1 Generelt om hengebroer
1.2 Hengebroers oppbygning
Após todos esses estudos e reflexões posso dizer que, ao me apresentar aquelas músicas neonazistas, parece-me que Ingo estava realmente querendo me mostrar o modo de funcionamento primordial de sua família e, em grande medida, dele próprio. Tudo que foi exposto sobre a maneira nazista-fascista de enxergar o mundo coincide com o modo como Ingo, fazendo coro à sua família, experienciava a vida.
Dizer isso não significa afirmar que eles sairiam matando estrangeiros ou qualquer outro tipo de minoria pelo mundo afora, provavelmente nunca cheguem a isso. Significa perceber que, em um mundo em que só os extremos são toleráveis, é muito fácil se identificar com um discurso que separe tão rigorosamente o bem do mal e o potente do impotente. Relativizar esses conceitos implicaria em uma passagem subjetiva insuportável, tudo ficaria confuso, confuso demais...
MONEY-KYRLE ([1960] 1996) afirma que todos os seres humanos, de maneira mais ou menos rígida, formam sistemas de classificação para organizar a realidade. Separamos os objetos e as experiências de acordo suas semelhanças e diferenças aparentes e, a partir destas, pensamos em termos de bem ou mau. No entanto, a vida frequentemente, “bagunça as cartas”, a respeito dessas situações, o autor escreve:
O que acontece muito então irá depender tanto da extensão da revisão necessária como da estabilidade da pessoa interessada. Mas se a revisão necessária for total, não poderá ser feita sem passar por um intervalo entre o colapso do antigo sistema e a construção do novo, que
116
é sempre dolorosamente confuso e, em casos extremos, caracterizado por um tipo de pânico intelectual. Assim, podemos preferir ignorar essas novas evidências, que contrariam os sistemas de crenças que aceitamos, a enfrentar esse sofrimento confusional, essa regressão a um estado que eu diria ser um dos mais dolorosos da infância (p.376).
Como já disse anteriormente, no início do trabalho com Ingo, fui reconhecida por ele e por sua família como uma igual, alguém que partilhava a mesma visão de mundo e, por suposição, dos mesmos valores. No entanto, ao solicitar a avaliação psiquiátrica, revelei a eles uma faceta insuportável de mim mesma: a impotência. Desse modo, passei de alguém totalmente potente, que daria conta sozinha das questões de Ingo, para alguém totalmente impotente, absolutamente incapaz de tratá-lo. Restava a eles encontrar um substituto para mim, alguém potente de verdade, um homem possuidor de “poções mágicas” para tratar Ingo, no caso, o psiquiatra.
Olhando para trás, vejo que grande parte das minhas atuações, principalmente na sessão final com Ingo, provinha de não suportar ser colocada nesse lugar de impotência absoluta. Fui golpeada no meu narcisismo, não me senti nem um pouco confortável no lugar de “outro desprezível”, de “raça inferior” ou, no final de tudo, de “maluca odiosa” – fazendo analogia ao olhar nazista para o estrangeiro – e me perdi.
Em seu livro Escrever a clínica, o psicanalista Renato Mezan, comentando o trabalho de outra psicanalista (Nicole Berry) com uma paciente difícil, escreve:
A experiência de tratar dessa paciente deve ter sido extremamente difícil, é evidente. Difícil quer dizer aqui uma sensação depressiva de fracasso (...) e a reação a essa vivência depressiva, que pode assumir a forma de um sentimento de raiva, de irritação, ou então de culpa onipotente (...) (MEZAN, 1998, p.235).
Eram exatamente esses sentimentos que me habitavam, sensação de fracasso, revolta e culpa. Hoje, mais distanciada, vejo que uma culpa provinda da onipotência, de não reconhecer que temos limites, tanto no que se refere às fronteiras estabelecidas pelo outro (no caso, Ingo e sua família) que definem até onde é possível avançar, como no que se refere aos nossos limites pessoais que também estabelecem fronteiras de até onde podemos prosseguir.
117
Talvez pudesse ter sido diferente, mas, mesmo se fosse o caso, a história terminou do jeito que terminou, não sendo possível voltar atrás. No entanto, pensar sobre ela, estudá-la é, em alguma medida, uma maneira de dar outro desfecho para tudo isso.
