Os resultados apresentados nesta pesquisa sugerem que a estrutura dos fatores pesquisados é semelhante à encontrada nos diversos países onde foram realizadas pesquisas semelhantes. Não há indícios fortes de que haja, para os fatores estudados, diferenças entre as empresas estabelecidas no Brasil e as estabelecidas em outros paises.
Importante ressaltar que estes modelos não explicam as causas das diferenças de desempenho, eles procuram apenas verificar as diferenças associadas com tais categorias.
Fatores organizacionais se mostraram mais importantes que fatores econômicos na determinação do desempenho das empresas
Fato relevante foi que o fator empresa, que representa os fatores intrínsecos à empresa, representados por competências internas, capacidade gerencial, cultura organizacional, apresentou-se como o mais importante na explicação da variabilidade existente no desempenho verificado entre as diversas empresas, para todos os setores pesquisados. Este fato evidencia o que a visão baseada em recursos (RBV) advoga, quanto à necessidade de desenvolvimento de competências distintivas como fator determinante da vantagem competitiva.
Os valores assumidos pelo fator empresa para as empresas não pertencentes a grupos econômicos, ficou acima do apresentado pelas empresas pertencentes a grupos econômicos, indicando que parte do desempenho devido a funções estratégicas exercidas pela corporação é assumida pelas empresa não pertencentes a grupos econômicos. Este resultado pode indicar que a falta de um canal de compartilhamento de recursos leva as empresas a desenvolverem internamente competências que compensem a falta desta fonte externa de recursos.
Na disputa sobre qual dos fatores, indústria ou características internas das empresas, é mais importante na determinação da vantagem competitiva, este estudo aponta para uma predominância clara do segundo fator como o mais importante
Outro resultado importante foi a mensuração do efeito corporação, que se mostrou relevante para todos os setores estudados. O fator corporação se mostrou muito importante para a explicação da variabilidade do desempenho do setor primário da economia, enquanto que para o comércio mostrou pequeno poder explicativo. Em alguns casos o efeito corporação foi superior ao efeito indústria.
As discussões sobre a importância da estratégia corporativa, identificada pelos resultados apresentados pelo fator corporação, devem passar por um crivo setorial, uma vez que o impacto da influência do grupo econômico sobre a controladora apresenta resultados bastante diferentes entre os setores estudados.
Quanto à importância do fator indústria, foi identificado na comparação entre as análises das empresas pertencentes e não pertencentes a grupos econômicos, que as pertencentes a grupos econômicos apresentam valores superiores ao das não pertencentes para os setores manufatura e comércio, enquanto que o contrário acontecia com os setores primário e serviços. O fato de empresas pertencentes a grupos econômicos se posicionarem em indústrias que apresentam maior variabilidade no desempenho, pode indicar que as estratégias corporativas das empresas de manufatura e comércio sejam mais focadas para a busca de maiores lucros através da atuação em setores de maior risco, enquanto que evento oposto apresentado pelos setores primário e serviços pode indicar a existência de estratégias corporativas mais conservadoras.
O setor de serviços apresentou os maiores valores para o efeito indústria, tanto para empresas pertencentes a grupos econômicos como para as não pertencentes, enquanto que o setor manufatura apresentou, na média, os menores valores para o efeito indústria. Estes resultados mostram que posicionamento dentro de um setor, através de estratégias de diferenciação ou massificação são mais importantes em serviços que em manufatura.
Foram utilizados nas análises os modelos de componentes de variância, onde todos os fatores são considerados aleatórios e modelos mistos onde inicialmente o fator ano foi tratado como fixo e posteriormente também o fator estado.
Pela característica da variável ano, que não é aleatória nas bases de dados utilizadas, os modelos mistos se mostram tecnicamente mais apropriados para representar este fenômeno. O que se verificou foi que a utilização de modelos de covariância para os dados utilizados, não implicou em vieses na estimativa dos fatores aleatórios. Conclui-se que apesar de não serem totalmente apropriados para análises utilizando dados extraídos de um conjunto definido de anos, sua utilização não implicoa em distorções na avaliação dos componentes de variância.
Uma questão que um dos trabalhos havia deixado em aberto, foi quanto ao impacto que o desempenho de uma empresa em determinado ano afetava os anos próximos subseqüentes. A questão era, se um excelente resultado em determinado ano não teria um impacto positivo nos anos imediatamente seguintes, ou que um resultado extremamente ruim em determinado ano, influenciaria negativamente no resultado dos anos seguintes. Também, se este efeito existisse, como este impacto se propagaria para os anos seguintes.
Para testar tais pressupostos, diversos modelos foram analisados utilizando duas metodologias para a mensuração da relação existente entre tais dados, através da utilização de duas diferentes estruturas de covariância. Uma das estruturas assume que os efeitos do resultado de um determinado ano têm impacto decrescente quanto mais afastado o anos estão uns dos outros.
