Abordar gêneros jornalísticos em sala de aula consiste em abrir espaço para o conhecimento dos fatos e acontecimentos sociais que ocorrem diariamente nos diversos lugares e são pertinentes à vida das pessoas. Sozinho, este já é um argumento que justifica o jornal como excelente material didático para o desenvolvimento da leitura.
De acordo com Bonini (2011, p. 53),
O estudo dos Gêneros jornalísticos (bem como os demais gêneros que compõem o conjunto mais amplo das manifestações da comunicação de massa) apresenta uma grande relevância social. As pesquisas desse tipo trazem subsídios não só para a formação e a atuação profissional (de jornalistas e professores de línguas, por exemplo) como também para a educação e a formação do cidadão crítico e habilidoso no manejo de tais manifestações, já que toda a sociedade é afetada por elas.
São inúmeros os gêneros que pertencem ao domínio discursivo jornalístico, entretanto nos deteremos à notícia, que consiste em um dos focos trabalhados nesta proposta.
A notícia é um gênero jornalístico cuja finalidade é informar ao público um fato acontecido recentemente. O locutor é o jornalista / jornal e o destinatário é o público em geral. Apresenta, geralmente, uma estrutura padrão, composta de duas partes: o lead e o corpo. No lead deve constar a maior parte das informações essenciais sobre o fato ocorrido: o que, quem, quando, onde, como e por quê. No corpo são desenvolvidas as informações do lead. Apresenta um título curto e objetivo; podendo haver a presença de subtítulo(s). A linguagem é impessoal, objetiva, direta e segue a variedade padrão da língua. O suporte/veículo são jornais, revistas, sites, rádio e TV (CEREJA; MAGALHÃES, 2009).
No tocante à realização das atividades com o gênero notícia em sala de aula, Santos et al. (2012) reconhecem como essencial a atitude do professor em mostrar aos alunos os elementos básicos da notícia: manchete, título, subtítulo, lead, intertítulo e corpo do texto.
Além desses elementos comuns, é pertinente a abordagem de determinadas características presentes nas notícias, como a linguagem (referencial, predominando a 3ª pessoa); o nível de linguagem, que pode ser mais ou menos formal; manchete, título e subtítulo, os quais apresentam verbos quase sempre no presente do indicativo e na voz ativa, além dos raros sinais de pontuação, artigos, palavras avaliativas ou de opinião; lead, sempre conciso, direto, sintetizador das informações; frases geralmente na ordem direta; siglas seguidas de significado entre parênteses; nomes completos de pessoas desconhecidas, além da profissão e do cargo, que devem ser escritos entre vírgulas; ausência de comentários pessoais; discurso direto ou indireto, apresentando as opiniões ou versões dos envolvidos nos fatos, dando assim mais credibilidade à notícia (SANTOS et al., 2012).
Defendemos que a abordagem desses elementos estruturais, durante a leitura de notícias com os alunos, pode favorecer a compreensão dos textos, pois a presença de tais elementos é o que torna possível o cumprimento do propósito comunicativo ao qual o texto se destina. No
entanto, isso não deve ser feito de maneira que supervalorize a estrutura, sob pena de tirar o foco da leitura enquanto atividade prazerosa.
De acordo com Alves Filho (2011), faz-se necessário analisar essa estrutura com muita cautela, pois ela é bastante variável, uma vez que são produzidas por veículos de comunicação diversificados, ao mesmo tempo em que visam atingir públicos também diferentes.
Como a notícia é difundida em vários lugares e suportes (jornal impresso, televisão, rádio, revistas, entre muitos outros), ela se encontra muito próxima das pessoas, interferindo direta e indiretamente em sua vida cotidiana. Mesmo sem procurá-las, muitas vezes, as notícias invadem as casas, as escolas, os locais de trabalho, e isso as coloca como um gênero bastante presente (ALVES FILHO, 2011). Dessa forma, escolher a notícia como gênero textual a ser trabalhado em sala de aula é dar oportunidade ao aluno de exercer o seu direito de cidadão, lendo textos cujos fatos abordados sejam atuais e relevantes. Além disso, estamos trabalhando de maneira a promover o desenvolvimento da compreensão leitora dos alunos, o que constitui uma ação pertinente, porque além de ficarem informados sobre o que acontece na cidade, no estado, no país e até no mundo em que vivem, os alunos estarão construindo suas próprias identidades, seus pontos de vista, sua visão de mundo.
