Após a análise individual realizada no tópico anterior, observamos que existem semelhanças e diferenças em cada um dos aspectos estudados nos casos, seja em relação à expressão da criatividade das crianças estudadas, seja aos elementos contextuais que participam dessa expressão ou aos elementos da subjetividade individual relacionados a ela.
Carlos e Jason se expressaram criativamente na confecção de projetos de sucata no espaço do VA. Identificamos que, apesar da atividade ser a mesma, essa expressão se deu de forma diferenciada, com objetivos igualmente diferenciados. Enquanto Carlos possuía um alto grau de motivação para a atividade de sucata, confeccionando projetos cada vez mais elaborados, repletos de detalhes, preocupando-se por ter um produto criativo acabado para imediatamente iniciar um próximo, Jason o tinha pela possibilidade de criação que tal atividade proporcionava.
Identificamos que Jason possuía um alto grau de motivação pelo processo do criar em si e por atividades lúdicas que o permitam expressar-se criativamente, como essa com sucata. Como afirma Runco (1996), Jason era orientado pelo processo de criar e não propriamente pelo produto derivado do mesmo. Por esse motivo, enquanto Carlos desafiava-se em criar projetos de sucata cada vez mais complexos e bonitos esteticamente, objetivando uma finalização, Jason mantinha-se em um único projeto sem previsão de terminá-lo e igualmente sem preocupar-se com acabamentos perfeitos. Sendo assim, apesar da atividade ser comum, os motivos, assim como algumas características do processo de elaboração e produto criativo, foram diferenciadas.
Nos dois casos, a motivação foi a impulsionadora de todo processo criativo. A importância da mesma é destacada por diversos autores como Amabile (1989, 1996), Rogers (1987), Russ (1996), entre outros, e em pesquisas como de Mozzer (2008).
Mitjáns Martinez (1997) nos indica que a criatividade está associada a um conjunto de elementos estruturais e funcionais da personalidade, estando, entre eles a motivação.
Identificamos que tanto Carlos quanto Jason, além de altamente motivados, mostraram-se autônomos e seguros em relação às suas produções. Como já afirmamos anteriormente, Mitjáns Martinez (1997) ressalta que a autonomia e a segurança geralmente aparecem associadas à criatividade, como foi resultado da presente pesquisa. Esses, no entanto, foram os elementos subjetivos comuns identificados nos dois casos. Além deles, levantamos hipóteses da existência de outros diferenciados, que fazem parte, de maneira complexa e dinâmica, de suas configurações criativas.
A especificidade da expressão da criatividade de Carlos se deu pela configuração de outros elementos subjetivos que estiveram envolvidos. Entre esses elementos, ressaltamos: a sua necessidade de criar buscando intencionalmente, como sujeito, ser autêntico em suas produções; a sua curiosidade e interesse por atividades desafiadoras; autovaloração positiva que o dava segurança e autoconfiança; além do senso de humor. Já em Jason, o elemento subjetivo diferenciado que encontramos foi a forte ligação emocional com o pai, com quem possuía maior liberdade e estímulo para criação. Por meio dessa relação, sentidos subjetivos favorecedores à criação eram gerados. Enquanto a família participava na expressão da criatividade de Carlos como parte dos elementos contextuais, a partir de determinados sentidos e valores do ambiente familiar, para Jason a relação específica com o pai era geradora de uma emocionalidade positiva em relação à sua expressão da criatividade.
Constatamos, portanto, que o caráter único da configuração criativa de Carlos e de Jason, constituída por diferentes elementos da subjetividade, confere a especificidade de suas expressões criativas, tal como foi encontrada em pesquisas como de Amaral (2006), Mozzer (2008), entre outros. Mitjáns Martinez (2005) afirma que é o sujeito, em seu caráter ativo, que é capaz de produzir algo novo e de valor a partir das suas configurações subjetivas, assim como dos contextos sociais de ações e relações tal como são significadas por ele.
Entendendo assim que essa expressão se dá também a partir características da situação social, é importante salientar que os elementos do contexto têm uma importante participação nessas expressões, tanto no sentido de estímulo quanto de constituição da própria criatividade, como encontrado nos estudos de caso realizados. Identificamos elementos contextuais em comum, tais como: a natureza da própria atividade lúdica e os espaços favoráveis à criação.
A situação social familiar, como já mencionada anteriormente, participa de forma diferenciada na expressão da criatividade de cada criança, a depender dos sentidos e significações conferidas pelo sujeito. Enquanto que o ambiente familiar de Carlos era caracterizado por estímulos diversos, liberdade de exploração, grande variedade de atividades e materiais, abertura de diálogo entre os membros, além de uma harmoniosa relação interpessoal, no ambiente familiar de Jason identificamos uma diferente configuração com outros elementos (alguns em comum com de Carlos) que participavam de suas expressões, como: a disponibilidade e diversidade de objetos nesse ambiente, a liberdade de exploração, a receptividade às suas ideias, valorizações ao que era produzido e possibilidade de satisfação de seus desejos de criar.
Outro elemento em comum aos dois casos que ressaltamos é o acesso à tecnologia e a diferentes ferramentas, proporcionado pelos pais de Carlos e Jason. Eles disponibilizavam uma oficina em casa (no caso de Carlos) e no trabalho (no caso de Jason), para que seus filhos pudessem utilizar e explorar as mais diversas ferramentas que dela faziam parte. Essa convivência, e consequente domínio da tecnologia, estimulava nos alunos o desenvolvimento de determinados conceitos científicos e habilidades que os auxiliaram em suas expressões da criatividade.
Já em relação ao valor das expressões da criatividade identificamos que, assim como afirma Csikszentmihaliy (SAWYER et al. 2003), as produções criativas das crianças são valoradas socialmente por um domínio mais restrito, ou seja, por pais, professores e colegas. Entendemos que o valor dessas criações esteve relacionado à satisfação de uma necessidade pessoal do sujeito e ao possível impacto que a emergência da novidade poderá ter para o desenvolvimento da criança, como outras pesquisas anteriores, Mourão (2004), Amaral (2006), Mozzer (2008) já salientaram. Assumimos, portanto, que as vivências positivas proporcionadas pela emergência do novo por meio do gosto pela atividade, assim como pela valoração dos outros, podem ser a base para o desenvolvimento de importantes recursos subjetivos, como autoestima, segurança, entre outros, visto que elementos emocionais são extremamente importantes no desenvolvimento da subjetividade.