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3.4 Implementering

3.4.3 Implementeringsprosessen

Nos itens anteriores, mostrei as formas através das quais os Eleotérios faziam uso específico de uma “economia discursiva” na perspectiva de dar sentido às fronteiras étnicas. Os conteúdos étnicos eram enfatizados principalmente através das narrativas de caráter difuso, tal qual: a “vulgata da avó pegada a dente de cachorro” ou da “avó pega nas matas a

casco de cavalo”, como é tratada no Catu. As lideranças políticas do Catu davam destaque ainda às elaborações das genealogias, a partir das quais se enfatizava a diferenciação social. Isso será o tema deste item. Joel Candau (2006) sustentou, que “las maneras de “decir familia” y de establecer una memoria genealógica son siempre “emblemáticas de una identidad cultural desaparecida o subterránea” (ibid. p 136). Destacou ainda que essas maneiras de estabelecer uma “memória genealógica” podem se apresentar de formas diferentes para os diversos grupos sociais numa mesma sociedade.

Ecléa Bosi (1994) defendeu uma das posições teóricas para entender os elementos componentes da memória. Estes estariam relacionados com as experiências coletivas, mas também se relaciona com as experiências individuais do enunciador. Ao discutir a “experiência da releitura” preocupou-se em entender, tal qual o sociólogo Halbwachs, a maneira pela qual vai se compondo a “reconstrução do passado”143, fazendo analogia com a releitura de um livro. A autora afirmou que esse exercício não significa, necessariamente, reviver experiências. A releitura é primeiro definida pelo momento presente quando está sendo realizada. Em segundo lugar, é o contexto presente que vai nortear as relevâncias advindas daquela experiência. Em suma, queria salientar que a experiência está, em um nível, sendo refeita, mais que revivida.

O caráter livre, espontâneo, quase onírico da memória é, segundo Halbwachs, excepcional. Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, “tal como foi”, e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual (BOSI, 1994 p.55).

Devo ressaltar que, desde o período inicial da pesquisa (2003) até recentemente (2007), ao perguntar sobre “os antepassados comuns dos Eleotérios que viveram no Catu”, obtive a seguinte resposta: “quem sabe disso é Vando, Vina, ou a mãe dele”. Diversas vezes, os entrevistados indicavam a família de Vando como as pessoas autorizadas para dar as respostas “mais adequadas” sobre as gerações mais antigas e suas trajetórias no Catu.

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Vale ressaltar que Halbwachs (1925, 1990) preferiu estudar o que chamou de “quadros sociais da memória” relacionando o sujeito com as diversas instituições que o formam. Se diferenciado, assim, dos estudos anteriores sobre “memória”, em larga medida situados no campo da psicologia.

Vandregercílio Arcanjo, mais conhecido como Vando, era sempre indicado como quem mais sabia das coisas sobre os antigos. Entretanto, quando buscava conversar com alguns membros da família nuclear de Vando, inclusive com as mulheres mais velhas da casa, voltava a me deparar com a mesma afirmação. Diziam que, mesmo entre todos os membros da família, ele detinha maior conhecimento, pois a mãe delas, Júlia de Serafim, conversava abundantemente com Vando e, dessa forma, tinha contado muita coisa pra ele. Seria, portanto, reconhecidamente o “expert” para falar sobre o passado da comunidade. Estaria também autorizado a falar sobre o contexto atual, já que foi indicado pela prefeitura de Canguaretama para ocupar a presidência da ACMVC. Eu lhe considerei como um “especialista” da memória dos Eleotérios. Frente à mobilização étnica, a família Arcanjo, da mesma forma que os Serafim, se destacava das demais famílias. Ressaltavam uma memória genealógica (geracional) em que se observava a personalização do vínculo pelo parentesco144. Embora, os Arcanjo fossem indicados de forma recorrente para falar sobre as genealogias, as indicações por parte das pessoas não estavam, em todo caso, relacionadas à mobilização étnica. Candau (2001) afirmou que a genealogia pode ser assim definida, qual seja:

Uma búsqueda obsesiva de identidade (...). (...) Se nutre de las apuestas identitárias presentes a las que sujeta el passado. Por esta razón, la extensión de la memória (la memória horizontal ao redor de ego ), su profundidad (la memoria longitudinal, llamada también “longitud de memoria), o incluso la naturaleza del linaje privilegiado em ocasión de la construcción de esta memória (filiación paterna, materna o indiferenciada, importância respectiva de los parientes políticos y de los consaguíneos) varián considerablemente según el ambiente (CANDAU, 2001 p. 35).

A memória “geracional”, de acordo com o autor, estaria situada num plano diferente da memória familiar, “uma memória corta, que no se remonta más allá de dos o três geraciones” (ibid). A memória geracional estaria ligada, tal como a consciência do pertencimento, à uma cadeia de gerações sucessivas das quais o grupo e o indivíduo se sentem mais ou menos herdeiros.

Em parte, relacionei o lugar que Vando ocupava como “especialista da memória” dos Eleotérios com a posição de liderança que a familia Arcanjo possuía como mediadores entre os moradores e as prefeituras locais. Partiram também dessa família os contatos com

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As posições dessa família na genealogia dos Eleotérios podem ser visualizadas no gráfico exposto no capítulo dois.

os militantes indigenistas. Além disso, Vando e sua irmã Valda foram os pioneiros na comunidade a obter títulos de terceiro grau, um fator que teria alguma implicação no reconhecimento desses integrantes da família Arcanjo como pessoas estudadas. Observei inúmeros problemas sociais sendo levados para o conhecimento dessa família, principalmente após a formalização da associação dos moradores em 2004. Isso indicava também o prestígio dessa família na função de mediadora entre a comunidade e os diversos setores da administração pública, tais como os órgãos municipais, os federais e os estaduais, além dos pesquisadores e demais pessoas visitantes da comunidade, associadas ao campo de ação indigenista.

Nas diversas conversas mantidas com Vando, fiquei sabendo que sua avó materna, Júlia Maria da Conceição, além das ‘recordações’, havia lhe contado que “as terras” onde viviam os Eleotérios teriam sido doadas para três irmãos “Lotero”, pensados como antepassados comuns:

(...) E essas terras foram doadas por um padre, chamado padre Aquino que em 1900 deixou essas terras na mão de três irmãos, Francisco Lotero, Serafim Lotero e Manoel Lotero. Esses três irmãos casaram e daí foi gerando a família dos Lotero (VANDO. Catu, 2003).

No que diz respeito ao relato sobre a posse das terras no Catu, não foi minha intenção procurar comprovações documentais para atestar a doação de terras feita pelo “Padre Aquino”. Quero apenas chamar atenção para o fato de que, a partir do esquema genealógico elaborado, pareceu-me bastante claro que, anterior à geração contemplada com a doação das terras através do padre, havia uma outra. Esta geração, por opção dos próprios atores sociais, passou a fazer parte de uma “memória silenciada”. Há consenso de não falar abertamente sobre os antepassados dos três irmãos citados nas versões sobre a ocupação histórica do Catu. Concordo com Candau (2006) quando afirma que “lo único que los membros de un grupo o de una sociedade comparten realmente es lo que ouvidaron de su passado en común (ibid. p.64). Para este autor, a memória coletiva é, sobretudo, o resultado dos esquecimentos do que das recordações. Entendeu que as recordações são resultado de uma elaboração individual. Nesse sentido, “la sociedad se encuentra menos unida por sus recuerdos que por sus olvidos” (Ibid). São, portanto, os esquecimentos como elementos comuns aos atores sociais, o que daria certo aspecto de coesão a memória:

Es posible ver que existe una casi certeza en cuanto a los ouvidos comunes de un grupo, de una sociedad, pero nunca es posible estar seguros en cuanto a los recuerdos, pues cada uno de ellos, incluso el histórico, recibe la impronta de la memória individual. La ausência es segura, lãs modalidades incertas de la presencia quedan por determinar (CANDAU, 2006 p. 64).

