4. Analyse og diskusjon
4.1 Hvorfor samarbeide med opinionsledere?
4.1.1 Henge med i medieutviklingen
Figura 01: Nikolai Gógol
Fonte: https://londonbygaslight.wordpress.com/category/authors/nikolai-gogol/
Falar de Gógol é falar da sociedade russa, da política e da cultura. O poeta teve uma vida breve e criou textos que marcaram a história da literatura russa. Segundo Gatto (1958),
“Considerado habitualmente como o primeiro autêntico representante do realismo narrativo russo, ou, segundo uma expressão corrente na crítica russa, como ‘chefe da fila’ da chamada ‘escola natural” (GATTO, 1958, p. 167). Sobre a data de nascimento do autor, existem algumas polêmicas11. Segundo Arlete Cavaliere, no texto intitulado O teatro de Gógol: tradição e modernidade (2009), “Nascido a 20 de março de 1809 (1º de abril segundo o calendário gregoriano) em Sorotchinstsy, na província de Poltava, na Ucrânia (...)” (CAVALIERE apud GÓGOL, 2009, p. 9). Gógol herdou da mãe o apreço pela religião e, muitas vezes, em suas crises de depressão, quando necessitava de uma aproximação maior com os aspectos religiosos, retornava para o interior, onde a mãe morava. As reflexões sobre temas religiosos vão aparecer diversas vezes na obra do dramaturgo. O pai era apreciador das artes, principalmente no que se refere à comédia e, chegou a dirigir um teatro, a pedido de um amigo da família, exercendo, por isso, grande influência nos gostos artísticos do dramaturgo. Nesse período, Gógol acompanhava o pai nos ensaios, esse pode ser considerado o contato inicial do dramaturgo com a arte dramática.
Entre os anos de 1821 e 1828, cursou o liceu em Néjin, onde era um aluno mediano e não obteve muito destaque. Nessa fase, sofreu algumas crises de depressão, momentos nos quais voltava para junto da mãe, no campo. No liceu, o dramaturgo “chegou a organizar inúmeras representações teatrais, nelas atuando como ator, sobretudo em peças cômicas de Molière e de Fonvísin, como também nas de autoria do próprio pai” (CAVALIERE in GÓGOL, 2009, p. 10). Além de atuar, Gogol também trabalhou na elaboração da cenografia desses espetáculos, ou seja, o dramaturgo, em suas experiências iniciais com a arte dramática, trabalhou em diferentes aspectos da produção de um espetáculo, o que certamente lhe trouxe conhecimento para suas experiências futuras com a dramaturgia e com a percepção do texto cênico.
Sobre a relação do dramaturgo com o pai, Cavaliere (2009) comenta:
[...] teria legado ao jovem rapaz o dom da observação cômica e do contador de histórias engraçadas. De fato, ele escreveu, em língua ucraniana, várias comédias anedóticas e de humor leve, fazendo largo uso de provérbios e jogos de palavras. Muitas delas eram operetas dramáticas inspiradas no pitoresco regional, em que se entrelaçam riso e lágrimas por meio de canções variadas, possibilitando um desfecho feliz aos frequentes amores impossíveis (CAVALIERE in GÓGOL, 2009, p. 10). Seu pai morre em 1825 e, após doar sua parte da herança para a mãe e as quatro irmãs, Gógol muda-se para São Petersburgo em 1828 (CAVALIERE in GÓGOL, 2009, p. 10).
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Sobre sua data de nascimento, Gatto (1958) observa: “Nicolau Vasilievitch Gogol nasceu em Sorotchintsy (distrito de Mirgorod no governo de Poltava) em 19 (ou 20) de Março de 1809” (GATTO, 1959, p.170).
Segundo Gatto (1958), foi nesse período que o autor começou a escrever. Suas primeiras obras não obtiveram sucesso, o que o levou a pensar em abandonar a Rússia. Nesse período, trabalha sem obter êxito como funcionário em algumas repartições públicas e depois como professor de História na Universidade de São Petersburgo. Não obtém sucesso nas suas tentativas de seguir a carreira de ator, sendo reprovado em testes. Em 1831, o autor conhece o Púchkin, poeta significativo do período e que exercerá grande influência sobre a vida e a obra de Gógol. Ainda neste ano, “[...] foi assinalado pelo êxito que lhe trouxera a publicação do primeiro volume de contos ucranianos Os serões na herdade de Dikanka, em 1831, seguido um ano depois pelo segundo volume” (GATTO, 1958, p. 170).
