3 CHAPTER: BACKGROUND – “BEKTAŞI” AND BEKTAŞILIK, RELEVANT FOR WHOM, AND HOW?
3.3 Identity Issues
3.3.6 HACI BEKTAŞ VELI AS THE POLE
De acordo com formulações recentes de Maingueneau (2011, p. 72), “[...] o modo de transporte e de recepção do enunciado condiciona a própria constituição do texto, modela o gênero de discurso”. Isso talvez explique o modo como se nomeiam os textos postados nas plataformas Wattpad e Widbook – histórias e ebooks em vez de livros −, já que o mídium, ou seja, a inscrição material dos textos e o modo como esses textos circulam e são transmitidos “[...] imprime um certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que dele podemos fazer” (MAINGUENEAU, 2011, p. 71). Segundo Maingueneau (2012, p. 212), “[...] para tornar pensável o surgimento de uma obra, sua relação com o mundo no qual surge, não podemos separá-la de seus modos de transmissão e de suas redes de comunicação”. Considerando a matriz filosófica dessas noções, vemos que Debray (2000), citado por Maingueneau (2012), faz uma diferenciação interessante entre os dois termos, tratando o primeiro (modos de transmissão) como um termo que define uma prática reguladora, e o segundo (redes de comunicação) refere um fazer conhecer. Desse modo, entendemos que o mídium é a conformação do que se publica e mesmo do que se viraliza online.
Como aponta Ribeiro (2012, p. 337), “Em vários casos, as definições de livro o consideram suporte. Em outros, o material que confere materialidade ao objeto é considerado o suporte (papiro, cera, papel, tela (?), etc.)”. Considerando essas variações impostas na própria designação de suporte, temos que
O conceito de mídium não abarca, portanto, somente o fato de que o literário está inscrito em determinado “suporte” – o que, a princípio, já afastaria a teoria discursiva de estudos voltados à interpretação do texto como algo imaterial –, mas ainda o fato de que os recortes das situações de comunicação integram o sentido e o valor de uma dada produção (DE SERRÃO, 2017, p. 54).
Evidentemente, a escolha do mídium, do modo como o texto será transmitido, faz parte da gestão da autoria, uma vez que interfere diretamente na recepção do texto, porque o mídium, além de ser a manifestação material de um enunciado, ou seja, a forma “física” em que um discurso se textualiza e é disseminado, não é um meio inerte de transmissão, o que significa que todo discurso é constituído por suas formas de transmissão, pelas
53 formalizações materiais que o transmitem. Por exemplo, um texto que sai dessas plataformas colaborativas para o livro impresso, terá uma circulação diferente nos dois mídiuns, assim como será outro texto, conforme exemplificaremos mais adiante.
No célebre estudo Discurso Literário de Mainguenaeu (2012), já na primeira página do capítulo intitulado Problemas de mídium, há uma nota do tradutor explicando o uso do termo, bem como explicando se tratar da tradução do termo “médium”, utilizado a partir da obra de Régis Debray, Curso de midiologia geral (1993). E, ao longo das primeiras páginas do capítulo, o linguista cita o que Debray define como midiologia39:
[...] que tem por objetivo ajudar, através de uma logística das operações de pensamento, a esclarecer a questão lancinante, indecidível e decisiva, declinada aqui como “o poder das palavras”, acolá como “a eficácia simbólica” ou ainda como “o papel das ideias na história”, a depender do que se é: escritor, etnólogo ou moralista... Ela gostaria de ser o estudo das mediações através das quais “uma ideia se torna forma material” (DEBRAY, 1993 apud MAINGUENEAU, 2012, p. 212). Ao tratar da midiolgia, que se candidata “ao posto de ciência e tenta explicar, por meio de uma logística de operações de pensamento como age o ‘poder das palavras’, a ‘eficácia simbólica’ ou mesmo, ‘o papel das ideias na história’” (MARANHÃO; GARROSSINI, 2010, p. 37), Debray (2000) propõe sua delimitação da “transmissão” dos espaços “onde é possível imprimir à humanidade sua herança cultural, valores, bens e capitais” (MARANHÃO; GARROSSINI, 2010, p. 37). De acordo com o filósofo, “transmissão” é um termo “regulador e ordenador”, pois apresenta um triplo nível: material, diacrônico e político (DEBRAY, 2000, p. 13).
Material porque, ao passo que “comunicar” liga-nos mais fundamentalmente “ao imaterial, aos códigos, à linguagem”, “transmitir” diz-se tanto dos bens, quanto das ideias (DEBRAY, 2000, p. 13):
Nossos lembretes não se reduzem ao que que é dito ou escrito. A aventura das ideias é caleidoscópica. Não existe linguagem espiritual que não tenha sido invenção ou reciclagem de marcas e gestos; não existe movimento de ideias que não implique em movimentos de homens (peregrinos, comerciantes, colonos, soldados, embaixadores); não existe subjetividade nova sem objetos novos (livros ou rolos, hinos e emblemas, insígnias e monumentos) (DEBRAY, 2000, p. 14).
