4 AMB DELTAKERE I PERIODEN 1999 TIL 2004
4.4 Hvilke forhold har betydning for jobbsuksessen?
Na carta 19 do romance em estudo, Usbek diz ao seu amigo Rustan que o Império Otomano se sustenta por remédios violentos que minam as suas forças e acabam por esgotá-lo. No final dessa carta, Usbek conclui que, em menos de dois séculos, este Império será governado por algum conquistador (MONTESQUIEU, 2005, p. 37-38).
Diante desse trecho, percebemos que Usbek tem consciência de que o governo despótico, que tem o medo como guia, não corresponde a um regime duradouro, pelo contrário, é um regime que se autodestrói.Apesar de saber disso, Usbek não percebe que o seu próprio harém também
corre um grande risco de sucumbir. As desordens no harém do viajante persa começam a aparecer a partir da carta 147 desse romance.
Nessa carta, o Grande Eunuco diz a Usbek que Zélis deixou cair o seu véu e quase todo o seu rosto apareceu diante de um povo inteiro. Além disso, Zachi, contrariando as leis do serralho, estava deitada com uma das escravas de Usbek. O Grande Eunuco ainda diz que descobriu uma carta no serralho sem saber a quem era destinada. Por fim, o Grande Eunuco revela a Usbek que um rapaz foi visto no jardim do serralho, e que o mesmo acabou fugindo saltando os muros (MONTESQUIEU, 2005, p. 217-218).
Podemos considerar que essa carta representou um marco importante para o desenrolamento do romance. A partir dessa carta, todas as outras demonstram a decadência e a desordem do harém de Usbek. A situação do harém do protagonista do romance vai piorando a cada dia. A última carta retrata o grau máximo de declínio, quando a esposa preferida de Usbek se suicida. Após o Grande Eunuco relatar a Usbek os acontecimentos descritos acima, esse informante morre. E quem ocupará o seu lugar será Narsit, conforme descrito na carta 149 (MONTESQUIEU, 2005, p. 218).
Entretanto, outro eunuco de Usbek, Solim, escreverá ao viajante persa relatando que o harém está passando por muitos conflitos. Solim dirá a Usbek que as suas mulheres não guardam mais nenhum respeito, pelo contrário, desde a morte do Grande Eunuco, elas gozam de grandes liberdades. Solim diz ainda que a expressão das mulheres está diferente, elas estão demonstrando uma alegria nova e não, a virtude severa e rígida que elas apresentavam. Não bastasse esse novo comportamento das mulheres, Solim diz também que mesmo os escravos de Usbek mudaram a forma de se comportar no serralho. Eles estão agindo com certo desleixo
ao dever e à observância das regras, ou seja, eles não têm o mesmo ardor de antes em servir o seu senhor. No final dessa carta, Solim diz que o eunuco que está na direção do serralho não é de confiança, mas sim, um imbecil que acredita em qualquer coisa (MONTESQUIEU, 2005, p. 220).
Após receber essas informações, Usbek confere a Solim a tarefa de dirigir o serralho. Destacamos a seguinte passagem em que essa ordem é expressa: “Ponho o ferro em tuas mãos. Confio-te o que hoje mais prezo no mundo, que é minha vingança. Assume teu novo encargo; mas assume-o sem coração nem piedade. Estou escrevendo a minhas mulheres para que te obedeçam cegamente.” (MONTESQUIEU, 2005, p. 221). Por essas palavras, percebemos como o serralho de Usbek parece desordenado, e, para voltar ao estado em que ele era, Usbek propõe utilizar dos métodos mais severos. Assim, Usbek manda exterminar os que se mostrarem culpados e fazer tremer os que pensavam em cometer os mesmos crimes.
Algumas cartas após, Usbek confessará ao seu amigo Nessir o quanto está infeliz. Usbek espera notícias do seu serralho, e, às vezes, demora para saber o que está acontecendo nesse lugar. Esse tempo que ele tem que aguardar o corrói, a sua impaciência faz com que os dias de espera sejam mais longos. E quando, finalmente, chegam notícias de sua terra, Usbek sente várias sensações, suas mãos tremem antes de abrir uma carta, o viajante diz que sente uma revolução fatal em seu coração (MONTESQUIEU, 2005, p. 222).
Usbek não suporta mais viver na França, ele quer voltar, para ele está sendo torturante estar longe, saber do que se passa no seu harém e não poder intervir. Isso faz com que o seu desejo de ir para Pérsia aumente a cada dia. Entretanto, ele sabe que quando chegar ao seu harém, ele
não terá momentos felizes. E essa simples ideia faz com que ele já sofra à distância. A imaginação do que ele verá no seu harém já faz com que ele trema de medo.
É interessante destacarmos a posição em que Usbek se encontra no fim do romance. Esse indivíduo que despertava tanto medo nos seus eunucos e mulheres, agora, experimenta essa sensação de tremer ao deparar com uma carta de alguém do seu serralho. O próprio Usbek diz que a desgraça de sua condição é maior do que a dos vis escravos (MONTESQUIEU, 2005, p. 223).
