeX (LLa). Procuramos analisar o nível de compreensão dos alunos a respeito da Linguagem LaTex, ao “transitar” pelos dois tipos de linguagem.
Categoria II.1 – Fala (LLa) Escrita (LLa); Categoria II.2 – Leitura (LLa) Fala (LMc); Categoria II.3 – Fala (LMc) Fala (LLa); Categoria II.4 – Fala (LMc) Escrita (LLa).