39 A rigor, mediologia, o estudo das mediações. Para evitar uma indesejável leitura de médium, as traduções brasileiras consagraram o termo mídium e, portanto, midiologia, mas não se trata de estudar mídias estritamente e, sim, os processos de mediação dos quais elas também fazem parte no atual período.
54 E, pensando nesses movimentos de ideias e homens, retomamos Ribeiro (2016, p. 108), que, ao fazer relações entre culturas impressa e digital, opta pelo uso do termo “movimento”, uma vez que “[...] movimento traz, afinal, a noção de ‘coisa viva’ e respirante que, de fato, a edição tem, pois está ligada às nossas mais duradouras práticas sociais”.
Diacrônico porque “se a comunicação é essencialmente um transporte no espaço, a transmissão é essencialmente um transporte no tempo” (DEBRAY, 2000, p. 15): Transmitimos para que o que vivemos, cremos e pensamos não morra conosco [...]. Para que isso seja possível, é-nos permitido, segundo as épocas, recorrer aos meios da poesia oral, com seus ritmos e refrões propícios à memorização, do desenho ou do escrito, do impresso, da fita de som ou da Internet – de tudo isso junto ou separadamente – , ao sabor das audiências visadas ou do desenvolvimento técnico –, mas o conteúdo da mensagem guia-se pelas necessidades de sua difusão, assim como o órgão pela sua função (DEBRAY, 2000, p. 16).
Político porque, de acordo com Debray (2000, p. 18), ao contrário do ato de comunicar, que faz parte da esfera social e é natural, “a transmissão faz parte da esfera política, como todas as funções que servem para transmutar um amontoado indiferenciado em um todo organizado”, tem a ver com as matrizes de sociabilidade e os vetores de sensibilidade (Cf. DEBRAY, 1993; MAINGUENEAU, 2012):
Os homens comunicam-se; tal atitude é mais rara do que transmitem. [...] Tudo é mensagem, se quisermos – desde os estímulos naturais aos estímulos sociais, ou desde os sinais aos signos –, mas nem tudo faz herança. E esta nunca é efeito do acaso. [...] A transmissão acrescenta à ferramenta material da comunicação um organograma que duplica o suporte técnico através de uma pessoa moral. Se a vida se perpetua pelo instinto, a herança não se faz sem projeto, projeção que nada tem de biológico. A transmissão é encargo, missão, obrigação: cultura (DEBRAY, 2000, pp. 17-18).
É pertinente citar essa diferenciação feita por Debray (2000), pois, para a perspectiva midiológica, “a transmissão se mostra como o arrimo luminoso, algo que vai ordenar presente e passado, articular o efetivo ao virtual” (MARANHÃO; GARROSSINI, 2010, p. 38), e isso nos interessa uma vez que mídium é, justamente, o modo como ocorrem a comunicação e sobretudo a transmissão dos textos ditos literários.
55 Entendamos esses produtos na esteira da semiologia dos objetos e, portanto, que todos os dispositivos comunicacionais podem ser referidos como objetos técnicos. Um objeto técnico, portanto, é a formalização material do mídium, a inscrição material dos textos, e sua lógica aponta para as formas de circulação que suscita, viabiliza ou mesmo requer, portanto as formas de transmissão dos discursos (Cf. Debray, 2000).
Dessa forma, podemos dizer que a noção de mídium, que amalgama os meios de circulação e suportes de inscrição para estudo da produção dos sentidos, inclui a recepção desses textos. Nas plataformas examinadas aqui, é possível, por exemplo, compartilhar os textos (o link da página inicial da história ou perfil do usuário-autor) em outras redes sociais, tipo de compartilhamento impossível a outros mídiuns, como o livro impresso, por exemplo. No entanto, o livro impresso é o mídium que parece carregar o status efetivamente legitimador de que esses usuários-autores precisam para serem considerados escritores.
Como aponta Jenkins (2014, p. 244),
[...] a propagação, de todas as formas de mídia, depende tanto (ou mais) de sua circulação pelo público quanto de sua distribuição comercial; que a propagabilidade é determinada por processos de avaliação social e não técnica ou feitiçaria criativa, e com a participação ativa dos públicos engajados.
Os usuários-autores, que postam seus textos nas plataformas colaborativas, contam, antes de mais nada, com a colaboração dos próprios leitores para fazê-la circular mais amplamente, ou seja, dependem do bom funcionamento do espaço associado (ao texto autoral postado), o que interfere diretamente no espaço canônico (o texto autoral reconhecido como tal).