Como consequência desse trabalho, suas capacidades leitoras serão elevadas, porque não se trata de atividades mecânicas de leitura, realizadas no vazio, mas de atividades interativas, onde são levados em consideração os contextos nos quais esses fatos ocorrem, suas causas, suas consequências e o modo de interferência em suas/nossas vidas.
Outro aspecto importante que envolve o trabalho com esse gênero textual e que precisa ser considerado é o fato de as notícias, mesmo sob a chancela da neutralidade, estarem impregnadas de opiniões e ideias e servirem aos interesses de determinado grupo. Esse fato merece atenção especial por parte do professor, pois é necessário conduzir o aluno ao entendimento de que por traz da notícia existem fatores importantes que precisam ser considerados, como o perfil da empresa de comunicação, seus interesses sociais e financeiros, o público a quem elas se destinam, entre outros.
Referindo-se ao comportamento de quem produz as notícias, Alves Filho (2011, p. 99) informa que
De modo geral, as notícias reorganizam os fatos não na ordem cronológica em que eles ocorreram, mas numa ordem de relevância: aparece primeiro aquilo que os redatores consideram que os leitores avaliarão como mais surpreendente, ou inusitado, ou fantástico, em suma, com alguma grande importância. Este tipo de estruturação pode lançar dúvidas sobre a possibilidade de as notícias serem imparciais e inteiramente objetivas: se os fatos são reorganizados em uma ordem diferente da qual ocorreram, esta transformação pode incluir visões subjetivas e privilégio de uma informação em detrimento de outra.
Assim sendo, ao invés de constituir um empecilho na busca dos objetivos propostos, essa característica do gênero pode ser trabalhada de tal forma que os alunos compreendam as inúmeras maneiras de se organizar os textos, no caso específico, as notícias, dependendo dos vários sentidos que pretendemos dar a eles. Dessa forma, o que poderia ser visto como algo negativo, ao contrário, pode ser utilizado como um rico elemento a favor da compreensão leitora dos alunos, pois além de promover o entendimento propriamente dito, essa característica permite uma avaliação crítica do texto, dependendo da forma como o professor conduz a interação dos alunos com o texto.
Segundo Alves Filho (2011), o trabalho com a notícia em sala de aula exige algumas decisões e cuidados, como a escolha de textos dinâmicos e plurais, ao invés dos modelos formais, e a ênfase na relação entre texto e contexto, de maneira que a abordagem pedagógica seja sensível ao gênero. No tocante a essa seleção, o autor destaca a relevância de alguns critérios, como perfil dos leitores, função comunicativa, temática e eventos deflagradores. O
autor acrescenta que “[...] todo gênero é um universo gigantesco, levá-lo para a sala de aula
requer sempre decidir quais exemplares escolher e sob que critérios – os alunos podem inclusive ajudar os professores a tomar estas decisões” (ALVES FILHO, 2011, p. 109).
Faz-se necessário priorizar, nesse trabalho com a leitura de notícias, o respeito às características contextuais, interativas, funcionais e formais do gênero. Dessa forma, Alves Filho (2011) defende que as atividades reconstituam os propósitos comunicativos dos textos; identifique o fato relevante/recente relatado e aprecie as razões pelas quais ele foi escolhido; reconheça e aprecie os recursos utilizados na obtenção da sua credibilidade; analise a função das fotografias, além da forma como o aluno se coloca em relação ao ponto de vista das vozes sociais presentes no texto.
A forma como o gênero notícia é produzido e colocado em funcionamento na imprensa do Brasil deve servir de guia à proposta de trabalho em sala de aula. Realizado dessa forma, este trabalho desenvolve a capacidade dos alunos em utilizarem a notícia nas situações reais da vida social, ampliando suas habilidades, em especial, a sua compreensão leitora.
