• No results found

I VERKSETTING AV OPPDRAGET I PERSONALET

6. PRESENTASJON AV FUNN

6.2. I VERKSETTING AV OPPDRAGET I PERSONALET

O segundo dia da Odisseia começa com os preparativos de Telêmaco para a assembleia de Ítaca. Enquanto se dirige a seu posto, uma beleza sobre-humana lhe é concedida por Atena (χάριν κατέχευεν Ἀθήνη, II, 12) e seu assento é aquele que antes era o de seu pai (II, 14). A atuação direta da divindade, exatamente como agirá em

favor de Odisseu diversas vezes254, além de manifestação de sua proteção, é

reconhecimento pela coragem de dar o primeiro passo para a realização de seu plano. A assembleia dos homens de Ítaca, que nada apresenta da regularidade e do clima de concordância da assembleia dos deuses, se inicia com a fala de Egípcio, que revela que assembleias não ocorrem desde a partida de Odisseu, um vácuo político de vinte anos (I, 26-7). Partindo da análise de Halverson (1985, p.131-7), é possível considerar a assembleia como uma reunião de aristocratas da mesma classe social de Telêmaco e dos pretendentes, membros de uma elite de guerreiros proprietários de terras que se distinguem socialmente dos prestadores de serviço e dos mendigos. O helenista ainda acrescenta que, apesar de existir a cidade, não há aparato estatal. Abrindo a sessão, Egípcio tem uma primeira hipótese sobre sua convocação: notícias de uma nova guerra (II, 30) — a guerra talvez seja a questão mais importante que mobiliza e orienta os laços políticos que unem os gregos —, mas à assembleia pode também ser trazido algum outro assunto público (τι δήμιον ἄλλο, II, 32). O próprio Egípcio, como bem observa Steinrück (2008, p.22), através de seus quatro filhos mencionados pelo narrador na apresentação do pai (II, 15-25), define a situação social e política de Ítaca. Dois desses filhos trabalham terras herdadas do pai (e Steinrück supõe que sejam casados), um deles foi com Odisseu para Troia e acabou devorado pelo ciclope na aventura do retorno, o restante é um dos pretendentes, Eurínomo. Esses detalhes compõem Ítaca como o cenário do duelo entre Telêmaco e pretendentes, uma sociedade em que ainda pesa a influência de Odisseu como chefe e sua ausência com efeitos caóticos.

É em resposta a Egípcio que Telêmaco, portando o cetro como símbolo do direito de fala (II, 38), toma a palavra para se apresentar como responsável pela convocação (II, 42) e revelar a pauta da assembleia. Ele nega as hipóteses levantadas, que supunham algum assunto público, para contrapô-las a um assunto particular, uma necessidade própria pelo mal que caiu sobre sua casa (e οἶκος usada em II, 45 é a mesma palavra para a propriedade). É algo surpreendente essa contraposição entre o público e o privado, uma vez que, apesar de ser assunto que envolve sua propriedade particular, inclui um número considerável de integrantes da comunidade. Petropoulos (2011, p.72-3) também nota que Telêmaco discute sem entrar no campo da política, sempre tratando a questão como particular, e imagina que pode ser estratégia para provocar a compaixão ou traço de sua inexperiência com a retórica política. De todo

254 Como em VI, 229-35; VIII, 19; XXIII, 156-62, sempre para impressionar seus interlocutores com sua

modo, a disputa política é apenas uma questão de poder entre aristocratas, não de diferentes projetos para a gestão de recursos públicos ou algo assim. Mesmo antes de expor sua situação diretamente aos demais aristocratas, Telêmaco faz questão de ressaltar que o que o move a reuni-los ali é a dor, enfatizada pela repetição sonora, que o atinge (μάλιστα δέ μ' ἄλγος ἱκάνει, II, 42).

Sua dor é causada por um duplo mal. O primeiro elemento desse duplo mal é a perda do pai (II, 46), como sempre tratado por Telêmaco como morto nas ocasiões sociais. Se Petropoulos (2011, p.68-9) observa as repetidas referências que Telêmaco faz a seu pai no canto II255, aqui a referência é enfatizada pelas correspondências

sonoras que dão expressividade ao aparente destino da morte que obteve o pai (πατέρ' ἐσθλὸν ἀπώλεσα,II, 46) e seu passado de líder generoso (ὅς ποτ' ἐν ὑμῖν [...] βασίλευε, πατὴρ δ' ὣς ἤπιος ἦεν, II, 46-7). O segundo elemento é o assédio dos pretendentes. Comparado ao primeiro, dado como um mal passado, o segundo é bem maior, por comprometer o futuro de suas condições de vida (II, 48-9). Sempre materialista, Telêmaco amplifica sonoramente a dimensão da destruição dos pretendentes (πολὺ [...] ἅπαντα πάγχυ [..]δ' ἀπὸ πάμπαν) e, na sequência, a impropriedade do cortejo deles à sua mãe (essa relação mais uma vez enfatizada pela aliteração: μητέρι μοι μνηστῆρες, II, 50), uma vez que eles se recusam a consultar o pai dela e a submeterem-se à vontade dele, pressionando-a contra sua vontade (II, 50-4). A desconfiança em relação à mãe, incentivada por Atena, é aqui deixada de lado no discurso público, para defender com mais propriedade sua posição diante do povo de Ítaca. Depois de relatar a seus ouvintes as práticas dos pretendentes (I, 55-8), apresentadas aos leitores e ouvintes do poema ao longo do canto I, e proferir um elogio público de seu pai em dois momentos, relembrando sua excelência (II, 59 e 71-3), Telêmaco, ajudado pelo relato da destruição material e de sua angústia de homem isolado diante de um pequeno exército (II, 62-4), tenta comover seus conterrâneos.

