A gênese de gestação desse fenômeno religioso está ligada, segundo Leonildo Silveira Campo10, às experiências empreendidas por George Fox, em 1630, ao criar uma sociedade de amigos que defendiam o relacionamento pessoal com Deus a partir da direção e intervenção do Espírito Santo na vida do crente. Ridicularizados com o nome quakers ou “tremedores” pelos
9 HERVIEU-LÉGER, Danièle. Le pèlerin et le converti : la religion en mouvement. Paris, Flamarion, 1999.
10 V e r R e v i s t a : E c l é s i a : a r e v i s t a e v a n g é l i c a d o B r a s i l . A n o 1 1 , E d i ç ã o 1 1 8 , P o r t u g a l , j u l h o d e 2 0 0 7 .
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anglicanos, eles relatavam e insistiam que manifestavam com freqüência o derramamento do Espírito Santo, ao mesmo tempo em que falavam em línguas estranhas (glossolalia).
Mas foi a partir de 1735, com a manifestação do choro compulsivo, de tremores, quedas e arrependimentos de multidões que marcaram as reuniões de homens, tais como: Jonatham Edwards, John Wesley e George Whitefield, bem como pela da insistência na constatação da manifestação dos dons de pentecostes, que Jonh Wesley passou a liderar um movimento de
“avivamento espiritual” , do qual se originou o Metodismo.
Esses ensinamentos migraram para os E.U.A durante o processo de povoamento daquele país e em 1830 o evangelista Chates G. Finney começou a promover reuniões que produziram avivamentos em diversas cidades no interior dos Estados Unidos. O segredo do sucesso quanto à explicação do trabalho de evangelização ser bem sucedido neste país, segundo Finney, residira no poder que este havia recebido do batismo com o Espírito Santo.
Nesse sentido, o Movimento Pentecostal originou-se a partir do metodismo, um tipo de religião emocional, combinada a uma conduta ascética que tem como propósito a obtenção da “certitudo salutis”, salvação pela graça (WEBER:1981). Mediado por ensinamentos deixados por John Wesley no final do século XVIII, um evangelista dissidente da igreja anglicana da Inglaterra e fundador do metodismo, o fenômeno pentecostal nasceria nos Estados Unidos da América como produto do movimento de “holiness metodista”, reavivamento da doutrina protestante nas comunidades negras norte- americanas.
O objeto de interpelação empírica nesse projeto, o “pentecostalismo cananense”, é o resultado direto de uma dessas descontinuidades processadas dentro da doutrina protestante, a partir da dissidência ocorrida dentro de corpo eclesial da igreja Evangélica Assembléia de Deus
Templo Central do Brasil, asseverando o caráter genérico com o qual podemos classificar essa
denominação como evangélico-pentecostal, bem como, também, demonstra a natureza genética dessas desfiliações (ethois) religiosas, geradoras da manutenção e conseqüente expansão da doutrina protestante ao longo de um processo de secularização iniciado desde o século XVI.
Retrato iconográfico de John Wesley do fundador do Metodismo
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De acordo com Ricardo Mariano (2006) 11, as religiões cristãs não-católicas, como as evangélicas, têm sua origem no começo do século XVI, quando um monge alemão chamado Martinho Lutero se insurgiu contra Roma. Para Mariano, foi no ano de 1517, revoltado com a venda de indulgências praticadas pelo papado, que Lutero escreveu suas famosas 95 teses afixando-as na porta da catedral de Wittenberg. Este teria sido, segundo Mariano, o estopim da Reforma Protestante, que se tornaria uma das mais profundas transformações sociais da história humana no Ocidente. Com o tempo, do tronco protestante anti-papal foram brotando dezenas de denominações protestantes a manifestar uma das principais características desse fenômeno religioso, qual seja, a de constituir dissidências doutrinárias (ethois) capazes de liberar e impulsionar a expansão deste nomos religioso ascético, de natureza intramundana.
Para Mariano (2006), a mais importante destas cissiparidades é a do pentecostalismo, criada pelo pregador negro norte-americano William Joseph Seymour, nos E.U.A, constituindo-se como uma verdadeira “explosão de fé”, demonstrada pelo fato de que hoje há mais pentecostais no mundo do que anglicanos, batistas, luteranos e presbiterianos somados. O Fenômeno Pentecostal, portanto, é fruto de um processo iniciado desde a reforma protestante, no século XVI, passando pelo metodismo anglicano de onde originaram-se cismas quanto à prática religiosa sustentada pela ênfase nos frutos da crença, justificada por uma conduta qualificada, tida como sinal de graça e redenção.
