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Hoje, 22 de junho de 2012, foi o dia de encerramento do primeiro semestre da escola. A festa junina, organizada por Patrícia, foi de primeira. No “arraiá”, escrito com alfabeto manual, montado na frente da escola, havia de tudo: comidas e bebidas típicas, bandeirolas, palhas de coqueiro na decoração. Tudo como manda o figurino. Por falar em figurino, os surdos estão todos vestidos a caráter: as moças todas em seus vestidos floridos, cabelos de trancinha e maquiagem exagerada; os rapazes em suas camisas xadrez e calças com remendos. Como o grupo de surdos é pequeno, vários ouvintes participam da quadrilha: a esposa de Boris, a filha e o irmão de Patrícia, os vizinhos da escola. Bianca foi escolhida pelos colegas para representar a princesa da quadrilha. Não faltou nada, nem mesmo a chuva, que caiu no meio da quadrilha nos obrigando a ir todos, dançarinos e visitantes, para uma das duas pequenas salas de aula que compõe a escola. Terminada a quadrilha, combinamos ir para a praça prolongar um pouco mais a conversa, pois eu volto para Campina amanhã e vou ficar todo o recesso junino e as férias de julho longe. Bianca pede que eu converse com a mãe dela para que sua ida à praça seja autorizada. A mãe autoriza desde que eu a pegue e devolva antes das onze da noite, não sem antes dizer que seu avô teria que ser informado do passeio. Vou à casa de Bianca e, após uma conversa com seu avô, pego-a junto com seus dois irmãos ouvintes e os levo para a praça. Lá, nos sentamos à mesa de um dos quiosques. Eu havia convidado meus alunos, que haviam ido assistir a quadrilha, para participarem, se quisessem, e duas alunas minhas estavam conosco. O dado que é interessante surge na praça quando nos sentamos à mesa: a mudança de atitude de Bianca com relação a estar entre surdos e ouvintes. Nesse momento, me faz refletir que está surgindo em Bianca o sentimento de pertencer ao grupo dos surdos, de ter pares.

Este sentimento surgiu ao comparar seu comportamento atual com o do ano passado. Na comemoração do dia do surdo em Sumé (28/09/2011), nós fomos para a praça. Bianca estava na praça, mas passou pouco tempo entre nós. Ela ficava um pouco junto dos surdos

50 Os Surdos de Monteiro desistiram das viagens de uma cidade para outra. Bernardo, mais falta que frequenta, poucos foram os momentos em que estivemos na escola nos quais ele estivesse presente.

que vieram de Campina Grande para Sumé para uma palestra proferida pelas lideranças surdas de Campina, com a presença de autoridades locais e de Monteiro (estavam presentes o diretor do CDSA, a secretária de educação de Sumé, a coordenadora pedagógica, uma professora representado o diretor do IFPB- Monteiro51, entre professores e alunos do Campus de Sumé). Após o jantar ocorrido no restaurante da escola agrícola, os surdos campinenses e sumeenses se juntaram na praça para panfletar informes do movimento surdo nacional por escolas bilíngue e para distribuir fitas azuis com os transeuntes. No momento, os surdos de Campina contavam piadas e falavam de suas histórias pessoais e vivências na escola de Campina. Estavam na praça Ivo, Beto, Bernardo e mais um surdo que este ano não está matriculado na escola, porque trabalha no mesmo horário das aulas, e Bianca. Por todo o tempo que os surdos ficaram na praça, Bianca ficava um pouco observando os surdos, mas, ela ficava muito mais perto das primas. Observei que longe ela mantinha contato visual com tudo o que estava acontecendo. No entanto, era como se os desconhecidos não a deixassem à vontade.

Hoje, as primas chegaram na praça e sentaram perto de Bianca. Ela pediu para trocar de lugar, primeiro com Benício, depois com Beto . Diante da negativa dos dois, acabou trocando de lugar com uma das minhas alunas. O argumento dela foi de que as primas ficavam falando o tempo todo e que isso era muito cansativo, que ela queria estar perto dos surdos para conversar em língua de sinais (Diário de campo – 22/06/2012).

No momento, o episódio com Bianca nos faz pensar sobre a construção de uma identificação com o grupo dos Surdos. Antes, Bianca não tinha pares em sua vida para construir uma relação, agora tem. Em três meses de escola, suas escolhas são não apenas pela Libras, mas pelas histórias, piadas, contos de Surdos. Esse era nosso assunto. Em setembro de 2011, ela e as primas estavam no mesmo nível de desconhecimento da Libras, por isso, as primas eram seu porto seguro, o lugar conhecido e de conforto. A partir de março de 2012, Bianca passou a participar da escola bilíngue para surdos, e, em junho do mesmo ano, ela, com três meses de contato com a Libras e com a nova comunidade que se forma, relativiza a proximidade com as primas, preferindo estar junto dos Surdos.

Essa situação nos remete a Hall (1998) e sua proposição de falarmos de identidade cultural não como uma coisa acabada, mas como uma identificação, como um processo em andamento. Na direção do encontro com o outro que, de algum modo é semelhante a mim, é construído o sentimento de pertença. No caso dos surdos, a Libras é o elemento chave dessa identificação. Para o autor, são as

formas através das quais imaginamos como os outros nos veem as propulsoras da construção identitária, pois é na busca da inteireza e na fantasia da plenitude que buscamos costurar nossas relações.

Nesse processo de identificação, com o início da organização da comunidade surda, Bianca se vê a partir de outros olhos que não os dos ouvintes. O exercício diário da língua de sinais e o contato com seus pares surdos possibilita que do seu exterior, de fora para dentro, uma vez que se vê a partir dos olhos dos surdos, ela se percebe como surda.

A organização da comunidade surda também coloca Bianca no lugar de protagonista, ao invés de mera espectadora.

No episódio 2, registramos não apenas as impressões sobre Bianca, mas sobre outros surdos que participaram do desfile em comemoração a Independência do Brasil, como podemos ver a seguir: