6 Fars permisjon i praksis – begrunnelser for fordeling og betydning
6.4 Hvorfor fordelte foreldrene permisjonen som de gjorde?
Rildo era um homem jovem, polido ao extremo, correto, obsequiador e muito pressuroso, que apresentava um quadro de taquifemia122, cuja composição melódica era metáfora de seu estilo e funcionamento, ou ainda certo resto de vida contrariada123 aderida à fala. Rildo articulava seus dizeres como numa arrebatada sequência de conflitos e sofrimentos dos quais sua prontidão e solicitude se esquivavam com presteza. Essa combinação autorreguladora provinha da infância cheia de privações
120 FREUD, S. (1909-1939) Cartas entre Freud e Pfister: um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã.
121 O destaque visa ressaltar uma possibilidade de sistematização da análise dos enunciados produzidos no contexto terapêutico com a linguagem. Destaca duas categorias distintas que podem indicar movimento subjetivo e movimento discursivo.
122 “Taquifemia foi definida como uma alteração na fala caracterizada por um paciente com pouca percepção do seu problema, alteração da percepção, articulação e formulação dos processos preparatórios para fala, baseado em pré- disposição hereditária. Taquifemia é uma manifestação verbal de alteração central de linguagem que afeta todos os canais de comunicação (ex. leitura, escrita e musicalidade) e do comportamento de uma forma geral”. Apud Degiovani (2003). Diagnóstico diferencial das disfluências. In: Conhecimentos essenciais para atender bem a
pessoa com gagueira. RIBEIRO, I. (Org.) São Paulo: Pulso, 2003.
123 CANGUILHEM (1989) dá à patologia o estatuto de vida contrariada, sofrimento que representa certa revolta diante do vivido.
materiais e afetivas e de uma adolescência passada num seminário católico, demasiadamente cerceada pela disciplina e pelo medo do inferno. Inicialmente era difícil compreendê-lo, trazia um emaranhado de ideias e sons, do qual uma ou outra palavra às vezes se destacava e por ela eu podia perseguir um sentido. No entanto, na proporção da demora no meu caminho para interpretá-lo mostrava-se sua pressa em se fazer entender, antecipando-se e invadindo minha fala, quase negando a percepção de que algum espaço vazio devia ser suportado. Havia negação das pausas, das marcações de ênfase, do tempo do compasso pelo qual o sentido deslizava. Os problemas mais evidentes eram aceleração no ritmo da fala comprometendo a integridade da articulação, a sobreposição dos fonemas que consequentemente se modificavam em alguns segmentos –– o que acarretava também a perda de sentido. A marca mais distintiva, porém, do seu modo de produzir a fala, eram as repetições. Usava sem perceber a repetição de palavras como se precisasse voltar e refazer duas, três, quatro vezes uma palavra, e até pequenas frases, num tempo recorde.
Ao retomar seu turno, fazia-o mediante repetição de minha última frase ou em até três repetições de alguma palavra que eu havia dito, geralmente ponto a partir do qual sua resposta iria se organizar. Era muito complicado falar com ele, pois eu tinha segura sensação de que o incomodava com minhas demoras e pausas, sentia que seus olhos me diziam: “acabe logo comisso”.
Filho mais velho de uma prole de três meninos, criado na zona rural, numa colônia de italianos, no início da adolescência presenciou o pai alcoolizado espancar a mãe grávida. Dessa agressão, resultou o aborto da única menina e a esterilização da mãe. Refere-se ao episódio com ódio e imenso pesar, por não ter conseguido fazer nada em tempo de salvar a irmã, nem gritar nem pular e dominar o pai. Atualmente o pai continua sendo visto como um ignorante sem nenhuma possibilidade de autocrítica,
turrão e fechado em si, que nunca fez elogio algum aos filhos, nem deu presentes, sequer podia olhar e perceber os meninos. Sua vida era um mistério: ganhava com a colheita, mas quase nada era revertido em melhores condições para a família; comiam do que a mãe produzia na lavoura e se fechavam no medo de despertar a fúria paterna. Rildo pouco se expressava quando criança. Apesar de ter saído de casa aos 11 anos, continuou tentando proteger a mãe, suprindo as faltas materiais desde então.