Se Dimock (1989, p.25) vê a Odisseia como um poema sobre “o certo e o errado” e identifica o canto II como o momento em que essa questão é colocada em primeiro plano, é nessa fala de Telêmaco que esse “certo e errado” (ou “justiça e injustiça”) são levados à discussão pública com seu vocabulário apropriado,

255 Sua leitura é de que essa insistência marca o início de sua trajetória para obter κλέος; mais do que

isso, talvez a ausência de Odisseu, sempre realçada por sua presença nos discursos, amplifique sua importância como personagem que dá nome ao poema e cujo desaparecimento rompe a ordem de sua terra natal.

significativamente utilizados em suas formas verbais, exortando e questionando a ação (II, 64-74): [...] νεμεσσήθητε καὶ αὐτοί, ἄλλους τ' αἰδέσθητε περικτίονας ἀνθρώπους, οἳ περιναιετάουσι· θεῶν δ' ὑποδείσατε μῆνιν, μή τι μεταστρέψωσιν ἀγασσάμενοι κακὰ ἔργα. λίσσομαι ἠμὲν Ζηνὸς Ὀλυμπίου ἠδὲ Θέμιστος, ἥ τ' ἀνδρῶν ἀγορὰς ἠμὲν λύει ἠδὲ καθίζει· σχέσθε, φίλοι, καί μ' οἶον ἐάσατε πένθεϊ λυγρῷ τείρεσθ', εἰ μή πού τι πατὴρ ἐμὸς ἐσθλὸς Ὀδυσσεὺς δυσμενέων κάκ' ἔρεξεν ἐϋκνήμιδας Ἀχαιούς, τῶν μ' ἀποτεινύμενοι κακὰ ῥέζετε δυσμενέοντες, τούτους ὀτρύνοντες. [...]

Tende vergonha e respeitai aqueles que vivem perto, os vizinhos! Receai também a cólera divina,

para que não vos castiguem os deuses com tais males desgostosos. Rogo-vos por Zeus Olímpico e por Têmis,

que dispersa e convoca a assembleia dos homens,

que vos refreeis, amigos, e que me deixeis o meu luto amargo, a não ser que o meu pai, o nobre Odisseu,

tenha com hostilidade prejudicado os aqueus de belas joelheiras, e que em retaliação me prejudicais agora vós com hostilidade, incitando os pretendentes. [...]

Na esfera humana, o costume é ditado por uma reciprocidade regida pela νέμεσις, a indignação justa, e pela αἰδώς, o respeito, a sensibilidade ou vergonha em relação à opinião pública, para Dodds, (2002, p. 26), “a mais potente força moral que o homem homérico conhece”. O vocabulário da vingança também é utilizado, como se um prejuízo como o infligido pelos pretendentes só pudesse ser justificado como retribuição (τίσις) a uma impropriedade anterior. É exatamente a esse tipo de retribuição que os pretendentes, provocando ações que podem despertar a indignação de Telêmaco e mesmo dos demais habitantes de Ítaca, se arriscam continuando o banquete ofensivo. Como no comunicado em sua própria casa, também na assembleia Telêmaco invoca os deuses, primeiramente de forma geral, como vingadores das ofensas e crimes humanos que provocam a sua cólera (μῆνις). Em seguida, invoca especificamente Zeus, como mediador e soberano dos deuses, e Têmis, a “ordem justa” divinizada256 e

256 Ou personificadas, conforme o funcionamento da religiosidade grega observado por Burkert (1985, p.

185), que acredita que esse processo parte da poesia, passa para as artes visuais e então passa a fazer parte do culto: “as personificações fazem uma mediação entre deuses individuais e esferas da realidade. Estas

aqui entidade que possibilita a vida em sociedade. Burkert (1985, p.185) menciona a existência de um templo dedicado a Têmis ao lado de um dedicado a Nêmesis, a deificação da indignação justa, em Ramnute, cidade da região da Ática, de modo que todos esses conceitos parecem estabelecer, em conexão, a base das noções de justiça em seus aspectos sociais e religiosos.

Telêmaco termina chorando e jogando o cetro no chão (II, 80-1). Esse momento de explosão emocional, de extravasamento de fúria e de frustração, parece um momento de perda do controle após uma performance pública bem sucedida, na verdade, potencializa seu efeito sobre os demais presentes, tomados pela compaixão. O silêncio que segue ao pronunciamento e que ressoa a reflexão sobre sua situação é pouco duradouro e, como observa Clarke (1989, p.33), a comoção da assembleia não será o bastante para ter qualquer eficácia quanto à questão dos pretendentes. Isso porque, apesar do primeiro impacto, Telêmaco não sairá sem resposta.

