A theoria de Broca, embora muito engenho- sa, não está d'accordo com os factos, affirma-o Richet, em face d'argumentos concludentes.
Eliminando-a, tenta preencher a lacuna eri- gindo outra theoria.
Assim Richet é ao mesmo tempo demoli- dor e creador.
Sob que influencias se desenvolvem os coá- gulos ?
Qual o seu modo de formação? Qual a sua evolução ulterior?
Estes pontos de interrogação são outros tantos problemas que Richet pretende resolver e em cuja solução assenta a sua theoria.
Occupa-se primeiramente dos phenomenos que se realisarn no interior do aneurisma antes de se iniciarem os coágulos.
N'este primeiro periodo, o conteúdo do aneurisma não é immovel, mas move-se, reno- va-se.
Depois, á medida que o sacco aneurismal cresce em virtude da pressão incessante do san- gue, o movimento da sua massa sanguínea vai- se tornando mais difíicil, principalmente se o aneurisma é sacciforme e se o orifício de com- municação com a artéria conserva o mesmo ca- libre ou pelo menos um calibre aproximado.
Ora, com o crescimento do sacco aneuris- mal, o seu orifício torna-se relativamente cada vez mais insufficiente ; o renovamento do san-
63
gne não é completo em cada systole ventricu- lar, e o que fica no sacco é submettido a os- cillações successivas, em virtude das quaes as moléculas sanguineas exercem attritos inces- santes contra as paredes aneurismaes, mais ou menos alteradas.
D'estes attritos resulta a deposição das ca- madas flbrinosas que se encontram no interior do sacco.
Constituída a primeira camada, esta pro- vocaria por uma espécie de attracção a forma- ção d'uma segunda, depois d'uma terceira e assim successivamente.
Alem do enfraquecimento da corrente san- guínea no sacco aneurismal, da renovação in- completa do sangue e da irregularidade das pa- redes, condições a que Richet chama physio- lógicas para a formação dos coágulos, este au- ctor faz desempenhar um papel importantíssi- mo na producção do mesmo phenomeno a uma outra causa a que elle dá o nome de patholo- gica; é a inflammação, não a inflammação muito intensa, mas a sub-aguda, a adhesiva de Hun- ter.
Considera como facto perfeitamente de- monstrado a influencia que a inflammação quer das paredes dos vasos quer das partes visinhas
exerce sobre o sangue que circula n'estes va- sos. E' o que se vê quando ha uma phlébite ou arterite ; coágulos oblitteram a veia ou a ar- téria temporária ou difinitivamente.
O sacco aneurismal, pela sua conformação, pelas relações com as partes vizinhas, irritan- do-as em virtude das suas pulsações, está em boas circumstancias para se inflammar, e, quan- do o phenomeno se dá, o aneurisma torna-se mais consistente, endurece da circumferencia para o centro, e as pulsações diminuem ou de- sapparecem.
Pela abertura do sacco vê-se que este con- tem coágulos,—uns sólidos e resistentes, ou- tros molles, enchendo uma parte ou a totali- dade do sacco ; e algumas vezes, se a inflam- mação fôr intensa, mas não excedendo certos limites, vê-se que fica oblitterado o sacco e a artéria.
E' pois em virtude do enfraquecimento da corrente sanguínea no sacco aneurismal, da irregularidade das paredes, e da inflamma- ção, que a natureza se encarrega de determi- nar a formação de coágulos nos aneurismas.
Os coágulos são de duas espécies : só fi- brinosos, ou fibrino-globulares, isto é, compos-
65 tos de fibrina, glóbulos e d'uma pequena por- ção d'albumina.
Os primeiros podem formar-se d'emblée como mostram as experiências de Velpeau e John feitas em animaes.
Estes auctores introduzindo agulhas nas artérias d'animaes notaram, no fim d'algumas horas, que as agulhas estavam cercadas d'uma camada exclusivamente fibrinosa.
O caso observado por Laugier mostra que no homem se pôde dar o mesmo phenomeno. Em vista d'isto é Richet levado a concluir que nas paredes do sacco aneurisma], cuja su- perfície interna é despolida, e irregular, e de- sempenha, em relação ao sangue, o papel de corpo extranho, se formam d'emblée camadas fibrinosas.
Os coágulos fibrinosos' nem sempre tem esta origem ; resultam, a maior parte das ve- zes, da transformação progressiva dos coágu- los fibrino-globu lares, como o mostram as ex- periências e observações de Renault, Bouley, Bouchut, Briquet, etc.
