• No results found

Hypotese 2: U.S. Armys prestasjonsmodell

5 Drøfting

5.5 Hypotese 2: U.S. Armys prestasjonsmodell

Esta etnografia teve o seu início no cerne das atividades das associações de proteção animal que eu acompanhei – a princípio, a AAPA (Araraquara) e a Arca de São Francisco (São Carlos), e depois também o grupo DEDIA (Araraquara). E foram esses grupos que me conduziram aos contextos institucionais que aqui também figuraram. Em todo momento eu estive entre protetores, defensores, agentes municipais, autoridades públicas ou pessoas que simplesmente diziam “gostar de bicho”. Entretanto – ou até por isso mesmo – eu também estive constantemente entre bichos. Até mesmo nos espaços institucionalizados – onde, em muitos deles, costuma-se ter o aviso “é proibida a entrada de animais” – eu era sempre levado por esses mesmos atores para ouvir, investigar, saber ou mesmo aprender algo sobre “gostar de bicho”, “pensar nos bichos” e, não seria exagero dizer, sobre os próprios bichos. “Estamos aqui pelos bichos”, esse era um mote sempre repetido no início de qualquer conversa, audiência, negociação ou reivindicação. E quando falo aqui numa simbiose domesticada, refiro-me, portanto, a um vínculo constante com animais no socius urbano e no ambiente da proteção animal.

Iniciei o primeiro capítulo, “Uma simbiose domesticada”, comentando sobre um diálogo que tive com Ana, da AAPA, em um de meus primeiros dias de trabalho de campo com elas, no início de 2009. Ana não chegou a responder a uma pergunta que lhe fiz, sobre as razões de seu envolvimento com a causa, apesar de todo o desgaste emocional e físico e do sofrimento dos bichos e com os bichos. Na ocasião da resposta não vinda, fiquei imaginando o que pudesse ter acontecido naquele breve intervalo logo após a minha pergunta: ela podia não ter compreendido a minha questão (o que seria de se duvidar, sendo Ana uma pessoa culta), podia não ter escutado claramente o que perguntei ou então ter-se distraído por algo no trânsito que a fizera esquecer-se de retomar o diálogo e me responder. Já no final de 2011, eu reavivei uma ocasião muito parecida, com Ana novamente. Eu já não fazia mais o trabalho de campo com a AAPA, estando concentrado nas atividades da Arca de São Francisco, em São Carlos, mas estava de breve passagem por Araraquara. Liguei então para Ana e combinei que iria com ela ao Parque Pinheirinho, depois de um bom tempo sem aparecer por lá.

No dia seguinte, já a caminho do parque, novamente Ana se queixava da sobrecarga de afazeres com os bichos, os gastos com medicamentos dos animais enfermos e eu percebi a chance de novamente lhe fazer a mesma pergunta: “por que passar por tudo isso?”. Num tom

ameno, Ana me respondeu: “Você já me fez essa pergunta”. Entendi, assim, que aquele assunto estava encerrado. Mas não havia nada de dramático naquilo. Não houve uma longa e silenciosa pausa em seguida. Ana ouvia Mozart no carro, e foi aí que me contara que havia estudado piano na juventude. Foi aluna da professora Iracema Nogueira, que hoje dá nome a uma escola municipal de dança de Araraquara, em que cheguei a ministrar aulas (de filosofia, e para crianças). Aproveitando o ensejo da trilha sonora no carro, Ana também me contou a história de Mozart com seu fiel cão, que o acompanhou literalmente até o fim de sua vida. Até que chegamos, enfim, ao Parque Pinheirinho, para mais um dia de mutirão de castração.

Em vários momentos durante o campo – principalmente com a AAPA – eu tive de lidar com as reticências de minhas interlocutoras. Em determinado momento, concluí que, para algumas perguntas, eu não teria mesmo respostas. E, tal como as reticências delas, percebi também, durante todo o trabalho teórico, um campo de estudo ainda incipiente na antropologia. Mesmo sabendo da contribuição da etnologia brasileira contemporânea ao falar das relações interespecíficas em populações indígenas (principalmente da Amazônia), era também através dela que eu encontrava indícios de que o assunto ainda teria muito a render:

Tal ausência dos animais domesticados de origem europeia nas reflexões de cientistas sociais contrasta fortemente com a ubiquidade desses seres nas aldeias, no passado e atualmente e, provavelmente, expressa uma faceta daquilo que a antropóloga Joanna Overing definiu como “um desinteresse antropológico pela domesticidade e pelo cotidiano” (VANDER VELDEN, 2011: on line).

