A interação entre os sujeitos participantes desta pesquisa com seus interlocutores materializa uma relação comunicativa que fortalece os propósitos da mediação, ou seja, funciona como uma interferência cujo propósito beneficia os blogueiros, uma vez que os encoraja a estabelecer contato e a desenvolver uma interlocução motivada pela intervenção.
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Nesse contexto, a interação opera com propósitos de mediação semelhantes àqueles aos quais Vygotsky faz menção. Por essa razão, a trataremos como ação mediadora e indispensável para a expansão do blog, pois estimula sua manutenção no contexto histórico-cultural atual, em que as relações virtuais se fortalecem e são cada vez mais requisitadas em processos de aprendizagem diversos.
Evocando a teoria da atividade histórico-cultural, criada por Alexei Leontev, amigo e discípulo de Vygotsky, observamos que esta evoluiu por meio de três gerações de intelectuais (ENGESTRÖM, 2013), mas foi Vygotsky, pesquisador da primeira geração, quem criou o conceito central da tese: a mediação, que, a partir da dimensão histórico-cultural, efetivou-se por meio do modelo triangular, exemplificado na figura 5.
Figura 5 – Modelo do ato mediado de Vygotsky
Adaptado de Illeris, 2013, p. 70.
Por meio deste modelo, Vygotsky estabeleceu uma relação entre o estímulo e a resposta transcendida por um ato mediado. Essa tríade pode ser melhor compreendida quando se reflete que, para cada nova ação, o sujeito é influenciado pelo objeto e pelo artefato mediador, como se vê na figura 6.
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Figura 6 – Reformulação comum do modelo do ato mediado de Vygotsky
Fonte: Illeris, 2013, p. 70.
Com base nesse movimento, Engeström (2013) afirma que o sujeito é compreendido sob a influência do seu meio cultural, e a sociedade passa a se desenvolver a partir da agência de indivíduos que usam e constroem informação. Logo, os objetos podem ser interpretados como entidades culturais, e a orientação para a execução da ação sobre ele é elemento significativo para a compreensão da psique humana.
A ideia de mediação tem implicações importantes acerca do controle, pois como não se tem o controle total das influências internas e externas, este conceito envolve aspectos intelectuais - que dependem do potencial - e, também, estímulos - colocados no interior da operação para estabelecer elos. Esses elos são estímulos de segunda ordem e, de acordo com Vygotsky (1994), cria uma nova relação entre estímulo e resposta. De acordo com o teórico,
Esse signo possui, também, a característica importante da ação reversa (ele age sobre o indivíduo e não sobre o ambiente). (...). Na medida em que esse estímulo possui a ação especifica de ação reversa, ele confere à operação psicológica formas qualitativamente novas e superiores, permitindo aos seres humanos, com o auxílio de estímulos extrínsecos, controlar o seu próprio comportamento (p. 53-54).
Nessa passagem, Vygotsky nos explica que os seres humanos controlam a si mesmos de fora para dentro, utilizando os sistemas simbólicos, culturais; por isso o autor, em sua teoria, evidenciou importantes mediadores: signos e símbolos, atividades individuais e relações interpessoais.
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Segundo Daniels (2003), pela perspectiva da análise do modo semiótico de mediação: a língua – o mais eficaz dispositivo semiótico – constrói-se a consciência individual. Além disso, o sujeito também constrói seu próprio sentido com base em significados construídos socialmente. É importante mencionar que, por meio do discurso, a mediação se fortalece. Por meio do discurso interior, o discurso dos outros e com os outros se torna discurso para si mesmo; pelo discurso egocêntrico há uma transição entre a fala ordinária e o discurso interior; já a voz social torna-se voz interior, ou seja, as circunstâncias sociais dão origem a mudanças nos padrões de construção.
Ivic (1989) explica que Vygotsky estava preocupado com aspectos metacognitivos de aprendizagem, por isso demonstrou a importância da assimilação de conhecimento, da interdependência de conceitos e da ação de modelos externos para a realização do indivíduo e para o domínio dos processos cognitivos; todavia Vygotsky também deu particular importância aos fatores biológicos e diferenças individuais, pois, em suas observações sobre a defectologia (2011), deixa claro que essas diferenças fazem surgir diferentes formas de mediação social que provocam diferentes tipos de desenvolvimento. Vygotsky estendeu sua análise do desenvolvimento psicológico para além dos processos cognitivos e também passou a investigar a motivação como meio de alcançar estágios mais elevados de aprendizagem.