Para o autor, a memória coletiva não dependeria apenas da transmissão ampla e repetitiva de recordações organizadas sobre o passado. Haveria uma espécie de “filtro” do receptor determinando sua (re)elaboração, “lo que impide suponer la existência de una memória realmente compartida”. Assinalou a diferença entre as recordações comuns mais suscetíveis à repetição e as recordações individuais “que puede despertarse de pronto, después de años de estar dormido, sin que haya hecho nada para mantenerlo despabilado145”. Nesse caso, na necessidade de repetição, atrelada às condições favoráveis de memorização, estariam contidas “el rol de os marcos sociales o marcos coletivos de la memória, sobre los que insistió justamente Halbwachs”. Nesse sentido, Candau concluiu que a noção de “memória coletiva” seria mais expressiva do que explicativa. Principalmente, por não permitir alcançar a explicação de, por exemplo, o problema da passagem da memória individual para constituir- se em uma memória coletiva. Mais ainda, não permite entender de que maneira essa memória coletiva pode ser conservada, transmitida, modificada, etc. Para Candau, assim, a noção de “marcos sociais” teria mais impacto explicativo ao permitir elucidar como as memórias individuais estão ligadas e recebem certa orientação do grupo, qual seja:

La noción de “marcos sociales” nos ayuda a compreender como los recuerdos individuales pueden recibir una cierta orientación própria de un grupo, pero el concepto de memória colectiva no nos dice como orientaciones más o menos próximas pueden volverse idénticas al punto de fusionarse y de producir una representación común del passado que adquiere, entoces, su propia dinámica respecto de las memórias individuales. Ya hemos dicho que, desde este punto de vista, la noción de memoria colectiva es tan discutible como todas las retóricas comunitarias (CANDAU, 2006 p. 68).

Nesse sentido, para as famílias Eleotérios é, de fato, o esquecimento que se sobressai no aspecto da coesão da memória social. De outro lado, havia também entre os Eleotérios a (re)apropriação da memória geracional para reforçar identidades não necessariamente étnicas. O caso de Manuel Luca (Tio de Vando) é emblemático, demonstrando as diferentes (re)apropriações do passado familiar e da memória. Havia um cuidado explícito em referir-se aos antepassados Eleotérios anteriores à geração de Serafim Eleotérios Soares. Nos primeiros

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meses de trabalho de campo, vi-me, inclusive, constantemente acompanhada por uma das lideranças locais, interferindo nas entrevistas e me conduzindo à entrevistar pessoas tidas como importantes para ele.

Ao perceber tal controle de informações (GOFFMAN, 1988; BERREMAN, 1980), precisei ficar atenta às colocações indiretas que apareciam nas falas dos interlocutores, por exemplo as frases sussurradas e os olhares trocados, demonstrando claramente as interdições em torno de determinado assunto. Duas situações que vivenciei em campo são emblemáticas. A primeira delas foi, ainda em 2003, logo quando iniciei as entrevistas com os Eleotérios. Em um domingo, Vando convidou-me para conhecer Pedro Inácio Eleotério. Um ancião bastante respeitado a quem todos do Catu tomavam “abenção”. Nesse período, ele já não saía mais de casa, pois estava bastante, acometido com as doenças da velhice. Ao sairmos de sua casa, Vando me apresentou a Afrânio, que iria nos levar até a residência de Pedro Inácio. Afrânio era um Coronel da PM no Rio Grande do Norte e morava com uma neta de Pedro Inácio no Catu. Percebi o significado daquela companhia para Vando. Não se podia recusar a gentileza do coronel, uma respeitada autoridade que escolhera o Catu para morar146. Durante a entrevista, estávamos em quatro pessoas na sala da casa. Em nenhum momento, pude ficar a sós com Pedro Inácio. Além de ser constantemente interrompida por Vando, ele pareceu muito interessado em também dirigir a entrevista. Quando perguntei a Pedro Inácio algo sobre os antepassados dele, sobre as terras, como elas foram sendo ocupadas e depois vendidas, notei os olhares de coerção por parte do coronel. Pedro, imediatamente, respondeu-me que não sabia nadinha. Ao chegar em casa e ouvir toda a entrevista, em determinado momento, Pedro me falava sobre os índios que moravam na Pituba (nome de um trecho que se confunde com o Catu ao Norte). E por meio de uma fala muito baixa, quase num sussurro, afirmou, não digo que sou índio. Por que se não (...). Através da colocação de Pedro Inácio e do contexto em que a entrevista se passou, se pode ter alguma dimensão das imposições para que a identidade étnica fosse relegada ao “sussurro”. Nessa ocasião, ainda não entendia os significados da companhia constante de Vando. Apenas quando retomei a pesquisa em 2005, pude refletir sobre tal situação como uma estratégia para “controlar as impressões” durante os contatos com a pesquisadora (BERREMAN, 1980).