Mais uma vez, é Antínoo quem toma a iniciativa de defender a posição dos pretendentes e o faz exatamente repreendendo aquela explosão emocional (“Telêmaco descarado, irreprimível em sua fúria”, Τηλέμαχ' ὑψαγόρη, μένος ἄσχετε, I, 85). Na sequência, Antínoo exime os pretendentes da responsabilidade pelas agressões culpando Penélope e colocando os pretendentes (e a si mesmo) na posição de sofredores ofendidos (II, 86-90). A parte que forma a maior parte do discurso de Antínoo traz para os leitores ou ouvintes da Odisseia a história da trama de Penélope (II, 91-110) para atrasar seu casamento, utilizando estrategicamente uma das atividades domésticas tradicionalmente associadas ao trabalho feminino. Com a promessa de se casar assim que terminar a mortalha de Laertes, seu sogro, o procedimento de tecer durante o dia e desfazer durante a noite passa despercebido aos pretendentes por quase quatro anos. Mesmo antes disso, Penélope, segundo Antínoo, iludia os pretendentes com recados e promessas falsas (II, 91-2). Seu recurso, que por tanto tempo controla esses homens, é provocar um estado permanente de espera, que possibilita a passagem do tempo sem a progressão narrativa.257 O controle sobre seu trabalho torna-se, temporariamente, um

recebem elementos míticos e pessoais dos deuses e, em troca, concedem aos deuses parte da ordem conceitual das coisas.”

257 Malta (2012, p. 13) identifica bem que, na versão de Anfimedonte, um dos pretendentes mortos, já nos

domínios de Hades (XXIV, 128-149), traz a nova informação de que a chegada de Odisseu ocorreu logo depois de Penélope ter concluído a mortalha (XXIV, 147-149), “dando assim mais precisão cronológica ao que aparentava ser um fato vago do passado e reforçando a premência de uma solução esperta, que contenha a ansiedade e violência dos pretendentes”. A trama da mortalha, ele conclui, revela que adiamento e indecisão, “longe de indicarem falta de recursos, estão associados a um plano”.

controle sobre o tempo da narrativa e sobre seu destino, até que o ciclo de repetições é identificado e impossibilitado. Com isso em mente, a proposta de Antínoo é direta (II, 111-4) e exige que Telêmaco, desconsiderando o desejo de sua mãe, a envie de volta para a casa de Icário para se casar com quem o pai ordenar e com quem a agradar. O desejo pessoal de Penélope só entra como possibilidade levada em consideração nesse segundo momento, quando já devolvida ao pai. Até que isso aconteça, sua posição é firmada após a ameaça e a comparação de Penélope com mulheres mitológicas (II, 115- 26): continuarão consumindo os bens da casa de Odisseu até que ela se case (II, 127-8). A emoção da denúncia de Telêmaco é, portanto, rebatida com a intransigência e com a tentativa de, perante os habitantes de Ítaca, reabilitar moralmente a conduta dos pretendentes como resposta à promessa não cumprida por Penélope.

A resposta de Telêmaco começa recusando a proposição de Antínoo por sua impropriedade, tanto no que diz respeito a relações sociais quanto no que diz respeito à religiosidade, inclusive independentemente da situação de seu pai (II, 130-7). Depois disso, sempre com o vocabulário da νέμεσις, pede que os pretendentes parem com o banquete e comam de seus próprios recursos. A última parte, II, 139-45, forma um bloco de versos quase identicamente repetidos de I, 374-80, com a única adaptação ao novo discurso sendo a primeira palavra do conjunto (em vez do infinitivo ἐξιέναι, “sair”, o imperativo da segundo pessoal do plural, ἔξιτε, “saí”). Trata-se, portanto, de um bloco temático ou uma cena típica (nomenclatura que aqui parece forçada, por não ser uma cena exibida pelo narrador, mas uma fala) de invocação de vingança futura nos moldes da composição formular homérica. Ainda que os versos sejam os mesmos, os interlocutores não são totalmente idênticos, já que aos pretendentes se acrescentam os demais membros da aristocracia de Ítaca. Não é mais uma fala no espaço particular (ainda que violado) de sua casa, mas numa sessão pública. Aos pretendentes, diante da nobreza local, ficam postas as duas possibilidades bem delimitadas: suspenderem a pressão a Penélope e retornarem ao funcionamento adequado de suas vidas sociais ou continuarem a destruição dos bens de Telêmaco e aceitarem a transgressão diante da prece renovada de Telêmaco a Zeus por uma vingança definitiva. Nesse ponto os discursos são interrompidos por um evento sobrenatural. Na narrativa, ampliando o leque de mediações entre deuses e humanos, esse evento enfatizará a escolha que os pretendentes têm de tomar e, consequentemente, o caráter do grupo.