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A metáfora é um recurso eminentemente humano, seu uso é parte integrante da linguagem da vida cotidiana. As formas de dizer; de pensar; de explicar; de convencer; de esclarecer; de compreender e explicitar o que se sente e o que se pensa, muitas vezes não são possíveis na ausência de metáforas, porque sem usá-las resultaria em perder o sentido daquilo que, de fato, se deseja dizer. Nessa visão, admitimos que a metáfora pode elucidar alguns aspectos de como pensamos, de como sentimos e, dessa forma, ser usada como um instrumento empírico de análise semântica, partícipe dos Modelos Cognitivos Idealizados – MCI.

Por essas razões, ela é um dos mecanismos simbólicos mais estudados em Encontros Nacionais e Internacionais em LC – investigada em diferentes perspectivas da linguagem em uso e em suas variadas manifestações: linguísticas, gestuais, pictóricas ou icônicas (GIBBS, 2008; GIBBS, 2007; GIBBS, CAMERON, 2007; GRADY, 1997; JOHNSON,1997; JOHNSON,1999; KÖVECSES, 2009, 2007, 2000; LAKOFF, ORTONY, 1993; SWEETSER, 1990;).

Por outro lado, a metáfora se abordada fora de um contexto acadêmico da Linguística ou das Ciências Cognitivas, será remetida a uma figura de linguagem, utilizada com o objetivo ímpar de adornar a linguagem, de desenhá-la de maneira mais poética e mais criativa, com objetivos estilísticos e retóricos. Essa forma de conceber a metáfora povoou por muitas décadas os estudos sobre a linguagem poética, diferenciada da linguagem comum e da científica, usadas pelos domínios da razão em termos cartesianos. Nesta visão, a linguagem é entendida como um espelho da realidade objetiva. Logo, se quiséssemos falar racionalmente deveríamos evitar o uso da linguagem figurada (LAKOFF; JOHNSON, 1980).

Apesar da mudança de paradigma ensejada pela Linguística Cognitiva, ou seja, da perspectiva de abandono do objetivismo em favor do experiencialismo, a partir, especialmente, dos trabalhos de Lakoff e Johnson (1980) que constrõem uma visão da metáfora como instrumento intelectual e cognitivo, constitutivo do sistema organizacional do pensamento, ainda encontramos descrições de metáfora como mera substituição de um termo por outro, como na citação a seguir:

O emprego de uma palavra concreta para exprimir uma noção abstrata, na ausência de todo elemento que introduz formalmente uma comparação; por extensão, a metáfora é o emprego de todo termo substituído por outro (DUBOIS et.alii.,, 2006, p.411).

Como se pode observar na definição de um referente dicionário de Linguística, a visão de metáfora ainda é registrada de forma reduzida, tradicional e em termos aristotélicos, como uma substituição de um termo pelo outro, em que se busca descobrir as semelhanças entre as diferenças. O dicionarista citado não apresenta uma perspectiva acerca da metáfora como uma forma de operar e dar significado à própria experiência, isto é, registra apenas a definição tradicional de metáfora que não transcende a perspectiva da superfície linguística.

Essa concepção, datada de 2006, não se difere muito da concepção de Aristóteles, propagada no século IV, antes de Cristo, referente à metáfora “A transposição de um nome de uma coisa para outra, transposição do gênero para espécie, ou da espécie para o gênero, ou de uma espécie para outra, por via de analogia” (POÉTICA, III, IV, 7. p.182).

Por outro lado, segundo Lakoff e Johnson (1980), o nosso sistema conceptual, em grande parte, é naturalmente metafórico, uma vez que é o reflexo direto da maneira como falamos e agimos no mundo porque as expressões na ordem da metáfora formam sistemas complexos que são baseados em metáforas conceituais que estão na base da linguagem e do pensamento. Dessa forma, a metáfora não se reduz a uma troca de palavras ou a uma variação estilística, mas estudá-la abre caminhos para entender como nós compreendemos e damos sentido às nossas ações e ao mundo em que vivemos.

Utilizar, compreender e produzir metáforas não depende de nossa vontade consciente, porque muitas delas permeiam a linguagem cotidiana e,

frequentemente, não há como significar nossas experiências e eventos sem usá-las. Dito de outro modo, não é possível viver sem elas porque as metáforas funcionam em nossa mente e são motivadas por fatores também de ordem experienciais e socioculturais.

Para Silva (2003, p.02) “a metáfora é um importante mecanismo cognitivo pelo qual domínios da experiência mais abstractos e intangíveis podem ser conceptualizados em termos do que é mais concreto e imediato”. Dessa maneira, o arcabouço teórico da Metáfora Conceptual baseia-se nos pressupostos da Semântica Cognitiva e da Visão Experiencialista. Essa perspectiva é a adotada como lente de análise para os dados construídos a partir das entrevistas com estudantes brasileiros e franceses.