A segunda situação ocorreu enquanto manuseava um questionário em uma residência de uso misto e muito freqüentada no Catu. Além de lugar de moradia, ali também funcionava

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O coronel mantém em sua casa uma área extensa com criatórios de galos destinados a briga. São as famosas “As rinhas do coronel”, quando acontecem chegam a mobilizar pessoas de diversos municípios do estado e chegam a acontecer durante três dias no mínimo. Tive oportunidade de presenciar uma dessas em 2004, porém por motivos pessoais só permaneci por alguns minutos no local.

um bar. Possuía uma mesa de bilhar e mais recentemente, estava oferecendo serviços de manicure147. Nesse dia, havia três mulheres conversando e usando os tais serviços. Por serem vizinhas, resolvi realizar ali mesmo a conversa com cada uma delas. Tomei notas nos respectivos questionários. Quando falávamos em parentesco, passaram a se olhar freqüentemente. No momento em que fiz a pergunta sobre o nome completo, uma delas respondeu-me e, em seguida completou: sou uma Eleotério autêntica e num tom mais baixo sustentou: neta de um legítimo ladrão de cavalo. Então, todas esboçaram sorrisos. Diante de tais situações vivenciadas em “campo” vi-me num contexto de pesquisa bastante delicado. Ao contrário dos Tapeba estudados por Barretto Fº (1992), que falavam abertamente ao pesquisador a respeito das depreciações de caráter que lhes foram impostas pelos regionais, os Eleotérios eram bastante cuidadosos quanto à forma que almejavam ser conhecidos. Teciam relatos recortados, comentários em baixo tom de voz, posições que faziam parte de sua estratégia de reelaboração do passado, em torno de uma “memória seletiva” intensamente relacionada com a forma que escolheram para se fazer conhecer.

Ao mostrar o caráter heterogêneo da memória dos Eleotérios tive a intenção de reunir elementos que possibilitassem discutir em nível teórico, as diferentes possibilidades de elaborações do passado. Não foi meu objetivo desestabilizar as intenções que regem tais inciativas dos Eleotérios. Principalmente, essa problemática só foi posível de ser construída, dada as intenções e esforços de certas famílias (Arcanjo, Serafim) para elaborar posições política consensuais a envolver problemas relacionados com a identidade e com a memória social de maneira idiossincrática. No capítulo seguinte, dar-se-á prosseguimento à análise da construção da etnicidade, mas darei atenção à participação dos Eleotérios em diversos eventos públicos com a sociedade mais ampla, além das interações com outros indígenas, delimitando, dessa forma, o contexto que favoreceu a sua visibilidade para o movimento indígena, tanto quanto seus posicionamentos frente a estes contextos de mobilização política.

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No primeiro semestre de 2006, a prefeitura de Canguaretama havia levado cursos de manicure para o Catu. Muitas mulheres ao término do curso tentaram trabalhar também com tal atividade.