Confesso que precisei de muito trabalho psíquico para não colocar Ingo e sua família no lugar do mal absoluto ou mesmo no lugar dos “loucos odiosos”, o movimento natural seria mesmo esse, o que talvez me proporcionasse uma posição bastante confortável, porém não muito verdadeira. Além disso, ao agir desse modo estaria eu impossibilitada de pensar e me orientando por valores extremos. A esse respeito, SÉMELIN (2009) escreve:
Buscando a tranquilidade, preferimos que as coisas sejam claras, bem definidas. Tal convicção se torna mais poderosa, pois se origina diretamente na infância, onde imperavam – acreditávamos piamente nisso – os bons e os maus. Mas não é exatamente como se comportam os seres humanos (SÉMELIN, 2009, p.392).
Assim, todo esse trabalho de digestão psíquica, essas muitas páginas de elaboração me fazem ser grata a Ingo e à sua família por tudo que eles me fizeram experienciar, sentir e pensar, mesmo que o desfecho dos nossos encontros tenha sido bastante difícil. No final de tudo, Ingo me ofereceu um escudo para me proteger – ele sabia que eu estava me sentindo muito ameaçada – sou grata ao escudo, mas prefiro continuar acreditando nos encontros humanos, aberta ao crescimento que pode advir deles.
Espero também que alguma transformação tenha ocorrido em Ingo e em sua família a partir do nosso trabalho, que os tenha possibilitado uma vida mais integrada, vivida de peito aberto e sem tanto sofrimento. Porém, não tenho como saber dos desdobramentos – como já disse antes, nunca mais tive notícias de Ingo.
118
REFERÊNCIAS UTILIZADAS
AUSTER, Paul. A invenção da solidão. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
BARANGER, Madeleine & BARANGER, Willy. (1961-1962) La situación analítica
como campo dinámico. In: Problemas del Campo Psicoanalítico. Buenos Aires: Ediciones Kargieman, 1969, pp.129-164.
BASS, Alan. Difference and Disavowal – The Trauma of Eros. Stanford: Stanford
University Press, 2000.
BIRMAN, Joel. Relançando os Dados: a Psicopatologia na Pós-Modernidade,
Novamente. In: O (im) possível diálogo psicanálise psiquiatria (Maria Lucia V. Violante – org). São Paulo: Via Lettera, 2002, pp.47-63.
CESAR, Fátima Flórido. Asas Presas no Sótão: Psicanálise dos Casos
Intratáveis. Aparecida: Ideias & Letras, 2009.
CINTRA, Elisa M. de Ulhoa & FIGUEIREDO, Luís Claudio. Melanie Klein – Estilo e Pensamento. São Paulo: Editora Escuta, 2004.
COUTO, Mia. Antes de nascer o mundo. São Paulo: Companhia das Letras,
2009.
COSTA, Jurandir Freire. A psicanálise e o sujeito cerebral. In: O risco de cada um e
outros ensaios de psicanálise e cultura. Rio de Janeiro: Garamond, 2007, pp. 17-
38.
CYSSAU, Catherine. Fonctions Théoriques du Cas Clinique. De la Construction
Singulière à l‟exemple sériel. In: Le cas en Controverse – Monographies de
Psychopathologie (P.Fédida & D. Wildlöcher – directeurs). Paris: Presses Universitaires de Frances, 1999, pp.59-81.
FERRO, Antonino. O Après-Coup e a Cegonha: Campo Analítico e Pensamento
Onírico. In: Fatores de Doença, Fatores de Cura – Gênese do Sofrimento e da Cura Psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago, 2005, pp.71-77.
119
______, ________. O analista trabalhando: quatro sessões com Lisa. In: Livro
Anual de Psicanálise, Vol.XXI. São Paulo: Editora Escuta, 2008, pp.93-101.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio. A questão da alteridade nos processos de subjetivação e
o tema do estrangeiro. In: O estrangeiro. (Caterina Coltai – org). São Paulo: Editora Escuta, 1998, pp. 61-76.
___________, ___________ . Elementos para a Clínica Contemporânea. São Paulo:
Editora Escuta, 2003.
___________, ___________ . A Metapsicologia do Cuidado. In: As Diversas Faces do
Cuidar: Novos Ensaios de Psicanálise Contemporânea. São Paulo: Editora Escuta,
2009, pp.131-152.
GORAYEB, Raul. Subjetividade ou objetivação do sujeito? In: O (im) possível diálogo
psicanálise psiquiatria (Maria Lucia V. Violante – org). São Paulo: Via Lettera, 2002, pp.139-164.
GREEN, André. (1980) A mãe morta. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte.
São Paulo: Editora Escuta, 1988, pp. 239-273.
HEINMANN, Paula. (1950) On Counter-Transference. In: International Journal of
Psycho-analysis, 31, pp.81-84.
HITLER, Adolf. (1941) A campanha de Socorro do Inverno (transcrição de discurso).
