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Considerou-se no tópico anterior a condição inicial de que, para que um objeto social possa ser representado, há a necessidade de que o mesmo esteja ausente para os sujeitos. É nesse sentido que o objeto estudado na presente pesquisa (ser professor), encontra-se duplamente ausente aos sujeitos (licenciandos). Primeiramente, considera-se a ausência do objeto pelo fato de que, os sujeitos estão participando de um processo de formação de professores e, ao final desse processo é esperado que o objeto seja apreendido pelo sujeito, ou seja, que se transforme como parte integrante do seu próprio “ser”. Como os licenciandos estão em busca daquilo que ainda “não são”, o objeto necessariamente se encontra fora do seu “ser”, ou seja, ausente ao sujeito. O segundo motivo da ausência do objeto, ocorre pelo fato de que, na sua forma concreta, o “ser professor”, está permanentemente ausente aos sujeitos, pois os mesmos somente podem apreendê-lo na sua forma conceitual.

A simples inexistência concreta de algo, contudo, não é suficiente para que ocorra a formação de RS. Aquilo que está ausente deve, sobretudo, fazer algum sentido para o grupo, ou seja, o objeto social precisa necessariamente interessar aos sujeitos, para que, dessa maneira, possam integrá-lo figurativamente (simbolicamente) ao seu universo conceitual, transformando-o numa imagem mental. De acordo com Chamon e Chamon (2007), é necessário que o objeto represente um conflito para o grupo ou que lhe sirva como fonte de identificação, como forma de se constituir como um objeto de representação social.

A partir do estabelecimento desses critérios, o objeto social passará a fazer parte do mundo conceitual do grupo, ou seja, do imaginário dos sujeitos integrantes desse grupo, sendo que a presença concreta desse objeto, não será mais necessária para justificar a sua existência.

Sobre esse aspecto, Moscovici (2010, p. 58) ratifica que “depois de uma série de ajustamentos, o que estava longe, parece ao alcance de nossa mão; o que parecia abstrato, torna-se concreto e quase normal”.

Cumpridos os critérios operacionais que permitem classificar o objeto como um objeto de representação, a emergência das RS concretizar-se-á com o estabelecimento outras três condições. Tais condições estão relacionadas às informações disponíveis sobre o objeto, ao tratamento cognitivo efetuado pelos sujeitos, a partir da apropriação dessas informações e, finalmente, a uma tomada de decisão, isto é, o posicionamento dos sujeitos sobre o objeto. A cada uma dessas três condições, Moscovici (2012) nomeou respectivamente de: dispersão da informação, pressão à inferência e focalização.

A dispersão da informação está relacionada à complexidade do mundo, repleto de fenômenos e objetos que se fazem presentes na sua forma física ou simbólica, com os quais e por meio deles os sujeitos interagem. É nesse sentido que Moscovici (2012, p.55) sustenta que falta “[...] necessariamente informações, palavras, noções para a compreensão ou descrição dos fenômenos que surgem em certos setores de nosso ambiente”. Contribuindo com essa visão, Chamon e Chamon (2007, p.125) declaram que “[...] deve existir uma distância entre a informação utilizável pelos atores sociais e a informação que lhes seria necessária para atingir um ponto de vista objetivo”.

O objeto “ser professor” se encontra inserido num complexo contexto histórico, social, político e econômico, fazendo com que as informações disponíveis aos licenciandos, sobre esse objeto, encontrem-se dispersas. Assim, Alves-Mazzotti (2008, p.26) assegura que a dispersão da informação é o que “[...] faz com que os dados de que o sujeito dispõe sobre um novo objeto social sejam, ao mesmo tempo, excessivos e insuficientes, contribuindo para a incerteza quanto ao âmbito das questões envolvidas”.

Quando esse novo objeto social (“ser professor”) encontra o universo conceitual do grupo de licenciandos, apresenta-se inicialmente como algo estranho, devido ao excesso de informações que carrega consigo, oriundas dos contextos anteriormente citados. Embora se afigure inicialmente estranho, o objeto “ser professor” possui uma forte relação com o grupo de licenciandos, primeiramente por se tratar de uma questão condicional e até mesmo existencial, uma vez que é a existência do objeto que assegura a existência do grupo.

O segundo aspecto relacional do objeto com o grupo, trata da formação da identidade social dos sujeitos, enquanto pertencentes aos “licenciandos”, ou seja, de futuros professores. Assim, o processo de formação pelo qual os sujeitos participam, visa, sobretudo, a sua preparação para que agreguem o objeto ao seu sistema identitário. Dessa maneira, o grupo

necessita inicialmente integrar esse objeto ao universo conceitual que foi construído anteriormente à presença desse objeto. Para tanto, será necessária uma atenuação dos excessos de significações que acompanham esse objeto.

De acordo com Moscovici (2012), é por meio da Focalização que o grupo processa a redução necessária dos significados apresentado pelo novo objeto, permitindo a integração do mesmo ao seu universo conceitual. Ao focalizar determinadas dimensões específicas do objeto, o grupo põe em evidência as características que mais se aproximam daqueles significados anteriormente construídos, que já se encontram presentes no seu universo conceitual. Em contrapartida, os significados estranhos ao grupo, ou seja, aqueles que podem configurar uma ameaça à sua unidade simbólica e conceitual, são desconsiderados e esquecidos. Nesse sentido, Chamon e Chamon (2007, p. 125) afirmam que a focalização “representa a posição específica do grupo social em relação ao objeto. Isso determina um interesse particular por certos aspectos do objeto e um desinteresse por outros”.

A pressão à inferência está relacionada à tomada de consciência dos sujeitos, sobre a necessidade em se posicionar sobre o objeto, pois o mesmo possui uma importância para o grupo, sendo ainda urgente o desenvolvimento de conhecimentos a seu respeito (DESCHAMPS e MOLINER, 2009). Consequentemente, o “ser professor”, como demonstrado anteriormente, apresenta-se como um importante objeto social para o grupo dos licenciandos. Assim, diante de qualquer situação que reivindique um posicionamento, os sujeitos se sentirão pressionados a demonstrar conhecimento acerca do objeto, que devem expressar suas opiniões, fazendo inferências sobre esse objeto. Nessa perspectiva, Chamon e Chamon (2007, p. 125) afirmam que “[...] o objeto deve levar os atores sociais a reagir e a tomar posição [...] precisam desenvolver condutas e discursos coerentes sobre um objeto insuficientemente conhecido”.

Nesse subitem se procedeu ao aprofundamento teórico acerca das condições necessárias à emergência das RS. Constatou-se que o surgimento das RS está condicionado, inicialmente, à ausência concreta de um objeto socialmente valorizado por um determinado grupo. Os sujeitos que compõem esse grupo não possuem todas as informações necessárias para proceder à apreensão objetiva do objeto. Diante dessa falta de informações, os sujeitos se veem obrigados em focalizar apenas os aspectos do objeto que lhes pareçam mais familiares, uma vez que sentem a necessidade de se posicionar sobre o mesmo. O próximo tópico tratará das três dimensões fundamentais, as quais se estruturam para formar os universos e os conteúdos organizadores das RS.