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2. SENTRALE TEORETISKE PERSPEKTIVER

2.4. I NTUISJON

Muitos dos estudos para acessar os processos e impactos potenciais das mudanças

climáticas e as políticas para responder a elas fazem uso de modelos numéricos. Estes

modelos representam entidades complexas, tais como a atmosfera, a população mundial ou

o consumo de energia total, com dados relativamente simples e sumarizam interações

complexas, tais como as trocas de calor entre a atmosfera e o oceano ou o efeito de

mudança da temperatura média global sobre a agricultura regional, com relações numéricas

simplificadas através da introdução de parâmetros. Em virtude da ausência de informações

completas e precisas sobre vários fatores e do fato de muitas interações estarem ainda muito

pouco entendidas, os processos e impactos das mudanças climáticas têm sido modelados

com certeza muito limitada.

Em alguns casos as incertezas resultam da ausência de informações ou de

conhecimento, que em princípio poderiam ser superadas com pesquisa adicional. Em outros

casos, entretanto, elas vêm da variabilidade natural inerente aos processos climáticos, o que

torna a previsibilidade destes processos extremamente grosseira, como ocorre com as

flutuações das condições de tempo atmosférico. Em outros casos ainda, como no caso das

inovações tecnológicas, as incertezas vêm de processos que são essencialmente

imprevisíveis.

Os níveis de incerteza nos estudos de mudanças climáticas podem variar desde

incertezas estatísticas, quando os pesquisadores podem atribuir probabilidades a diferentes

possibilidades, passando por incertezas de cenários, quando os pesquisadores podem

caracterizar uma variedade de resultados plausíveis, mas não podem entender os processos

pesquisadores não têm suficiente conhecimento nem mesmo para desenvolverem cenários

plausíveis.

Diante deste panorama a motivação original que levou à assinatura da Convenção

do Clima e à instauração de um Regime Internacional de Mudanças Climáticas, isto é, a

possibilidade de interferência antropogênica perigosa no clima, torna-se difusa e a

percepção que cada nação tem a respeito do potencial de danos climáticos severos acaba

prevalecendo na tomada de decisões sobre as formas de responder ao problema. Como as

respostas devem ser negociadas entre os países, as suas posições nas negociações

expressam muito mais as suas percepções sobre as principais ameaças das mudanças

climáticas do que propriamente o conhecimento científico sobre elas.

O que aconteceria se as incertezas diminuíssem? Parece que se ficasse cada vez

mais claro que as mudanças climáticas não trarão sérias ameaças ao mundo, certamente

teríamos um afrouxamento das medidas de proteção climática. Por outro lado, parece

também que se os cientistas começassem a demonstrar, com incertezas cada vez menores, a

necessidade urgente de ação intensa de mitigação de emissões, para evitar danos severos

específicos, haveria uma mudança de direção sobre a tônica das negociações. Mas se as

incertezas não diminuírem rapidamente, em qualquer uma dessas situações, o que podemos

esperar desse processo político? Podemos assumir que a interação entre as informações

científicas e a tomada de decisão coletiva sobre mudanças climática tem uma lógica

simples como suposto acima?

O objetivo deste trabalho é dar alguns passos na direção de compreendermos melhor

como funciona a interação entre as informações cientificas, com incertezas, e a tomada de

decisão dos políticos para responder à mudanças climáticas globais. De forma mais

mudanças climáticas, qual a influência da evolução dessas incertezas sobre os resultados

das negociações internacionais sobre cotas de reduções de emissões de GEE? E em

particular, se essas incertezas estão relacionadas com a existência de impactos “perigosos” ,

como deveriam elas diminuir para que o sistema de decisão coletiva baseado em

negociações sobre abatimento de emissões, evitasse tais impactos?

Essas perguntas envolvem de uma parte considerarmos as incertezas no

conhecimento das mudanças climáticas e sua dinâmica de evolução, e de outra parte a

lógica da interação política para coordenar respostas àquelas mudanças. Além disso, como

o objeto da investigação é um processo, as próprias mudanças climáticas tem um papel

relevante a desempenhar, pois o sistema do clima tem uma dinâmica própria que pode

surpreender tanto a cientistas quanto a políticos. Essa questão envolve então a consideração

de um sistema de relações de diferentes tipos, entre elementos e processos naturais e

elementos e processos humanos, que devem ser explicitadas para que possamos buscar a

compreensão desejada e respondermos a nossa pergunta central.

Uma das estratégias que têm sido usadas para tratar o problema das incertezas nos

estudos sobre as mudanças climáticas tem sido uma classe de aplicações denominadas

Modelos de Análise Integrada, MAI, que procuram colocar juntos os muitos aspectos do

problema, o físico, o econômico e o social, em um único quadro conceitual. Este tipo de

modelagem tem se revelado uma ferramenta heurística poderosa para ajudar a organizar

nosso conhecimento sobre o tema, revelar lacunas em nosso conhecimento e tornar

transparentes as conexões entre as incertezas de várias áreas do conhecimento sobre as

mudanças climáticas. Esse esforço tem apontado prioridades de pesquisa a fim de diminuir

mudanças climáticas visando fornecer informações de melhor qualidade aos tomadores de

decisões (DOWTALABATI, 1995).

Os analistas que trabalham com este tipo de modelo enfrentam dois principais

desafios, como apontado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)

(HOUGHTON ET TAL, 1995).

• Integrar e manipular um grande e diverso conjunto de dados e modelos a partir de muitos pesquisadores e um espectro amplo de disciplinas; e

• Aprimorar nesses modelos o tratamento de questões de relevância para políticas, tanto quanto aprimorar a apresentação dos resultados para os políticos.

Quanto a este último objetivo, o IPCC observa ainda que “... tratamentos de tomada

de decisão sob incerteza... estão no presente pobremente desenvolvidos em economia

ambiental internacional, e especialmente na literatura de mudanças climáticas”

(HOUGHTON ET TAL, 1995, p.7; VALVERDE; JACOBY; KAUFMAN 1998).

Os MAI têm demonstrado seu potencial para nos ajudar a tratar de questões

complexas em mudanças climáticas e pode ser uma ferramenta útil para abordarmos o

problema de nosso interesse. Mas o tema de nossa pesquisa foge completamente de grande

parte do que tem sido feito até hoje em modelagem integrada, pois o objeto de nossa

investigação envolve o próprio conhecimento científico, como aquele codificado em um

MAI, e a relação entre este conhecimento e as decisões políticas para tratar as mudanças

climáticas. Isto é, não estamos buscando uma ferramenta de tomada de decisão, ou um

modelo que nos ajude a aprimorar nosso conhecimento sobre o clima ou sobre a sua

interação com a economia. O que buscamos é uma abordagem integrada sobre como as

pessoas usam estes modelos e como elas tomam decisões tendo em vista que estes modelos

responder a nossa pergunta se fosse um modelo de segundo nível, isto é, um modelo sobre

modelos e sobre o uso desses modelos em um contexto político internacional de mudanças

climáticas. Por isso, não poderemos simplesmente tomar um MAI existente e usá-lo para

abordar nossa pergunta. Os MAI que existem foram construídos para finalidades

específicas e em geral com o objetivo de darem suporte à tomada de decisões. Nossa tarefa

é então construir um novo MAI que tenha as características gerais acima descritas. De

qualquer maneira este modelo ainda participará de muitas das características gerais de um

MAI, o que nos ajudará muito na sua construção, tomando alguns MAI como ponto de

partida para alcançar nosso objetivo. (Ver Apêndice D para mais detalhes sobre os MAI em

mudanças climáticas).