Os pressupostos teóricos da Teoria da Metáfora Conceitual- TMC admitem que os mapeamentos metafóricos são de caráter inferencial, partem de um domínio conceptual fonte para um domínio conceptual alvo. Uma metáfora conceptual, portanto, consiste de dois domínios, em que um é entendido em termos de outro - os sistemas conceituais humanos são, em larga escala, metafóricos, uma vez que contêm mapeamentos inferenciais de domínios tipicamente mais concretos, ou mais estruturados, para domínios tipicamente mais abstratos, ou menos estruturados (LAKOFF, JOHNSON, 1980; LAKOFF,1987).

Para compreendermos melhor a estrutura interna de uma metáfora conceptual, tomemos o exemplo clássico: O AMOR É UMA VIAGEM, denominada de metáfora estrutural, porque possui mapeamentos complexos. Temos, na representação a seguir, um domínio fonte e um domínio alvo. O domínio fonte é aquele a partir do qual conceptualizamos alguma coisa metaforicamente, é mais concreto, tem base experiencial: VIAGEM. Já o domínio alvo é aquele que pretendemos conceptualizar, sendo mais abstrato: AMOR (LAKOFF,JOHNSON, 1980):

Figura 1 - Metáfora: A VIDA É UMA VIAGEM AMOR ALVO Domínio pouco estruturado mais abstrato VIAGEM FONTE Domínio bem estruturado Projeção metafórica Motivada

Fonte: Baseada em Lakoff e Johnson (1980)

A metáfora conceptual, AMOR É UMA VIAGEM é desenvolvida por mapeamentos, conjunto de relações entre os domínios fonte e alvo, conforme podemos delinear:

1- Viajantes: os amantes 2- Veículo: a relação amorosa

3- Mapa de viagem: planos de casamento: ter filhos, construir uma família; comprar uma casa própria

4- Destino da viagem: felicidade e harmonia na vida a dois

5- Obstáculos na viagem: crises de diversas ordens: financeiras, conflitos de personalidade, monotonia; traição

Na compreensão dessa metáfora conceitual, podemos construir algumas inferências autorizadas e legítimas para o analista, uma vez que ele compartilha de valores, de crenças, de espaços sociais e culturais humanos:

- quando a viagem é longa, cansativa, sem atrativos, então, o relacionamento pode ficar monótono;

- quando cada viajante quer seguir destinos diferentes, então, o casamento pode entrar em crise por não haver acordo nas ideias e formas de viver.

Vale salientar que as metáforas conceituais licenciam ou motivam as expressões metafóricas tais como: Separei de meu marido porque resolvi seguir a

para citar alguns exemplos. Em suma, quando relatamos nossas experiências amorosas em termos de viagem, RELACIONAMENTO funciona como domínio alvo e VIAGEM como domínio fonte que licenciam as expressões linguísticas de base metafóricas.

Os estudos de Lakoff e Johnson (1980) foram germinais no sentido de que a partir de suas ideias, surgiram ampliações, reformulações e até mesmo críticas. No entanto, vamos situar os tipos de metáforas indicadas pelos autores, e sua pertinência para análise dos MCIs:

- Orientacionais: em sua grande maioria, têm a ver com a orientação espacial: dentro-fora, para-cima, para-baixo, central-periférico, etc. As orientações espaciais são fundadas pelo tipo de corpos que temos, e de nossa posição no espaço que direcionam/influenciam os conceitos em perspectiva espacial como: FELIZ É PARA CIMA, TRISTE É PARA BAIXO, MENOS É PARA BAIXO, MAIS É PARA CIMA. Esses conceitos foram discutidos e ampliados por Lakoff (1987). Tais metáforas licenciam a produção e a compreensão das seguintes expressões metáforicas: Ele ficou no chão depois de ser acusado de ladrão, A aula foi ótima, a

professora sempre está de alto astral.

- Ontológicas: são envolvidas projeções de características de entidade ou substância sobre algo que não possui tais características, por exemplo, a violência pode ser concebida como uma entidade: A violência não é uma coisa de

paz. A metáfora ontológica abarca a personificação quando se trata de entidades

entendidas em termos humanos: A VIOLÊNCIA É UMA PESSOA, como no exemplo:

A violência pára o mundo. Essa metáfora é ontológica, porque atribui a VIOLÊNCIA

qualidades que não lhe são constitutivas como ter o poder de parar as ações das pessoas no mundo.

Ressaltamos que a Teoria da Metáfora Conceptual - TMC propagada por Lakoff e Johnson (1980), no entanto, essa vertente foi ampliada por pesquisadores como Grady (1997), concernente à Teoria da Metáfora Primária; Johnson (1999) que estudou a Teoria da Fusão e Narayanan (1999) que desenvolveu estudos sobre a Teoria Neural da Metáfora. Esses estudos corroboram com os pressupostos da cognição corpórea de base experiencialista, com a TMC e com a TMCI de modo a explicar e a ampliar o constructo teórico emergido em 1980 por Lakoff e Johnson.