O que se verificou, foi que sistematicamente estes modelos não melhoraram o poder explicativo em relação aos modelos que não utilizaram tais estruturas de covariância. Este fato mostra que não foi identificado qualquer relacionamento entre o desempenho de um determinado ano e dos demais anos anteriores ou subseqüentes.
Tais resultados podem indicar que o desempenho muito acima da média em determinado ano, podem levar a uma maior distribuição de lucros e dividendos, em
vez de maiores investimentos. Da mesma forma, resultados ruins em determinados anos, podem servir para desencadear uma política de contenção de despesas e de recuperação econômico-financeira que não impactando de forma negativa sobre os anos seguintes.
A última análise feita referiu-se à verificação do efeito da localização no território brasileiro sobre o desempenho das empresas. Foram utilizados modelos mistos, apropriados para análise de localização, uma vez que tal fator é fixo assumindo número igual ao total de Estados da Federação.
Quando foi proposto este tipo de estudo, esperava-se identificar dois tipos de efeitos. Primeiramente acreditava-se que a localização em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, por sua maior qualidade de infra-estrutura e disponibilidade de recursos, tanto materiais como humanos, representassem uma vantagem competitiva na forma de melhor desempenho das empresas ali localizadas.
Outra questão importante, referia-se à questão da Guerra Fiscal iniciada há alguns anos entre alguns Estados da União, em que determinados Estados ofereciam benefícios fiscais para atrair grandes empresas. A pergunta que se poderia fazer é: será que uma empresa que se beneficia de tais recursos legais obtém melhor desempenho financeiro que teria se não se deslocasse para tais Estados?
Os resultados, surpreendentemente indicaram que isolados fatores como indústria, ano, corporação e empresa, a localização não tem qualquer poder explicativo sobre a variabilidade do desempenho das empresas estudadas.
Levando-se em conta que o conjunto de dados analisado contempla justamente as grandes empresas, foco dos que iniciaram a Guerra Fiscal, o fato dos dados não apresentarem qualquer diferença significativa ou significante entre os Estados da Federação, pode levar a pelo menos duas conjecturas.
Primeiramente, pode ser que tais incentivos fiscais tenham sido parte de uma estratégia isolada para atrair grandes empresas, sem uma real contrapartida nos investimentos em infra-estrutura. Tal fato levaria tais empresas a encontrarem
dificuldades na contratação e manutenção de recursos, tanto materiais como humanos. Tais dificuldades podem corroer eventuais vantagens advindas dos incentivos fiscais. O mais agravante é que a falta de uma política de desenvolvimento de infra-estrutura, no longo prazo, levaria as empresas que se utilizaram dos incentivos fiscais, a se retirarem destes Estados quando tais benefícios acabassem, implicando em grandes perdas de divisas, tanto para os Estados que concederam incentivos fiscais, quanto para os Estados que “perderam” tais empresas para os primeiros.
Outra possibilidade é que por se tratar de grandes empresas, estas fizeram investimentos de longo prazo e o período de estudo pode ser muito curto para captar corretamente os efeitos de tais ações.
Independente de qual seja a razão para não haver diferenças em relação à localização no território brasileiro, é relevante o resultado apresentado pela análise, que aponta não haver diferenças no desempenho das empresas localizadas no Sul e Sudeste para as empresas localizadas no Note e Nordeste, isoladas os demais fatores analisados. Aparentemente, as grandes empresas, foco desta análise, têm estratégias igualmente eficientes para competir em todas as regiões do País.
Resumindo, este trabalho esclareceu algumas perguntas que permaneciam em aberto em relação às pesquisas empíricas de análise de desempenho.
Primeiramente, esclareceu a questão sobre se a estrutura de importância dos fatores competitivos para as empresas brasileiras, mostrando que ela é semelhante àquela apresentada pelas empresas estrangeiras analisadas em trabalhos publicados internacionalmente.
Em segundo lugar, mostrou que os modelos de componentes de variância fornecem valores muito próximos daqueles fornecidos pelos modelos mistos com a variável ano como fator fixo, permitindo a comparabilidade das pesquisas feitas com os dois tipos de modelos.
Verificou, também, a não existência do efeito do resultado de um determinado ano sobre os anos subseqüentes, não identificando relações de covariância entre anos adjacentes.
Finalmente mostrou que o efeito localização em determinado Estado da União, não explica eventuais diferenças nos desempenhos das empresas.
O conjunto de resultados das análises desenvolvidas neste trabalho, permitem uma melhor compreensão da dinâmica do ambiente competitivo brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento da disciplina e sua adequação à realidade nacional.