Em 1835, Gógol escreveu, em poucas semanas, sua primeira peça12, O Inspetor Geral, por meio da qual aponta aspectos da sociedade russa com um caráter acusatório de sátira político-social. A peça é aclamada por uns e recebida com indignação por outros. Conta o enredo que, com a notícia da visita de um inspetor geral a um pequeno vilarejo, seus principais funcionários entram em pânico. Dessa forma, o governador, o juiz, o diretor dos hospitais, o chefe das escolas, dentre outros representantes públicos, confabulam a melhor forma de receber o visitante e dissuadi-lo de qualquer inspeção. A peça levou muitos a acreditar que Gógol era um contestador do Estado russo, devido ao cunho político de sua obra. Após a estreia, o autor, sentindo-se pressionado pela polêmica que o circulava, afastou- se da Rússia por alguns anos.
O Inspetor Geral até hoje é considerada pelos críticos a grande obra dramatúrgica do escritor. Como um produto artístico, o texto contém em si um valor revolucionário, uma vez que problematiza aspectos da sociedade de seu tempo, negando com veemência antigos valores e com uma grande capacidade de transcender as normas estabelecidas, de questioná- las e de colocá-las à prova. Os temas, tais como corrupção, pagamento de propinas, abuso de poder, entre outros, são levantados para retratar a sociedade russa. Tais assuntos transpuseram as barreiras do tempo, tornando-se atuais, devido às críticas a setores da sociedade que ainda apresentam problemas similares aos retratados por Gógol no século XIX.
Ainda no ano de 1835, Gógol escreve sua segunda peça, O Casamento, que se passa em São Petersburgo e, curiosamente, não aborda nenhum tema romântico, ou trata do amor. Aliás, esse é um tema que raramente é abordado pelo dramaturgo na extensão de sua obra.
12 Gógol não produziu apenas peças de teatro, se dedicou a escrever romances, contos, bem como textos teóricos
sobre teatro. Almas mortas (1836), Taras bulba (1835), O nariz (1835), O capote (1840) são algumas das obras literárias do dramaturgo russo que obtiveram maior destaque, juntamente com O inspetor geral. A presente pesquisa se refere ao estudo das obras dramatúrgicas do autor e, justamente por isso, ao fazer uma análise das suas obras, não foram abordados os demais gêneros abarcados pelo referido autor em sua produção artística.
Segundo Cavaliere (2009), isso pode ter origem na própria realidade do autor, que nunca se casou e supostamente não teria tido um grande amor na vida. O subtítulo da peça, Um acontecimento absolutamente inverossímil em dois atos, já aponta para o universo absurdo que será criado pelo escritor na intenção de contar a história de Podkolióssin, um rapaz à procura de uma noiva, que recebe a ajuda do amigo Kotchkarióv nesta difícil missão. Apesar da busca por uma noiva ser, aparentemente, um assunto que envolve a temática amorosa, a peça de Gógol retrata apenas o jogo de interesses existente na institucionalização de um casamento. Não existe entre os noivos qualquer preocupação pelo sentimento, e sim pelo que cada um pode trazer de benefícios ao outro. Dentro do universo da narrativa, há uma moça que também está à procura de um noivo e encontra em uma amiga, conselheira e ajudante, apoio nessa busca. A relação entre Podkolióssin e Kotchkarióv demonstra um recurso narrativo recorrente em Gógol: o par de trapaceiros que comumente aparece em suas obras dramatúrgicas. Como é o caso de O inspetor geral, onde Piótr Ivánovitch Dóbtchinski e Piótr Ivánovitch Bóbtchinski, também formam um par de trapaceiros que vão tentar tirar vantagens do suposto inspetor, a mando do prefeito. Essa ideia de par, de parceiros, se configura como uma antecipação da modernidade e do afunilamento do diálogo, como em Samuel Beckett e em Harold Pinter. Alex Beigui, em seu artigo Androginia e indeterminação do sujeito em Samuel Beckett (2007), afirma que: “Tais pares, e chamamos aqui de duplos, assinalam a interdependência entre vários ‘eus’ dissonantes, sem necessariamente precisar os pontos de afastamento que os separa e de articulação que os liga13” (BEIGUI, 2007, n.p.). Esses duplos se configuram em Gógol como o cômico, em sua forma ingênua. Esses personagens das peças gogoliana são facilmente mandados e manipulados pelos seus superiores, visto que sua esperteza é meramente superficial.
