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«Quero, fica limpo»

Hinos sobre o Paraíso, IV, 3-5

No povo hebraico, Deus deu-nos a imagem:

Quem fosse atingido pela lepra, estando no acampamento, Seria expulso e banido para fora dele.

Mas se, curado da lepra, tivesse encontrado a graça, Então, com o hissope, purificado pelo sacerdote com o sangue e a água,

Voltava para sua casa, recuperando a sua herança. Adão era totalmente puro no Jardim esplêndido,

Mas foi-lhe transmitida a terrível doença pelo hálito da serpente. O Jardim puro o rejeitou, o expulsou de seu seio,

Mas o Sumo Sacerdote (Heb 9, 11), vendo lá do alto Que ele fora expulso, dignou-Se descer até junto dele, Purificou-o com o Seu hissope (cf. Jo 19,29)

e reabriu-lhe as portas do Paraíso.

Nu, Adão era belo; mas sua diligente esposa Esforçou-se por lhe tecer um manto de máculas. Ao avistá-lo, o Jardim achou-o hediondo e expulsou-o. Para ele, porém, fez Maria uma nova túnica.

Envergando essa veste,

e segundo a promessa, o Ladrão resplandeceu;

E o Jardim, revendo Adão na sua imagem, foi abraçá-lo.

«Os pastores... glorificavam e louvavam a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto»

Vem, Moisés, mostra-nos essa sarça no cimo da montanha cujas chamas dançavam no teu rosto (Ex 3,2): é o filho do Altíssimo que apareceu no seio da Virgem Maria e iluminou o mundo com a sua vinda. Glória a Ele da parte de toda a criatura e feliz aquela que O gerou!

Vem, Gedeão, mostra-nos esse velo e esse suave orvalho (Jz 6,37), explica-nos o mistério das tuas palavras: é Maria o velo que recebeu o orvalho, o Verbo de Deus; nela Se manifestou na criação e resgatou o mundo do pecado.

Vem, David, mostra-nos a cidade que viste e a planta que dela brotou: a cidade é Maria, a planta que dela saíu é o nosso Salvador, cujo nome é Aurora (Jr 23,5; Za 3,8 LXX).

A árvore da vida que era guardada por um querubim com espada de fogo (Gn 3,24), eis que habita em Maria, a Virgem pura; José a guarda. O querubim depos a espada porque o fruto que guardava foi enviado do alto dos céus até aos que estavam exilados no abismo. Comei dele todos, homens mortais, e vivereis. Bendito seja o fruto que a Virgem gerou. Bendito seja Aquele que desceu e habitou em Maria e dela saíu para nos salvar. Bem-aventurada Maria, tu que foste julgada digna de ser a mãe do Filho do Altíssimo, tu que geraste o Ancião que tinha criado Adão e Eva. Ele saíu de ti, suave fruto cheio de vida, e por Ele os exilados têm de novo acesso ao paraíso.

«Toda a criação geme em trabalho de parto.

Nós gememos também na espera da redenção dos nossos corpos» (Rom 8, 22-23) Hinos sobre o Paraíso

A contemplação do Paraíso maravilhou-me pela sua paz e pela sua beleza. Ali mora a beleza sem mancha, ali reside a paz sem tumulto. Feliz aquele que merecer recebê-la, se não por justiça, ao menos por bondade; se não por causa das suas obras, ao menos por piedade...

Quando o meu espírito regressou às margens da terra, mãe dos espinhos, apresentaram-se-me dores e males de todos os gêneros. Aprendi assim que o nosso lugar é uma prisão. E contudo os cativos que nele estão encerrados choram ao sair dele. Espantei-me também por ver o que as crianças choram ao sair do seio; choram quando passam das trevas para a luz, de um espaço estreito para o vasto universo. Da mesma forma, a morte é, para os homens, uma espécie de parto. Os que nascem choram ao deixar o universo, mãe das dores, para entrar no Paraíso de delícias.

Ó Tu, Senhor do Paraíso, tem piedade de mim! Se não é possível entrar no Teu Paraíso, faz-me ao menos digno dos prados que o rodeiam. No centro do Paraíso é a mesa dos santos, mas no exterior, os frutos do seu cercado caem como migalhas para os pecadores que, mesmo aí, viverão pela Tua bondade.

«Com os pedaços que sobraram,encheram doze cestos» Diatessarum, 12, 4-5, 11

Num piscar de olhos, o Senhor multiplicou um pedaço de pão. Aquilo que os homens fazem em dez meses de trabalho, fizeram-no os Seus dedos num instante. [.] Contudo, não foi com o seu poder que comparou este milagre, mas com a fome dos que tinha diante de Si. Se o milagre tivesse sido comparado com o seu poder, seria impossível de avaliar; comparado com a fome daqueles milhares de pessoas, o milagre ultrapassou os doze cestos. O poder dos artesãos é infe- rior aos desejos dos respectivos clientes; eles não conseguem fazer tudo aquilo que se lhes pede; pelo contrário, as reali- zações de Deus ultrapassam todo o desejo. [.]