Nas últimas cartas do romance, algumas esposas escrevem a Usbek. Na carta 156, Roxana diz ao seu senhor que no serralho estão ocorrendo muitas barbaridades. Conforme Roxana, o horror e o pavor estão reinando nesse lugar. Essa esposa diz que o indivíduo que as vigia mais se parece com um tigre, pois, a todo instante, manifesta sua raiva. As mulheres não têm mais o direito de conversar umas com as outras; escrever entre elas seria um crime, a única liberdade que elas possuem é a possibilidade de chorar (MONTESQUIEU, 2005, p. 223).
A carta seguinte é a de Zachi. As suas palavras são parecidas com as de Roxana, porém, a escrita da primeira mulher ressalta as humilhações que ela vem sofrendo no serralho, como o castigo que ela recebeu nos últimos dias (MONTESQUIEU, 2005, p. 224).
Por fim, Zélis escreve a Usbek dizendo-lhe que o eunuco a castiga, entretanto, ela sabe que quem a ofende realmente é Usbek. Ou seja, é ele quem manda o seu escravo agir de tal forma. Assim, Zélis chega a chamar Usbek de tirano, quando diz que quem a maltrata é o tirano e não esse (o eunuco) que meramente exerce a tirania. No final dessa frase, Zélis diz a Usbek
que ele pode multiplicar os maus-tratos sobre ela. Ela não se importa mais com isso, uma vez que o seu coração não se sente mais capaz de amá-lo (MONTESQUIEU, 2005, p. 225).
Podemos imaginar a reação de Usbek ao ler a carta 159 de Solim. O eunuco diz que até a confiável Roxana estava nos braços de um rapaz. Ao se ver descoberto, esse rapaz atacou Solim e alguns eunucos, mas, no final, o amante de Roxana acabou sendo morto (MONTESQUIEU, 2005, p. 225).
Por fim, cabe destacarmos a última carta do romance em estudo. Como já mencionado, quem tem o privilégio de encerrar essa obra é Roxana. Percebe-se, assim, que Usbek recebe essa carta, mas não lhe é conferido espaço para sua resposta. Sua voz não é tão importante como era no início desse romance. Tanto Usbek quanto seu harém estão enfraquecidos, sem expressão. O que se manifesta, ainda, são alguns sentimentos de rancor dos seres mais dominados dessa história, as mulheres. No final, elas usufruem de um poder que nunca tinham experimentado, relatam o que elas realmente sentem, e ainda riem das ilusões de Usbek sobre elas.
Roxana não perde a oportunidade de dizer o quanto Usbek foi enganado: ela subornou os eunucos desse senhor, zombou dos ciúmes dele, e, ainda, conseguiu vivenciar, no atroz serralho, momentos prazerosos com seu amante. Depois de dizer tudo isso, ela diz que está morrendo, o veneno já corre em suas veias. Mas, antes de morrer, ela faz alguns questionamentos a Usbek. Ela lhe pergunta: “Como pensaste que eu fosse crédula o bastante para imaginar que só estava no mundo para adorar os teus caprichos? Que, enquanto te permites todas as coisas, ainda tiveste o direito de afligir todos os meus desejos?” (MONTESQUIEU, 2005, p. 226). Roxana prossegue dizendo que ela viveu na servidão, mas
sempre foi livre, pois o seu espírito sempre se conservou independente. Ela diz ainda que Usbek permaneceu, por muito tempo, com o orgulho de acreditar que o coração dela era escravizado. Agora, ele saberá que ela nunca o amou (MONTESQUIEU, 2005, p. 227).
É dessa forma que o romance acaba. Longe de ter um final feliz, o serralho está se dilacerando. O longo período em que Usbek esteve longe fez com que as relações conflituosas fossem se agravando. Tanto os eunucos quanto as mulheres não estão obedecendo mais a seus superiores. O medo que era o sentimento-guia desses indivíduos parece estar diminuindo, as mulheres começam a dizer e a expressar o que elas realmente sentem. Muitas delas percebem que não amam Usbek, isso, de certa forma, as liberta. Elas começam a ter consciência de si, elas compreendem que não são meros objetos, mas pessoas com sentimentos e desejos. E, se para experimentarem uma rápida sensação de liberdade, elas devem pagar o preço de suas vidas, elas aceitam essa troca. A morte lhes parece uma boa opção, pois é algo que elas escolheram, elas decidiram; e, não, mais uma ordem à qual elas tiveram que se submeter.
Após tratarmos o tema do despotismo no romance “Cartas Persas”, iremos analisar esse regime na obra “Do Espírito das Leis”. Perceberemos que muitos assuntos abordados por Montesquieu no romance epistolar serão retomados com uma escrita diferenciada. Os personagens fictícios saem de cena, mas o regime despótico permanece como o protagonista dessas obras.
2 O REGIME DESPÓTICO NA OBRA “DO ESPÍRITO DAS LEIS”
2.1 A posição do despotismo no pensamento de dois autores: Aristóteles e