Para Daniels (2002),
A tendência de Vygotsky a abordar a noção de cultura através da mediação reflete o fato de que ele concebia a cultura em termos de sistemas de signo. (...) A visão semiótica vygotskyana de cultura deriva provavelmente do trabalho de Saussure, que foi muito influente entre os linguistas russos dos anos 1920 (p. 72).
De acordo com Moll (1990), Vygotsky, em sua teoria, apresenta o homem como único ser vivo detentor da capacidade de ensinar e beneficiar-se da instrução:
A contribuição primordial de Vygotsky foi desenvolver uma abordagem geral que inseria totalmente a educação, como atividade humana fundamental, numa teoria do desenvolvimento psicológico. A pedagogia humana, em todas suas formas, é a característica definidora de sua abordagem, o conceito central de seu sistema (MOLL, 1990, p. 15.)
Vygotsky problematizou a maneira pela qual as implicações psicológicas de fatores sociais, culturais e históricos poderiam ser teorizadas e iniciou o desenvolvimento de métodos para criar formas apropriadas de investigação e intervenção. Como seu
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trabalho envolvia diferentes áreas do conhecimento, seu estudo é fundamentado a partir da leitura de autores da filosofia, da psicologia, da sociologia e da política europeia.
Vygotsky trabalhou junto com Lúria e Leontiev acerca do papel da mediação para a compreensão de como a cultura é importante para os processos psicológicos, assim como as propriedades mediacionais. O autor seguia o preceito de que educação e desenvolvimento possuem estreita relação. Todavia não podemos nos esquecer de que os processos de mediação operam com elementos (palavras, textos, práticas) selecionados a partir de propostas de ações em que os significados serão formados por meio da influência de perspectivas variadas; portanto, nessa conjuntura, o processo mediacional inclui o posicionamento do mediador, que, durante a mediação, apresenta sua compreensão social, cultural e histórica.
De acordo com as ideias de Vygotsky, mediação, em termos genéricos, “é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento” (OLIVEIRA, 2002, p. 26).
Além disso,
O processo de mediação, por meio de instrumentos e signos, é fundamental para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, distinguindo o homem dos outros animais. A mediação é um processo essencial para tornar possível as atividades psicológicas voluntárias, intencionais, controladas pelo próprio indivíduo. ” (OLIVEIRA, 2002, p. 33)
Considerando a mediação no contexto do letramento digital, pode-se aferir, com base na proposta de Vygotsky, que 1. a atividade tende a desenvolver-se a partir de mediação influenciada pelas características culturais, 2. a atividade é composta por vários níveis ou graus de desenvolvimento e 3. os processos internos ocorrem, inicialmente, no âmbito social que, por sua vez, está imerso em determinado contexto. Isso nos leva a compreender que a aprendizagem acontece a partir do entendimento de um contexto cultural e da prática de comportamentos que fortalecem os processos de desenvolvimento. Por intermédio da mediação virtual, ampliaram-se as possibilidades de ensino e aprendizagem, uma característica inerente ao atual momento, em que práticas comunicativas de várias gerações se realizam, frequentemente, no ciberespaço.
É necessário, no entanto, considerar a dimensão afetiva, já que esta apresenta uma relação significativa e indispensável para o resultado daquilo que o sujeito se propõe a fazer. É dessa forma que se mantem o desejo de continuar com a interatividade, neste
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caso, por meio da ação de blogagem, para utilizar a imensidade de recursos virtuais
disponíveis na internet. Vygotsky (2000a) esclarece que existe uma relação dinâmica ente intelecto e
afeto. Segundo o autor, isso comprova que
O sistema dinâmico de significados em que o afetivo e o intelectual se unem mostra que cada ideia contém uma atitude afetiva transmutada com relação ao fragmento de realidade ao qual se refere. Essa trajetória permite-nos seguir a trajetória que vai das necessidades e impulsos de uma pessoa até a direção específica tomada por seus pensamentos, e o caminho inverso, a partir de seus pensamentos até o seu comportamento e a sua atividade (VYGOTSKY, 2000a, p. 9-10).
Pelo exposto, compreende-se que separar intelecto e afeto é um equívoco da psicologia tradicional, uma vez que a influência do pensamento sobre o afeto e a volição apresentam o caminho para a solução de muitos problemas de relevância vital.