Saciados no deserto, como outrora o tinham sido os Israelitas pela oração de Moisés, eles exclamaram: "Este é o profeta do qual está dito que viria ao mundo." Aludiam às palavras de Moisés: "O Senhor suscitará para vós um profeta", que não será um profeta qualquer, mas "um profeta como eu" (Dt 18,15), que vos saciará de pão no deserto. Tal como eu, caminho u sobre as águas, surgiu numa nuvem luminosa (Mt 17,5), libertou o seu povo. Entregou Maria a João, como Moisés entregara o seu rebanho a Josué. [.] Mas o pão de Moisés não era perfeito; apenas foi dado aos Israelitas. Que- rendo significar que o seu dom é superior ao de Moisés e o chamamento às nações ainda mais perfeito, Nosso Senhor disse: "Se alguém comer o Meu pão viverá eternamente", porque "o pão vivo que desceu do céu" é dado a todo o mun- do (Jn 6,51).

Advento, eu vos proponho umas esplêndidas imagens tomadas dos hinos «Sobre a natividade de Cristo». Diante de Nossa Senhora, Efrém manifesta com inspiração sua maravilha:

«O Senhor veio a ela para tornar-se servo. O Verbo veio a ela para calar em seu seio. O raio veio a ela para não fazer ruído. O pastor veio a ela,

e nasceu o Cordeiro, que chora docemente. O seio de Maria

trocou os papéis: quem criou tudo

apoderou-se dele, mas na pobreza. O Altíssimo veio a ela (Maria), mas entrou humildemente.

O esplendor veio a ela,

mas vestido com roupas humildes. Quem tudo dá

experimentou a fome. Quem dá de beber a todos sofreu a sede.

Saiu dela nu,

quem tudo reveste (de beleza)» (Himno «De Nativitate» 11, 6-8)

Para expressar o mistério de Cristo, Efrém utiliza uma grande variedade de temas, de expressões, de imagens. Em um de seus hinos põe em relação Adão (no paraíso) com Cristo (na Eucaristia).

«Foi fechando

com a espada do querubim, até deixar fechado

o caminho da árvore da vida. Mas para os povos,

o Senhor desta árvore

entregou-se ele mesmo como alimento, como oblação (eucarística).

As árvores do Éden foram dadas como alimento ao primeiro Adão.

Por nós o jardineiro do Jardim em pessoa fez-se alimento para nossas almas.

De fato, todos nós havíamos saído do Paraíso junto com Adão, que o deixou às suas costas. Agora que foi retirada a espada, abaixo (na cruz) pela lança

podemos regressar» (Hino 49, 9-11)

Para falar da Eucaristia, Efrém utiliza duas imagens: as brasas ou o carvão ardente, e a pérola. O tema das brasas está tomado do profeta Isaías (cf. 6, 6). É a imagem do serafim, que toma as brasas e toca simplesmente os lábios do profeta para purificá-los; o cristão, pelo contrário, toca e digere as próprias Brasas, o próprio Cristo:

«Em teu pão se esconde o Espírito, que não pode digerir-se;

em teu vinho está o fogo, que não pode beber-se. O Espírito em teu pão, o fogo em teu vinho: esta é a maravilha acolhida por nossos lábios.

O serafim não podia aproximar seus dedos das brasas, E elas só puderam aproximar-se os lábios de Isaías; nem os dedos as tomaram, nem os lábios as digeriram; mas o Senhor concedeu a nós ambas coisas.

O fogo desceu com ira para destruir os pecadores, mas o fogo da graça desce sobre o pão e ali permanece. Em vez do fogo que destruiu o homem,

comemos o fogo no pão

e fomos salvos» (Hino «De Fide», 10, 8-10).

Outro exemplo dos hinos de Santo Efrém, onde fala da pérola como símbolo da riqueza e da beleza da fé: «Coloquei (a pérola), irmãos, na palma de minha mão

para poder examiná-la. Observei-a por todos os lados:

tinha o mesmo aspecto desde todos os lados. Assim é a busca do Filho, inescrutável, pois é totalmente luminosa.

Em sua limpidez, vi o Límpido, que não se opaca;

em sua pureza,

vi o símbolo do Corpo de nosso Senhor, que é puro.

Em seu caráter indivisível, vi a verdade, que é indivisível» (Hino sobre a Pérola 1, 2-3).