Ainda sobre O casamento, Gatto (1958) afirma: “O problema da inverossimilhança tinha para ele, como se verifica, diversos sentidos, pois no Casamento trata-se de facto [sic] da ‘inverossimilhança’ relativa de um acontecimento da vida” (GATTO, 1958, p. 177). Gatto (1958) compara a inverossimilhança de O casamento à de O inspetor geral e, segundo ele: “inverossímil por assim se poderem considerar algumas situações que em termos modernos diríamos grotescas” (p. 77). O que Gógol faz magistralmente em sua obra é potencializar um fato de forma que se torne, de maneira geral, uma visão ampliada das ações da vida real. Para
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BEIGUI, Alex. Androginia e indeterminação do sujeito em Samuel Beckett. XI Encontro Regional da ABRALINC. Natal, 2007, n.p. Disponível em: http://andrelg.pro.br/COMUNICACOES-ABRALIC.html. Acesso em: 21 out. 2015.
a estudiosa do teatro russo Béatrice Picon-Valin (1980), a obra do dramaturgo explora dualismos, haja vista que:
Assim, o famoso ‘riso através de lágrimas’ que caracteriza Gogol se justifica como técnica de base, artifício hábil, e não como ‘estado de alma’. É na passagem do riso ao sério, da tristeza ao riso, um contaminando o outro, na alternância de detalhes cômicos e trágicos, em longa enumeração ou interrompida por um fim brutal, que se encontra a estrutura do estilo gogoliano (PICON-VALIN, 1980, p. 335, tradução nossa14).
De forma singular, tais questões podem ser encontradas em todas as obras do dramaturgo. Um aspecto importante é que o autor se coloca dentro da obra, utiliza seu texto para responder às críticas feitas a sua escrita e aos temas abordados por ele. Para questionar o sentido do riso e para falar diretamente ao espectador, ele não se isenta da discussão gerada por suas obras, ao contrário, ele se coloca dentro de algumas delas, enquanto personagem, para responder às críticas. Parece que um “riso de canto de boca”, ou seja, um “riso através de lágrimas” é provocado no leitor/espectador que, levado por essas questões, ri ao se reconhecer na obra gogoliana, ou mesmo a reconhecer a realidade em que vive, suas próprias falhas e as falhas daqueles que estão no poder, levados à cena de forma cômica, debochada. Aplicar-se-á a essas concepções, o conceito de escrita performática, que será abordado no terceiro capítulo desta tese, em que o autor/performer é esse autor que se insere na obra e que, se utiliza dela, para se aproximar e, desta forma, aproximar também suas ideias, do leitor/espectador.
Em À Saída do Teatro Após a Representação de uma Nova Comédia, escrita em 1836, o dramaturgo discute as principais críticas feitas à peça O Inspetor Geral. A metalinguagem ou, mais especificamente, a metadramaturgia, no sentido que atribuiremos na discussão do segundo capítulo desta tese, está presente em todo o texto, tendo em vista que os diálogos desenvolvidos por Gógol discutem os objetivos da arte teatral e a maneira com que esta se relaciona com o espectador.
A peça termina com um monólogo do personagem “O autor da peça”, que nos apresenta as angústias e as crises do próprio Gógol não só com relação aos comentários que sua peça gerou na sociedade petersburguesa, como também suas angústias com relação à própria vida e aos rumos de sua obra. No início do monólogo, já se nota a insatisfação do personagem “O Autor da Peça” com os comentários que ouviu durante a saída do público que estava assistindo ao espetáculo, “Eu ouvi bem mais do que podia suportar. Que grande
14 “C’est ainsi que le fameux ‘rire à travers lês larmes’ qui caractérise Gogol’ se justifie comme technique de
base, artífice habile, et non comme ‘état d’âme’. C’est dans le passage du rire au sérieux, de la tristesse au rire, l’um contaminant l’autre, dans l’alternance de détails comiques et tragiques, em longue énumération ou interrompue par une fin brutale, que se trove la struture du style gogolien” (PICON-VALIN, 1980, p. 335).
amontoado de asneiras! Feliz o autor de comédias que nasceu numa nação onde a sociedade não se fundiu ainda, de modo a formar uma massa imóvel” (GÓGOL, 2009, p. 375). Neste sentido, Gógol consegue expor sua concepção em relação à sua própria dramaturgia, suas dúvidas, seus erros como escritor que ainda trilhava um caminho. Dito isto, pode-se afirmar que o autor gera uma “escrita performática” em processo, onde suas reflexões prefiguram como ponto central de sua obra.