Os dois primeiros auctores ligaram a jugu- lar interna a um animal e no fim d'oito dias encontraram acima do ponto laqueado, um coa-
guio ainda molle e de côr escura, mas em que já se notava a estratificação.
N'outras experiências viram que a estrati- ficação era tanto mais nitida e a côr das ca- madas tanto mais branca, quanto mais affasta- da é a epocha em que se examina o coagulo, depois da laqueação.
O mesmo phenomeno foi observado por Bouchut nos casos de phlegmatia alba ãolens e por Briquet na saphena d'uma mulher a quem tinha ligado esta veia, etc.
0 que se dá nas veias, dá-se também nas artérias, nos derrames sanguíneos das serosas e nos focos apopleticos.
Não é preciso muito tempo para que a transformação completa se dê ; bastam apenas quinze ou, quando muito, vinte dias, como Ri- chet e muitos outros tem observado.
Em face de tudo isto, conclue Richet que coágulos primitivamente molles, fibrino-globu- lares, se descoram, endurecem, tornam-se fl- brinosos e affectam a forma de laminas sobre- postas.
Nos aneurismas dá-se o mesmo phenome- no que nas artérias, veias, serosas e focos apo- pleticos. E' o que frequentes vezes se observa quando se provoca a coagulação em massa do
67
sangue dentro do aneurisma ; a evolução ulte- rior do aneurisma em nada diffère dos casos em que ha deposição d'emblée de coágulos fl- brinosos, isto é, o tumor diminue de volume, endurece, e dá á palpação a sensação d'um tu- mor fibroso.
Isto é devido a que os coágulos primitivos, privados pela absorpção das suas partes liqui- das, ficam reduzidos a essa massa fibroide que representa os seus elementos sólidos conden- sados.
A inflam mação, quando moderada, favo- rece a formação de coágulos susceptíveis de se tornarem fibrinosos; o tumor oblittera-se, en- durece e, se a inflammação se propaga á arté- ria, esta oblittera-se também. Em seguida o tumor diminue de volume, ficando mais tarde reduzido a um nódulo duro como que fibroso, adhérente ás paredes do sacco.
Se a inflammação é muito intensa, os pro- ductos segregados em abundância pelas pare- des do sacco, amollecem os coágulos ainda re- centes, e estes encontram-se mais tarde reclu- duzidos a uma borra negra, contendo detritos de coágulos molles.
Como se opera a transformação dos coágu- los fibrino-globulares em fibrinosos?
Richet, d'accordo com Malgaigne, admitte que a retracção do coagulo expremendo uma parte do soro que o embebe, auxilia a trans- formação, mas que o principal papel cabe sem duvida á absorpção, tirando ao coagulo o resto das partes sero-albuminosas e uma grande por- ção de glóbulos.
E' só pela absorpção que grandes derra- mes sanguíneos desapparecem em alguns dias.
Oblitterado por coágulos fibrinosos o sac- co só, ou com a artéria até ás principaes rami- ficações d'esta, o coagulo retrahe-se, as partes liquidas são reabsorvidos e, ou só o sacco fica reduzido a um tumor carnoso conservando-se a artéria permeável, ou a artéria fica reduzida também a um cylindro cheio; em qualquer dos casos a oblitteração do sacco deve ser consi- derada como definitiva.
Algumas vezes o coagulo retrahe-se a tal ponto, que quazi desapparece.
Richet, admitte como Broca, reincidências promptas e tardias, mas limita-se a apontar os factos, a criticar a interpretação de Broca, e quando lhe chega a vez de emittir opinião so-
69
bre tal phenomeno, diz: «La vérité est que la cause des récidives est encore á trouver, et que les différences individuelles clans la plas- técité du sang y jouent sans doute le principal rôle.»
E' natural que a pouca plasticidade do san- gue influa poderosamente na coagulação ; masr
uma vez formado o coagulo, este deve sof- rer a mesma evolução que qualquer outro. Que o aneurisma continue a pulsar depois da laqueação da artéria, porque o sangue, vindo pelas collateraes ao sacco não encontra os coá- gulos formados em virtude do sangue ser pouco coagulavel, comprehende-se, é lógico ; que o mesmo phenomeno se dê quando os coágulos são recentes, muito molles, é natural; mas, apresentando-se o tumor, durante mezes ou annos, duro, não pulsátil e indolente, ou por outra, cheio de coágulos fibrinosos, duros, pa- rece-nos que todo o argumento tirado da plas- ticidade do sangue para explicar a reincidência, tardia, não tem valor algum.