Recordo-me que, no início da pesquisa, preocupei-me muito em assegurar o quanto antes a minha inserção nos contextos em que ela se daria. Desse modo, um arcabouço teórico suficiente só fora reunido depois de resolvido o impasse etnográfico – quando eu já vivenciava as experiências de ser “fagocitado” pelo campo. Com isso, percebi a escassez de publicações mais acessíveis que fossem voltadas à temática. É fato que se trata de um tema que, embora já apresente contribuições pontuais importantes (algumas apresentadas no decorrer deste texto), ainda carece da consolidação de um espaço de debate firmado no campo da antropologia brasileira. Ainda assim, encontrei referências importantes, recebi válidas indicações de meus orientadores e conheci pessoas dispostas ao diálogo ou relativamente interessadas pelo tema. Em alguns momentos, questionei-me por ter empreendido a tarefa de querer falar algo do zoos numa disciplina dedicada ao anthropos – que suponho não ter perdido de vista. Acabo de falar de Ana. Assim como falei da história de Laíde, que procura dar voz aos bichos na Câmara Municipal; de Adriana, a eterna presidente da AAPA; de Carla, que ainda não conseguiu se tornar vegana por causa do chocolate; de Luis, por muito tempo o

único protetor entre as protetoras dos animais em Araraquara. Não me furtei, entretanto, a falar também de Gabriel, de Júnior, de Leonardo, de Maria, de Miguel e do cão que parou à minha frente e me olhou fixamente quando eu seguia rumo à Câmara Municipal de Araraquara. E de outros bichos que nem sempre tinham um nome humano – às vezes, sequer tinham um nome –, mas que tinham seus olhares, seus lamentos, suas histórias e que também fizeram parte deste trabalho.

Procurei também demonstrar que esse convívio pontuado pelo que eu chamei de uma simbiose domesticada entre gentes e bichos não está isento de conflitos, sejam eles advindos das divergências no intuito de defender e proteger os animais, dos questionamentos ao status quo da gestão pública da vida animal ou mesmo do próprio sofrimento causado pelos casos de violência, que são parte do cotidiano do ativismo animalista. Minha experiência me mostrara, então, que, quando nos voltamos para tais conflitos, devemos também considerar as emoções e tensões envolvidas e, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, o próprio pesquisador pode vir a compartilhar desses mesmos conflitos (algo que pode ou não vir a ser transformado em conteúdo etnográfico ou mesmo em parte de sua metodologia de pesquisa). Mas mesmo diante das chamadas “situações-limite” e dos lapsos de “vida nua” que podem ser vivenciados durante a tarefa etnográfica, para que essa mesma tarefa se constitua verdadeiramente como experiência, não se deve perder de vista o início de tudo: a vida. Entendo, pois, que, na antropologia, o início deve ser sempre a vida – que é, inclusive, o que estará constantemente em jogo no cerne desses mesmos conflitos.

Nesse sentido, uma “ecologia senciente”, de Tim Ingold (2000), uma “antropologia da vida”, de Eduardo Kohn (2007) ou mesmo quando falo aqui em simbiose como possibilidade de “socialidades multiesespecíficas”, de Donna Haraway (2008) são algumas das propostas que acenam para abordagens de temas atinentes às animalidades e às relações interespecíficas, mesmo que ainda estejam por ser efetivamente colocadas à prova enquanto teoria ou método. Penso, portanto, que recusar à possibilidade de uma antropologia das animalidades ou das relações interespecíficas num momento de reconsideração de certas fronteiras metodológicas já consagradas que permeiam o nosso pensamento – e nossa visão do mundo e do “outro” – seria algo como se esquivar do problema antes mesmo de enfrentá-lo. Portanto, o que me faz pensar que as animalidades ainda se encontram em vias de trazer uma contribuição mais consolidada à disciplina antropológica – e a recíproca é também mais do que oportuna e necessária – é que, guardadas as devidas particularidades, o mesmo princípio de reconhecimento do outro que mobiliza a antropologia é também o que parece estar imbuído na atuação desses grupos em prol dos animais e das demais vertentes do movimento

animalista em seu todo, na discussão sobre políticas e direitos e também no ato da sensibilização para com o eventual sofrimento alheio – o dos animais. E não se trata de desvirtuar os propósitos da disciplina, tampouco de “dissolver” paradigmas já estabelecidos (como se nada mais existisse ou tudo pudesse ser negado). Trata-se de falar em sensibilidades, afetos, envolvimentos, vínculos, convívios e de como esses mesmos convívios não escapam a um gerenciamento que, no final das contas, não consegue dissolvê-los – mas, no limite, tenta contorná-los.

Como a antropologia contemporânea tem ultimamente ressaltado, a relação entre cultura e natureza, mais do que um paradigma teórico, é um constante reordenamento das relações entre vidas, e entre essas e o ambiente que habitam e criam, constituindo possíveis simbioses. Mas dentre outras conclusões a que pude chegar, uma delas foi também um importante eixo de orientação: considerando aqui um contexto de relações entre humanos e animais como um convívio mediado por ações propiciadoras de uma domesticidade controlada, que permite também pensar o plano das socialidades humanas, ocorre nesse contexto uma latente co-operação (no seu sentido mais estrito, que tento evidenciar com o hífen) entre as experiências sensíveis humanas e as construções jurídicas e políticas dos mecanismos mediadores de tais relações, que culminam muitas vezes em conflitos, elevando a discussão para o plano das totalidades, seja pela demanda de leis supostamente universais ou mesmo pela conjetura de uma possível sensibilidade humana universal.