Em 1842, escreveu a versão final de À Saída do Teatro Após a Representação de uma Nova Comédia e a obra Os Jogadores, sendo esta última uma comédia de um ato, com um texto ágil por meio da qual o autor apresenta uma história de trapaças, sucessos e insucessos entre os jogadores de baralho. O inspetor geral é a maior obra dramatúrgica de Gógol, as demais são pequenas, uma delas chegando a ter apenas treze páginas, como é o caso de Desenlace de O inspetor geral. Calvino (1991) explora o aspecto da “velocidade” com um paradigma apontando como pressuposto da contemporaneidade. No capítulo denominado Candide ou a velocidade, na obra Por que ler os clássicos (1991), Calvino destaca a importância do ritmo em uma obra, principalmente quando esta obra é cômica. Segundo o autor:
A grande descoberta do Voltaire humorista é a que se tornará um dos efeitos mais seguros do cinema cômico: a acumulação de desastres a grande velocidade. E não faltam as repentinas acelerações de ritmo que levam ao paroxismo o sentido do absurdo: quando a série de desventuras já velozmente contadas na sua exposição ‘por extenso’ é repetida num resumo rapidíssimo (CALVINO, 1991, p. 102). Gógol apresenta em suas peças uma sequência de ações rápidas. O autor não se dedica a poetizar ou a filosofar sobre determinada questão, alongando as discussões suscitadas em suas peças. As obras do dramaturgo russo apresentam um encadeamento de fatos, em rápida sequência, e que vão compondo um quadro cômico.
Os Jogadores se passa em uma hospedaria de uma cidade pequena onde Ikharióv, um jogador de cartas profissional, é iludido por um bando de vigaristas que ele acreditava ter enganado. Assim como nas demais peças de Gógol, os tipos trapaceiros também estão presentes. Essa obra gogoliana foi considerada pelos críticos como “síntese do seu processo criativo teatral e, em certo sentido, de toda a sua cosmogonia artística” (CAVALIERE in GÓGOL, 2009, p. 28). Existe nas peças de Gógol uma tendência de síntese e de encurtamento antecipado da obra. A elaboração de peças curtas e que têm um desencadeamento de ações em um breve período de tempo pode ser apontada como um dos principais indícios desta característica sintética da obra gogoliana.
Ainda sobre Os Jogadores, é válido ressaltar que não há nenhum personagem feminino. A única referência feita à figura da mulher é o nome atribuído a um baralho, “Adelaída Ivánovna”, a quem o personagem Ikharióv tem verdadeira devoção, pois através deste baralho, ele consegue adivinhar as cartas dos adversários. Em determinadas cenas, ele chega a dialogar com o baralho, ao depositar nele a esperança de ganhos futuros.
A seguir, em 1846, escreveu sua última peça: Desenlace de O Inspetor Geral, na qual faz uso de um diálogo intrateatral, em que são expostas suas posições referentes ao teatro e ao próprio sentido do riso, da comédia e da metalinguagem. Assim como o faz em À Saída do Teatro Após a Representação de uma Nova Comédia, “O Autor da Peça”, personagem de tal texto, afirma que:
Não, são aplausos que eu queria para este momento: eu queria, neste exato instante, transportar-me para o palco, para a galeria, para uma poltrona, para a arquibancada. Estar em todas as partes, ouvir todas as opiniões e impressões enquanto ainda são puras e frescas, enquanto ainda não foram submetidas ao bom senso e às apreciações dos críticos e dos jornalistas, enquanto cada pessoa está somente sob a influência de seus próprios critérios. Isso é importante para mim: eu sou um autor de comédias. Todas as outras obras e gêneros estão sujeitos ao julgamento de uns poucos. Um autor de comédias está sujeito ao julgamento de todos; sobre ele qualquer espectador tem direitos, qualquer desclassificado põe-se a julgá-lo. Oh! Como eu gostaria que me mostrassem todos os meus defeitos e vícios (GÓGOL, 2009, p. 335).