Assim, pertinente aos objetivos desse estudo é discorrer brevemente acerca da Metáfora Primária que licencia as expressões linguísticas metafóricas. A base das metáforas primárias é subjacente a cenas primárias construídas e experienciadas desde que nascemos. Elas são impressões na memória de longo prazo da ligação entre uma experiência perceptual e a resposta cognitiva (conceito) formada a partir dessa experiência. Nas palavras de Grady (1997), tais cenas

primárias seriam episódios mínimos (delimitados temporalmente) de experiências

subjetivas, caracterizados pelas estreitas correlações entre uma circunstância física e uma resposta cognitiva.

Por exemplo, na ideia de PESO, temos um conhecimento consistente e organizado sobre este domínio conceptual, porque passamos por muitas experiências com objetos leves e pesados, e dispensamos esforços físicos em maior ou menor grau, dependendo do peso do objeto. Então, essas experiências nos ajudam a entender o domínio conceptual DIFICULDADE. Esse mapeamento, instanciado pela Metáfora Conceptual DIFICULDADE É PESO, licencia nossa compreensão de expressões metafóricas como Escrever uma tese é muito pesado ou Falei toda a verdade, tirei um peso de minhas costas. Dessa maneira, PESO é a fonte, um domínio conceptual mais facilmente apreensível pelos sentidos, e DIFICULDADE, o alvo, um domínio conceptual mais abstrato. Grande parte de nossa forma de pensar percorre caminhos metafóricos em que temos um domínio fonte mais experiencial, corpóreo, sensitivo e outro mais abstrato e menos físico (MACEDO, 2007).

Nessa visão, as experiências corpóreas são fundamentais para a estruturação metafórica que advêm naturalmente dessas experiências inerentemente humanas e competem a favor da universalidade, enquanto outras metáforas podem ter bases culturais. Isto quer dizer que, embora haja inúmeras metáforas de base experiencial que emergem a partir de esquemas tais como RECIPIENTE e ORIGEM-PERCURSO-META dentre outros, existem outras que podem ser baseadas em elementos culturais e processos cognitivos de vários tipos (KÖVECSES, 2005).

Ainda na atual configuração dos estudos sobre a metáfora, que relevamos comentar, para Johnson (1999) a metáfora primária é emergente de dois estágios, o da conflação (processo de aprendizagem), quando as experiências de cunho

perceptual e conceptual seriam percebidas como um todo indiferenciado e o da

deconflação, quando os domínios previamente indistintos seriam constituídos nos

domínios alvo e fonte da metáfora, respectivamente. Nesse caso, o autor adverte para um domínio de fonte experiencial mais básica do que aquele propagado por Lakoff e Johnson (1980).

Para citar um exemplo, na infância, a experiência da afeição é fundida na experiência do calor de um abraço, nas situações de ninar da mãe, no aconchego do colo dos pais (conflation). Essas associações são automaticamente construídas entre os dois domínios AFEIÇÃO – CALOR. Embora, as íntimas ligações entre esses dois domínios não desapareçam, a criança é capaz de distinguir os dois domínios no período de desconflation, e ainda fazer relações entre eles para compreender expressões metafóricas como: Jonas é uma pessoa muito calorosa.

Já a Teoria Neural da Metáfora, propagada por Narayanan (1999), defende que existe uma base neural para a formação de metáforas chamadas básicas ou primárias. Sua pesquisa envolveu a projeção e o treinamento de redes neurais artificiais na qual evidenciou que a cognição humana está fundamentada na experiência, os mesmos sistemas neurais responsáveis pelas sensações e pelos movimentos também participam na conceptualização de conceitos abstratos e metafóricos.

Esse conjunto de estudos concernentes à metáfora, discutidos de forma sucinta, é relevante para a análise de nossos dados sobre as concepções de violência por dois grupos de jovens de culturas diferentes, na medida em que nos interessa analisar fatores que podem ser parcialmente universais devido ao fato de que seres humanos têm o mesmo corpo físico. Acrescidos aos fatores parcialmente universais, interessa-nos entender os fatores culturais subjacentes aos mecanismos simbólicos, que permitem a conceptualização e as formas de idealizar as experiências na interação com o mundo físico e cultural no que diz respeito à VIOLÊNCIA, conceito abstrato socialmente, historicamente e ideologicamente construído. Devido à complexidade de fatores que influenciam as concepções de violência, um mostra-se fundamental para compreensão do fenômeno em termos metafóricos: a concepção socioculturalmente situada de moralidade, esta discutida no Sistema da Metáfora da Moral abordada a seguir (LAKOFF, JOHNSON,1999).