Casou-se aos vinte e foi traído por toda a família de sua esposa. Deram-lhe um golpe financeiro num negócio compartilhado com o sogro e os cunhados. Imediatamente após descobrir o fato, saiu do interior de Santa Catarina e veio procurar emprego em São Paulo, onde se fixou há 13 anos, trabalhando no cargo de coordenador geral de entregas numa transportadora. Casou-se novamente e é pai de duas meninas. Gaba-se da organização da esposa e da vida regrada que levam para ampliar a poupança. Rildo se incomoda extremamente quando não é entendido, pois não percebe muito bem o que não está adequado em sua fala. Não sofre por não se achar competente para falar, mas porque algo em sua fala o impede de causar no outro o efeito esperado – o de ser entendido. Apesar de receber reclamações, nunca se intimidou ou retraiu-se em função da dificuldade em se fazer entender. Rápido, controlador e eficiente, orgulha-se muito do que pode ser apesar do pai que teve.
O mesmo mecanismo acelerador foi aplicado no processo terapêutico. Na terceira sessão já trouxe efeitos do trabalho, dizendo sentir-se melhor e muito mais calmo. “Calmo?”, pergunto. “É”, responde, “tudo que já falei aqui eu não tinha falado para ninguém nesses quarenta anos do meu passado desse jeito inteiro com começo meio e fim. Acho que despejei lavei tudo comecei a ver meu problema como ansiedade, por muito tempo tive medo de não conseguir cuidar de tudo. Acho que mudei a ‘fobação’ ‘fobado’ ‘afobação’ e ansiedade, aquela preocupação de deixar tudo em dia, tudo certo,
pego tudo pra mim, até a fala da outra pessoa, não escuto vou falando junto com a pessoa. Tenho a impressão de que vou esquecer o que a pessoa falou e o que eu queria responder, se não concordo interrompo na hora, não consigo deixar chegar no final. Sinto que não vou ter tempo e nem espaço para falar. Acho que estou ouvindo mais, só que é muito difícil pra mim. Até desligar pra dormir é difícil, deito, durmo pouco e acordo às três da manhã preocupado com o que não deu tempo de terminar. Agora, depois de perceber isso, tento acompanhar, delegar e não fazer tudo. Pensando mais em mim”. Em seguida começou a contar de seu chefe, um senhor mais velho, que está nessa função por ser amigo do dono da empresa; não tem competência para ocupar o cargo de gerente geral, o que o leva a cometer gafes graves, que Rildo está sempre contornando, pois, a pedido do diretor, deve suportar esse senhor quase como uma figura decorativa. Apesar de não corresponder às atribuições do seu cargo, ganha o triplo do salário de Rildo, situação armada para gerar sentimentos de injustiça muito semelhantes aos que nutre pelo pai, a quem associa diretamente seu gerente: “Ele tem jeito bruto, como do meu pai para quem também nada estava bom nunca, só que hoje está pagando o preço de ser teimoso, meu chefe, do mesmo modo é um velho turrão e burro, mas me obedece, pois já livrei muito a barra dele na empresa”.
Provavelmente a melhora relatada por Rildo foi gerada pela oportunidade dada a si mesmo de se perceber sendo ouvido. É curioso como esse homem vem procurar ajuda para falar melhor justamente quando está numa condição de estabilidade financeira, potência técnica e conforto afetivo. Parece-me que todos os outros aspectos de sua vida precisavam estar controlados para se aventurar numa desestabilização do seu modo de estar na relação com o outro. O problema da linguagem nunca lhe trouxe nenhum prejuízo direto, aparecendo também para ele como sintoma de outra coisa. Transferencialmente me percebia falando com Rildo num ritmo compassado, deixando
o tempo correr, até que ele me alertava: “Já são 15 horas e 58 minutos”. E a sessão deveria acabar às 16 horas, mas poderia seguir um pouco mais. Certa cadência de desaceleração vinha nos fazendo caminhar rápido, o que marcava nítida diferença entre a invasão sentida pela fala do outro e a suportabilidade nova aos seus recursos discursivos e confiança na sua fala.