Nesse fragmento da obra, fica clara a importância que Gógol dava às críticas geradas por suas peças, principalmente no que se refere à O inspetor geral, assim como ele também aponta as responsabilidades e os julgamentos a que um autor de comédias está exposto. No monólogo final, esse mesmo personagem explica:
Não, é injusto dizer que o riso causa indignação. O riso causa indignação somente porque ele ilumina o que estava na escuridão. Muitas coisas deixariam o homem indignado se fossem retratadas sem disfarces. Mas o poder iluminado do riso torna a alma mais serena. E assim, aquele que desejariam vingar-se de um homem mau acabariam por querer fazer as pazes com ele, ao ver ridicularizados os seus torpes pensamentos. É injusto que digam que o riso não age contra aqueles aos quais se lança, e que o canalha será o primeiro a rir dos canalhas iguais a ele, representados no palco. Aquele que já foi um trapaceiro no passado poderá rir, mas aquele que o é hoje não terá forças para isso! Ele saberá que essa personagem que o representa ficará gravada na memória de todos, e que bastará ele cometer uma ação vil para que o apelidem com o nome dela. Pois a zombaria causa temor até mesmo naquele que não teme nada nesse mundo (GÓGOL, 2009, p. 376).
O oficio de comediante é abordado por Gógol não de forma leve e descontraída, pelo contrário, o autor aborda o tema de forma pesada, considerando a comédia como uma arma para expor as artimanhas de um trapaceiro, por isso, muitas vezes é utilizada a expressão “um riso entre lágrimas” para definir a obra do autor. Segundo as falas do personagem, a comédia
e a “zombaria” são capazes de causar temor nas pessoas, uma vez que seus defeitos e truques são expostos e ridicularizados.
A metalinguagem, empregada nas peças de Gógol, traz ao espectador as questões do próprio autor, a necessidade de ter a obra reconhecida e admirada em contraponto às críticas que ela desencadeou. O dramaturgo tinha o desejo de falar ao público, de efetivar um diálogo, onde colocasse todas as questões referentes ao teatro que o angustiavam e que o faziam se ausentar constantemente da Rússia. Segundo Cavaliere,
A complexa dialética, presente em toda a obra gogoliana, cuja unidade estética advém dessa ambivalência bipolar e das profundas contradições que marcaram a vida e a obra do autor: o poeta e o apóstolo, o sonhador e o realista, o artista e o pregador, o cômico e o trágico por vezes se fundem, por outras se bifurcam, fazendo da sua própria produção artística objeto de indagação e um exercício contínuo de metalinguagem (CAVALIERE in GÓGOL, 2009, p. 37).
A autora defende que a obra gogoliana é dialética, onde as contradições existentes entre a vida e a produção artística do autor são determinantes. Nesse sentido, pode-se afirmar que essas contradições se referem às questões que vão surgir ao longo de toda a vida do autor, mas, principalmente nos últimos anos de trabalho, visto que Gógol se viu angustiado entre os caminhos que sua obra foi trilhando ao longo dos anos e suas crenças religiosas. Devido a isto, o autor vai reescrever diversas vezes a maioria de seus textos na busca por uma forma de deixar mais claro o que pretendia. Ao final de sua vida, a oposição entre suas crenças e sua obra vão levá-lo para um delírio que o conduziram a morte, não sem antes queimar a última versão da segunda parte de Almas Mortas. A revolta com sua última produção se deve justamente a uma orientação feita pelo padre Matvéi, que o acompanhou nos últimos anos de sua vida. Segundo o padre, Gógol deveria fazer mudanças em Almas Mortas a fim de tirar as partes “pecaminosas” que haviam nela. Ou seja, as questões religiosas foram ganhando cada vez mais espaço na vida e na obra do autor e a equalização entre o conteúdo de seus textos e suas crenças religiosas foi se tornando cada vez mais complexa, angustiando cada vez mais o dramaturgo.
Os aspectos formais aos quais se refere Cavaliere (2009), apontam para a modernidade de tais obras, porque Gógol evita enquadrar sua produção apenas nesses aspectos,