Foi dessas divisões ocorridas no seio das igrejas protestantes tradicionais que nasceram os primeiros sinais do Movimento Pentecostal. Estas manifestações deslocaram-se já no início do século XIX para os Estados Unidos da América e foi neste país que o Pentecostalismo surgiu a partir das experiências vivenciadas por Charles Parham e W.J Seynow, entre as comunidades negras norte-americanas. Segundo Campos (2007), o que aconteceu nos Estados Unidos no começo do século XX foi uma experiência incrível, mas não única, pois desde os primórdios do cristianismo tem acontecido o derramar do poder divino sobre os homens. Essa busca se intensificou ao longo do século XIX, quando europeus e norte-americanos já vinham buscando uma renovação semelhante, de olho na “chuva serôdia” que, segundo as Escrituras, ocorreria antes da volta de Cristo. “Era uma época de profundas transformações sociais, crescimento
urbano, pobreza e materialismo. Tudo isso criava muita sede por Deus. Revivalistas como Charles Finney e Dwight Moody prepararam o caminho, trazendo o povo de volta às igrejas”,
explica Leonildo Silveira Campos (1999), professor de Sociologia da Religião na Universidade
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Metodista de São Paulo e organizador do Fórum sobre os 100 anos do Avivamento da Rua Azusa, realizado no Brasil em 2007.
A época surgiram inúmeros relatos de experiências sobrenaturais, tais como a manifestação do falar em línguas. Mas a experiência só foi sistematizada em 1901. Em outubro do ano anterior, Charles Fox Parham, um pregador metodista da linha de santidade, e sua esposa, resolveram descobrir qual era o segredo da “fé apostólica”, acompanhada por milagres, curas e sinais, coisas que não eram tão comum em seu tempo. Para tanto, resolveu abrir uma escola bíblica em Topeka, interior do Estado norte-americano do Kansas. Parham alugou barato uma mansão com um magnífico pavimento térreo e um segundo andar feito com materiais de segunda linha. A construção era objeto de pilhéria na cidade e apelidada de “a tolice de Stone”, em alusão a seu proprietário original, que não teve dinheiro para terminá-la.
Depois de altos e baixos na tentativa de divulgar essas experiências, Parham abriu, em 1905, sua escola em Houston, Texas. Um de seus alunos mais promissores era William Joseph Seymour, um ministro negro, de origem social humilde e
cego de um olho. Por causa das leis de segregação racial daquele tempo, Seymour só tinha autorização para sentar no corredor, ao lado da porta da sala de aula e ouvir o que Parham e outros lecionavam por uma fresta. Não tinha permissão para orar junto com os outros pelo batismo no Espírito Santo. Apesar disso, recordava palavra por palavra tudo que os professores falavam, como comenta Leonildo Silveira Campos (1999).
Diz o autor que em 1906, mesmo sem ter recebido o derramamento do Espírito, Seymour foi convidado a
pregar em uma igreja de Los Angeles. Porém, no dia seguinte, após ensinar o batismo e falar em línguas, encontrou o templo trancado com um imenso cadeado na porta. Um casal da igreja não concordou com a grosseria e o convidou para continuar os estudos bíblicos em sua casa, na Rua Bonnie Brae, 214. Ali, durante três dias, ele ensinou e conduziu orações. No dia 9 de abril,
Fotografia do busto de Fox Parham
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enquanto pregava, as pessoas repentinamente começaram a falar em línguas, rir, clamar e cantar. Seymour teve a mesma experiência alguns dias depois, após passar quase uma noite inteira em oração.
Relata Campos que a notícia correu e logo a casa ficou cheia de interessados e curiosos. Porém, com tanta espontaneidade, brados de “Aleluia”, cânticos exaltados, palmas e batidas com os pés, a residência começou a estremecer. Depois de um “glória a Deus” mais alto, o assoalho desabou. Segundo os relatos, ninguém ficou ferido, mas estava claro que precisavam de outro lugar para os cultos. Encontraram o espaço ideal no número 312 da Rua Azusa e rapidamente retomaram as reuniões.
Os fatos que se desenrolaram ao longo dos três anos seguintes, segundo o autor, foram notáveis, mas também causaram muita controvérsia. Agora conhecida como a “Missão da Fé
Apostólica”, a nova igreja não demorou para se tornar a maior deste ramo, com cerca de 1,3 mil
pessoas freqüentando seus cultos, realizados de forma espontânea na parte térrea do galpão, três vezes por dia e sem intervalos.
A constituição destas seitas e comunidades protestante-pentecostais nos E.U.A. passou a ter uma forte influência sobre as associações e instituições modernas nesse país, representando no início do século XX um forte impulso de mercado, frente à consolidação da democracia norte- americana (WEBER: 1964). Como decorrência da conquista da liberdade religiosa e econômica, passou-se a exigir do homem de negócios (gentleman), em certos estados e regiões dos E.U.A, um atestado de qualificação moral ou certificação de crédito, necessários a partir de um contexto de competição financeira instaurada.
É nesse sentido, segundo Leonildo Silveira Campos (2007), que há exatos cem anos, entre os anos de 1906 a 1908, iniciou-se um movimento que mudaria para sempre as feições da fé cristã contemporânea. Em um antigo prédio na Rua Azusa, em Los Angeles, nos Estados Unidos, um grupo de crentes pentecostais passou a manifestar e atestar pela crença experiências espirituais semelhantes àquelas narradas entre as primeiras Comunidades Cristãs.
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