In: Discursos que mudaram o mundo. São Paulo: Folha de São Paulo, 2010, pp. 42-43.
KLEIN, Melanie. (1946) Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Inveja
e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963) – Volume III das obras completas de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991, pp.20-43.
_____, _______. (1948) Sobre a teoria da ansiedade e culpa. In: Os progressos da
120
_____, _______. (1957) Inveja e Gratidão. In: Inveja e Gratidão e outros
trabalhos (1946-1963) – Volume III das obras completas de Melanie Klein.
Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991, pp.205-267.
_____, _______. (1960) Sobre a saúde mental. In: Inveja e Gratidão e outros
trabalhos (1946-1963) – Volume III das obras completas de Melanie Klein.
Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991, pp. 306-312.
KRISTEVA, Julia. O Gênio Feminino – A vida, a loucura, as palavras – Tomo II: Melanie Klein. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002.
LLOPIS-SALVAN, Nicole. L‟écriture en psychanalyse: une abréaction du traumatisme de la cure? In: Revue Française de Psychanalyse – Écrire la psychanalyse 2. Paris:
Tome LXXIV – Avril, 2010, pp.453-466.
MENEZES, Luís Carlos. As Depressões: a Psicanálise em Questão In: O (im) possível
diálogo psicanálise psiquiatria (Maria Lucia V. Violante – org). São Paulo: Via Lettera, 2002, pp.65-79.
MEZAN, Renato. Escrever a clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.
MODELL, Arnold H. The dead mother syndrome and the reconstruction of trauma. In:
The Dead Mother – the work of André Green. London: Routledge, 1999, pp.76-86.
MONEY-KYRLE, Roger. (1934) Uma análise psicológica das causas da guerra. In:
Obra selecionada de Roger Money-Kyrle. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996, pp.148-154.
_____________, _______. (1937). O desenvolvimento da guerra – uma abordagem psicológica. In: Obra selecionada de Roger Money-Kyrle. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996, pp.155-175.
_____________, _______. (1951) Alguns aspectos do estado e do caráter na
Alemanha. In: Obra selecionada de Roger Money-Kyrle. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996, pp.250-264.
121
_____________, _______. (1960) Sobre o preconceito: uma abordagem psicanalítica.
In: Obra selecionada de Roger Money-Kyrle. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996, pp.370-377.
MORAES, Vinicius de. Da Solidão. In: Para viver um grande amor –crônicas e poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
OGDEN, Thomas. On the concept of an autistic-contiguous position. International
Review of Psycho-Analysis. V. 70, 1989, pp.127-140.
_______, ______. Subjects of Analysis. New York: Rowman & Littlefield
Publishers, 1994.
PEREIRA, Mário Eduardo Costa. Genética e Subjetividade: o Paradigma dos Estados
Maníaco-Depressivos In: O (im) possível diálogo psicanálise psiquiatria (Maria Lucia V. Violante – org). São Paulo: Via Lettera, 2002, pp.127-138.
PONTALIS, J.-B. (1988) Não, duas vezes não. In: Perder de Vista – Da fantasia de recuperação do objeto perdido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1991,
pp.54-73.
RACKER, Heinrich. (1953/57) The Meanings and Uses of Countertransference.
Essential Papers on Coutertransference (B Wolstein – org). New York, University Press, 1988, pp.158-201.
ROSENFELD, Herbert. Impasse e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1988.
SEARLES, Harold. (1973) Le patient, thérapeute de son analyste. In: Le contre-
transfert. Paris: Éditions Gallimard, 1981, pp. 69-151.
SÉMELIN, Jacques. Purificar e Destruir – Usos políticos dos massacres e genocídios. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
SPILLIUS, Elizabeth Bott. Evolução do pensamento kleniano: revisão geral e
visão pessoal. In: Uma visão da evolução clínica kleiniana – da antropologia à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2006, pp.99-136.
122
STEINER, John. Refúgios Psíquicos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1997.
TUSTIN, Frances. Autistic Objects. International Review of Psycho-Analysis. V. 7,
n. 27, 1980, pp. 27-39.
_______, _______. Autistic Shapes. International Review of Psycho-Analysis. V. 11,
1984, pp. 279-290.
VITTORINI, Elio. (1945) Homens e não. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
WASKA, Robert. Primitive Experience of Loss – Working with the Paranoid- Schizoid Patient. London: Karnac Books, 2002.
ZYGOURIS, Radmila. De alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo. In: O
estrangeiro (Caterina Coltai – org). São Paulo: Editora Escuta, 1998, pp.195-210.
_________, _______. O autóctone. In Pulsões de Vida. São Paulo: Editora Escuta,