2.8 AS SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS EM GÊNEROS: FUNDAMENTOS
Como esta proposta de intervenção organiza-se a partir de um planejamento, escolhemos as sequências didáticas como recurso para desenvolver o trabalho pedagógico, haja vista que essa metodologia possibilita a realização de atividades práticas organizadas, através
do encadeamento de passos definidos, os quais favorecem a aprendizagem de forma gradativa e aprofundada, tornando mais eficiente o processo de aprender.
Segundo Dolz; Noverraz; Schneuwly (2004, p. 82), “Uma ‘sequência didática’ é um conjunto de atividades escolares organizadas de maneira sistemática, em torno de um gênero
textual oral ou escrito”. Para os autores, esses procedimentos têm o objetivo preciso de conduzir
o aluno a uma melhor aprendizagem, ou seja, ao domínio de um determinado gênero textual, dando possibilidade ao aluno de sobressair-se adequadamente nas situações de comunicação, seja na fala ou na escrita. O objetivo principal de um trabalho dessa natureza, na concepção dos autores, consiste em proporcionar ao estudante a realização de tarefas e etapas essenciais, especialmente, na produção de um gênero.
No tocante a esse trabalho com os gêneros através de sequências didáticas, a proposta de Bronckart (2012) defende a legitimidade dos textos enquanto objetos de estudo e a prática de análise das formas de organização textual como uma metodologia eficaz na resolução de grande parte dos problemas relacionados à língua. O autor sugere a sequência didática realizada a partir de gêneros, dada a importância social e comunicativa que esses instrumentos exercem na vida das pessoas, adaptando-se às mais diversas situações de uso da língua. A SD sugerida pelo autor encontra-se organizada em quatro fases, na seguinte ordem: a) elaboração de um modelo didático; b) identificação das capacidades adquiridas; c) elaboração e condução das atividades de produção; d) avaliação das novas capacidades adquiridas.
Na elaboração de um modelo didático (1ª fase), primeiro seleciona-se um gênero e o adapta aos conhecimentos dos alunos; depois se faz um estudo sobre as características desse gênero, analisando como é a sua estrutura, de que formas ele se realiza, em que situações é usado, além das mudanças que ocorrem com o mesmo, dependendo dos contextos de uso (BRONCKART, 2012). Trabalhado dessa forma, esse modelo determina três categorias de objetivos de ensino: analisar as atividades discursivas; operar com as sequências típicas (tipos textuais) e dominar o mecanismo linguístico.
A análise das atividades discursivas ocupa-se dos motivos que levaram à escolha de um determinado gênero, à reflexão sobre quem o produziu, quais as intenções dos interlocutores, quais saberes foram acionados para a produção, além de analisar os elementos estruturais e convencionais do gênero (suporte, situação de produção, linguagem, entre outros). A operação com os tipos de texto é uma categoria voltada para a composição e sequência organizacional do texto: argumentação, exposição, narração, por exemplo. Já o domínio dos mecanismos linguísticos estuda os elementos da sintaxe, da morfologia e do léxico, preocupando-se também com os elementos coesivos e com a coerência textual.
No tocante à identificação das capacidades adquiridas (2ª fase da SD), verifica-se se os alunos apreenderam as habilidades referentes às ações discursivas, tipológicas e linguístico- textuais trabalhadas na 1ª fase.
A 3ª fase (elaboração e condução das atividades de produção) sugere o exercício de produção de gêneros, após serem identificadas as capacidades relacionadas aos gêneros escolhidos, dando condições específicas aos alunos, conforme as análises feitas nas fases I e II. Finalmente, nesta 3ª fase, são elaborados os módulos de SD.
Quanto à avaliação das novas capacidades adquiridas (4ª fase), esta consiste na análise das produções textuais dos alunos. Vale salientar, também, que é necessário que haja retorno dos resultados aos alunos para possam dar prosseguimento às atividades, envolvendo também outros gêneros (BRONCKART, 2012).