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Hydrogeologisk setting

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III. Bunnlag

2.5 Hydrogeologisk setting

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Os desfiles noturnos se iniciaram em 1962, pouco tempo depois que a prefeitura assumiu a responsabili- dade pela manutenção deste tesouro municipal (1960). A competição pelo troféu de melhor congada e moçambique, instituída no inicio dos anos de 1970, acirrou o conflito inerente a este tipo de demonstra- ção pública de poder grupal. Os conflitos são recorrentes na estrutura dos congados e, junto com a inici- ação, fornecem o quadro geral em que a autoridade tradicional se legitima. Nessa mesma época foram introduzidos mais santos e bandeiras na festa. Até meados dos anos 60, as devoções originárias se limitavam a Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito, santos tradicionais dos homens pretos. A partir de então, foram acolhidos Santa Catarina, cuja roda de tormento que compõe sua iconografia vem relacionada à muitos tetos pintados em Igrejas do Rosário em Minas, uma vez que a referência ao martírio e a milagrosa resistência desta santa fizeram-na afeita às imagens de li- bertação e eventos sobrenaturais que a crença africana tanto preza. São Domingos também foi incorpo- rado à festa. O exemplo de sua vida expressa de maneira simples os motivos da afinidade deste santo com as congadas e moçambiques. “Após três dias e três noites de incessante

oração, quando as forças físicas já quase o abandonavam, apareceu-lhe a Virgem Maria, manifestando

seu afeto maternal e sua grande predileção. Meu querido Domingos – disse-lhe Nossa Senhora com

inefável suavidade – sabes de que meio se serviu a Santíssima Trindade para transformar o mundo?-

Senhora – respondeu São Domingos– vós sabeis melhor do que eu, porque depois de Vosso Filho Jesus

Cristo, fostes vós o principal instru- mento de nossa salvação.- Eu te digo, então – continuou Maria

Santíssima – que o instrumento mais im- portante foi à saudação angélica, ou a Ave Maria, que é o fundamento do Novo Testamento e portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza e propaga o meu Saltério (Minha Coroa de Rosas). São Domingos saiu dali com novo ânimo e imediatamente se dirigiu a Catedral de Toulouse para fazer uma pregação. Assim que Domingos começou a falar, nuvens espessas cobriram o céu e uma terrí- vel tempestade abateu-se sobre a cidade. São Domingos implorou a misericórdia de Deus e a proteção de Maria Santíssima, e por fim a tempestade acalmou, permitindo-lhe que falasse com toda a alma e todo o coração sobre as maravilhas do Rosário. Os habitantes de Toulouse arrependeram-se de seus pe- cados, abandonaram seus erros e começaram a rezar o Rosário. Grande foi a mudança dos costumes na cidade. Domingos tornou-se o Grande Apóstolo do rosário, e por meio do Rosário, Maria foi a verdadeira vencedora, pois ela reconduziu à fé católica todo aquele povo, salvando a França. Foi São Domingos que compôs o cordão com as continhas, nas quais se rezavam Pais-Nossos e Ave-Marias, que são as orações

evangélicas”1 e que feitos das sementes de uma planta chamada Lágrimas-de-Nossa-Senhora, veio a ser

a armadura cruzada ao peito de todo congadeiro e moçambiqueiro.

Por último houve a incorporação de São Jerônimo enquanto santo padroeiro da festa. A versão oficial diz que essa escolha foi uma homenagem que aconteceu na década de 80 ao Monsenhor Jerônimo Mancini, destacado pároco local que serviu na cidade durante 40 anos e teve grande influência sobre a vida espiri- tual da cidade. Não por acaso, São Jerônimo foi um dos doutores da Igreja, tradutor e gramático. A figu- ra do conhecimento coincide entre o santo e o reconhecimento paraisense deste pároco. Outro fator im- portante, nessa adoção, mas não mencionado explicitamente pelos praticantes é o fato que São Jerôni- mo ser o correspondente sincrético de Xangô nas religiões de transe de cunho africano, o senhor africano dos trovões, entidade importante nesta celebração congadeira e moçambiqueira atravessada por vários conflitos mágicos e que ocorre na época chuvosa.

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“É a partir do fim dos anos 80 que as mudanças mais fortes são sentidas. Na esteira da constituição de 1988, os municípios alcançaram um estatuto jurídico nunca dantes experimentado no país. A mudança na relação entre os entes federativos criou uma dimensão institucional mais rígida de modo que os ter- nos tiveram que se adaptar a essa realidade. Todos passaram a ter sua representação jurídica como for- ma de acessarem o seus direitos e os benefícios que a prefeitura estende a elas. Dessa forma foram in- corporados ao jogo político e reforçaram sua inserção positiva no tecido social paraisense. A abertura dos ternos a essa negociação constante entre tradição e a moderna estrutura burocrática exigiu compro- missos de ambas as partes. Em 1989, a participação feminina foi admitida e atualmente há um rígido controle da presença de crianças que só são acolhidas através da autorização expressa de pais e respon- sáveis, devidamente registrada no fórum local. É claro a dependência cada vez maior dos ternos em re- lação à leis municipais e também a existência de critérios pragmáticos que ignoram a especificidade desta manifestações, o seus valores intrínsecos e o modo sobre como são empenhados e como são resol- vidos seus conflitos, gerando tensões entre os ternos e a organização do evento. Segundo relato de al- guns congadeiros, a realização da procissão com os santos na abertura da festa foi quase totalmente abandonada durante o fim da década de 1990. A partir do ano de 2002 o costume de realizar tal procis- são fora novamente incorporada aos rituais que compõem a Festa por inciativa da Rainha Conga Genuita Pereira de Paula”. ( Cezar,Lilian

Ságio 2005, p.43)

Entrevistas com:

. José Salvador Eustáquio, o “Gorvalho”,Rei Congo 08/12/2009 . Luiz Ferreira Calafiori,historiador local, 07/12/2009

. Sebastião Eurípedes de Páschoa, Rei Congo 26/12/2009, 29/12/2009, 04/02/2010, 05/02/2010 . Tio Eurípedes e Luci souza, respectivamente, capitão e presidente do terno Bela Vista , 26/12/2009 . Maria de Lourdes Silva, presidente do terno Xambá,26/12/2009

. Naira Victor de Souza, do terno de moçambique Zambiê de Angola, 26/12/2009 . Luiz Divino Fonseca, “Luiz Macaco”, 05/02/2010

. Família Silva, Hélio José da Silva, Eliane da Silva e Rafaela da Silva, responsável pelo terno de Moçam- bique Nossa Senhora do Rosário, 05/02/2010

CÉZAR, Lilian Ságio. A Congada e a Câmera: ação afro-descendente e representação midiática. 2005. 164f. Dissertação (Mestrado em Multimeios). Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. Disponível em: <http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000445700>.Acesso em 26/02/2010

SILVA, Donizetti. Dança Congadeiro! Repica tua caixa, teu pandeiro... São Sebastião do Paraíso, 2008

VARAZZE, Jacoppo da, ca.1229-1298. Legenda Áurea: vidas de santos. São Paulo: Campanhia das Letras, 2003.

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14 – SALVAGUARDA E VALORIZAÇÃO

O instrumento de salvaguarda do patrimônio imaterial elaborado pela Unesco em 2003, como des- dobramento da “Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural” em 1972, calca- se nos direitos econômicos, sociais e culturais e é um dos meios de implementação das dimensões civis, isto é, daquelas voltadas para a construção de um modo de habitar e participar da vida citadina, cidadã. O patrimônio cultural imaterial, considerado como principal gerador da diversidade cultural e do desenvolvimento sustentável, pede políticas comprometidas com a manutenção da dinâmica, da abertura à criatividade e à invenção de práticas que, por sua vez, estimulam as capacidades técnicas. Assim, as redes de contatos e solidariedades vão se tornando cada vez mais densas pois a interdependência entre os meios imateriais e materiais expande as potencialidades dos indivíduos e de suas ações em conjunto.

As ações em prol do patrimônio, em condições ideais, visaria à facilidade da articulação entre os conteúdos espirituais singulares de cada grupo e sua contribuição para a totalidade com a qual ela se co- necta. Em termos mais precisos, as ações desse tipo favorecem a canalização das produções imateriais e da rede material que ela sustenta para contextos de distribuição expandida. A consolidação das relações de troca entre os grupos mantém abertos os canais públicos de comunicação e os mecanismos de negocia- ção são reforçados. Maneiras tradicionais de resolução de conflitos são assim estimuladas pelo suporte de estruturas midiáticas, jurídicas e financeiras, que aumentam o campo de efeito das ações públicas.

A salvaguarda parte do reconhecimento que as comunidades, em especial, as comunidades autóctones, os grupos e, se for o caso, os indivíduos, desempenham um papel importante na produção, salvaguarda, manutenção e recriação do patrimônio cultural imaterial, contribuindo, desse modo, para o enriquecimento da diversidade cultural e da criatividade humana.(Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. Paris, 17 de Outubro de 2003)

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