Mas, como procurei aqui esclarecer, razões e emoções não são aspectos que se excluem mutuamente no contexto da proteção aos animais. Esse mundo vivido por pessoas que não medem esforços pelos seus bichos – e também pelos que não têm guarda ou lar – mostra até mesmo que o racional e o afetivo são, em muitas ocasiões, indiscerníveis. Para essas pessoas, assim continuará sendo, dentro de um mundo e de um tema que se constituem por razões emocionalmente explicáveis. Como me disse, certa vez, Lourdes, da Arca de São Francisco, segurando nos braços um dos cães que viviam nas dependências da sede da associação: “olhe para esse bicho aqui... preciso explicar por que a gente faz tudo isso por eles?”. Seja como for, esse é um convívio – ainda que, muitas vezes, tumultuado – do qual essas pessoas não abrem mão, inclusive por saber da tarefa que a elas coube cumprir, com todo o peso que possa também lhes trazer. Na lida direta com essas pessoas e seus animais, percebi, em muitos momentos, o exercício da empatia na atuação delas, algo não enunciado, mas que estava impresso em sua atuação: como Beth, que se recusava a parar de acolher animais para si; ou Giseli, que, em certos momentos, referiu-se ao exercício a que se prestava

como “colocar-se no lugar do outro”. A propósito, essa foi a sua resposta quando lhe perguntei o que seria, afinal, “pensar nos bichos”?

Mas, a propósito, outra questão, já enfrentada por alguns teóricos contemporâneos, ainda paira: o que é, afinal, um animal? Ou o que é um “bicho”? Não me lancei a fazer essa pergunta diretamente aos meus interlocutores e interlocutoras – e aqui não me refiro somente a quem atuava nos grupos que acompanhei, mas também a todas as pessoas fora deles com quem conversei. Se o fizesse, era possível que ninguém me respondesse objetivamente, fosse uma voluntária protetora de animais, fosse um secretário municipal de Meio Ambiente, um funcionário de algum centro de controle de zoonoses ou um cidadão que tivesse posse de um animal utilizado para tração. Mesmo que não se descobrisse algo tão substancial sobre o que é um animal, a pergunta certamente traria respostas sobre quem são essas pessoas – como se eu quisesse “saber com quem estou falando” –, o que valeria também como uma arguição importante – mas não a única – rumo a uma consolidação desse campo de estudos.

Na minha tarefa de buscar compreender esse mundo do convívio com os animais da maneira como ele se realiza no âmbito das demandas de proteção animal, penso que “proteger”, “gostar”, “cuidar” e “amar” exercem uma função importante e, de fato, mobilizam essas pessoas a se empenhar de modos diversos na causa animalista. É fato também que nem sempre tais gestos, por si só, são devidamente eficazes, na medida em que nem sempre conseguem superar as barreiras jurídicas e administrativas que resistem em acolher suas demandas. Mas, no limite, quando encontram um mínimo amparo em leis ou em políticas governamentais, transformam isso num momento para revigorar essa sua política de afetos. De todo modo, o trabalho dessas pessoas nos possibilita a ter sempre em mente que, para se fazer e obter políticas, também se requer o afeto e as emoções que a questão dos animais suscita na maioria das pessoas que se engajam por essa causa, sejam elas defensoras, protetoras ou não. E é a partir disso que uma nova mentalidade acerca da relação com os animais poderia ser enfim vislumbrada. Parece-me que é isso o que empreende quem “gosta de bicho”. E “pensar nos bichos” poderia – ou deveria – consentir em pensar aquilo o que Jacques Derrida denominou “uma guerra a propósito da piedade”:

Essa guerra não tem idade, sem dúvida, mas, eis minha hipótese, ela atravessa uma fase crítica. Nós a atravessamos e nós somos atravessados por ela. Pensar essa guerra na qual estamos, não é apenas um dever, uma responsabilidade, uma obrigação, é também uma necessidade, um imperativo do qual bem ou mal, direta ou indiretamente, ninguém poderia subtrair-se. Doravante mais do que nunca. E digo “pensar” essa guerra, porque creio que se trata do que chamamos “pensar”. O animal nos olha, e estamos nus diante dele. E pensar começa talvez aí (DERRIDA, 2002: 57).

Para além de “proteger”, “gostar”, “cuidar” e “amar”, portanto, é necessário pensar. E pensar nos bichos, como frisado neste trabalho, consiste em agir por eles, tendo sempre em mente esse necessário exercício da empatia. Eis a política de afetos da proteção animal, que parece ser uma via de mão dupla: ela diz respeito a uma experiência subjetiva, que não é somente a nossa ou somente a do outro. Ambas são intrínsecas, pois esse processo de identificação com o “outro” requer uma projeção de si no âmbito desse outro, de forma a procurar vivenciar sua perspectiva, seus sofrimentos, suas dores. Sendo assim, a empatia é a possibilidade de experimentar, ainda que hipoteticamente, uma alteridade. Por outro lado, também é um efeito desse mesmo processo o exercício de trazer esse “outro” para a nossa própria experiência vivida, de forma a melhor compreendê-lo e também a nós mesmos e, dentro de prováveis diferenças observadas, identificarmos possíveis e inesperadas semelhanças.

REFERÊNCIAS