Definir a notícia não é tarefa fácil no campo jornalístico. Encontramos entre os estudiosos da área diferenças de perspectivas e de detalhamentos, mas um ponto comum refere-se à proximidade com o fato. A partir de um conceito mais basilar, compreendemos que a notícia refere-se ao “relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou
interessante” (LAGE, 2005, p.17). Desse modo, vemos que o próprio conceito de
notícia leva-nos ao modelo de escrita do texto jornalístico conhecido como pirâmide invertida. Nesta, são apresentados primeiro os aspectos mais importantes da notícia,
capazes de responder às perguntas basilares do jornalismo: O quê? Quando? Onde? Como? Quem? Por quê?. As respostas dadas a essas seis perguntas constituem o que chamamos no jornalismo de lead ou, de forma pragmática, o primeiro parágrafo da estrutura formal do texto noticioso. Usualmente, os manuais de redação orientam aos profissionais que busquem responder tais perguntas logo no início do texto, de modo a satisfazer a curiosidade do leitor.
Lembramos aqui o contrato (informante/informado), proposto por Charaudeau (op.cit), que cumpriria o papel das seis questões acima citadas. Desse modo, o leitor
“curioso” satisfaz sua necessidade de informação ao saber o que aconteceu, onde foi o
ocorrido, quais as pessoas envolvidas, as causas e circunstâncias do fato. A partir de então, posto o lead, o produtor da informação (jornalista) cuidará de apresentar mais detalhes sobre o ocorrido.
Na visão de Lage (2005, p.73), a notícia “expõe um fato novo ou desconhecido,
ou uma série de fatos novos ou desconhecidos do mesmo evento, com suas
circunstâncias”. Importa-nos destacar a noção de novidade e de ordenação de
importância dos fatos, frisada por Lage. Assim, ela surge como resultado de seleções e exclusões das fases de apuração e produção das informações. A partir da visão desse pesquisador, retomamos a noção seletiva cunhada pelas teorias do jornalismo, do mesmo modo que recuperamos de forma mais prática a produção da notícia.
Voltemos ao gênero.
Outra característica sua refere-se à narratividade. Ao retratar o fato, o jornalista se empenha em manter a sequência dos acontecimentos e constrói, portanto, um texto marcado pela narração de fatos. Configura-se, pois, uma característica estrutural importante para a demarcação do gênero ao qual nos referimos. Nas palavras de Charaudeau (2008, p.153), para que haja uma narrativa é preciso “um contador (...) investido de uma intencionalidade, isto é, de querer transmitir alguma coisa (...) a alguém, um destinatário (...), e isso, de uma certa maneira, reunindo tudo aquilo que
dará sentido particular a sua narrativa.”
A descrição que o linguista faz do modo de organização narrativo aproxima-se sobremaneira daquilo que observamos no texto jornalístico. Há sempre um contador (o jornalista) que busca transmitir algo (o fato) a alguém (seu público alvo).
A mescla entre a narração do jornalista em terceira pessoa e os depoimentos de testemunhas marcam também o discurso jornalístico. A proposta da notícia é que a
diversidade de pontos de vista de profissionais e testemunhas dos fatos, conhecidos como fontes jornalísticas, contribua para narrar o acontecido e organizar a notícia de forma harmoniosa.
A verossimilhança constitui outro ponto capital da produção noticiosa. Por mais que o jornalista se empenhe em dizer a verdade e relatar os fatos tal como eles aconteceram, sabemos que discursivamente é difícil manter a isenção na produção de textos. As várias escolhas que o jornalista faz durante o processo de produção já estabelecem a sua participação como sujeito na elaboração discursiva da notícia. Sendo assim, ele se empenha em apresentar a verdade dos fatos e, não conseguindo fazê-lo de forma perfeita e ideal, apresenta a versão mais próxima da realidade, portanto, chamada aqui de verossimilhança.
Aliam-se a essas características, a perspectiva da atualidade e do imediatismo da notícia. Para ser interessante, é preciso que a narração do fato seja atual, recente e imediata. Charaudeau (2007) pontua a novidade como elemento essencial na definição do gênero. “Propomos chamar notícia a um conjunto de informações que se relaciona a um mesmo espaço temático, tendo um caráter de novidade, proveniente de uma determinada fonte e podendo ser diversamente tratado” (CHARAUDEAU, 2007, p.132, grifos do autor). No ambiente jornalístico, costuma-se afirmar que “notícia boa é notícia
quente”; ou seja, interessa ao leitor aquela notícia saída do forno, que acabou de
acontecer e já é logo contada, narrada ao destinatário20.
Juntamente com as características da notícia, faz-se necessário comentarmos a compreensão de valor-notícia, ou seja, aquilo que dá a notícia seu caráter, que a categoriza enquanto tal; eis outro ponto importante para a nossa concepção do gênero. Podemos citar como valores notícia as características: proximidade, novidade, localização, interesse público, dentre tantos outros critérios responsáveis por dar à notícia o seu caráter específico. Dessa maneira, se um fato é novo, próximo do leitor, interessante para o público e apresenta certo grau de ineditismo torna-se, portanto, noticiável. Vale salientar que muitas vezes termo valor-notícia é tomado por sinônimo de critérios de noticiabilidade, usados para definir os valores que regem as relações noticiosas na imprensa. Mais adiante o estudaremos com mais detalhes.
20 É importante ressaltar que com o desenvolvimento da internet, surge uma nova configuração nos
moldes do jornalismo: a atualidade e o imediatismo ganham outros contornos com a internet. Nosso objetivo não é discutir tal reconfiguração, por isso apenas a situamos na atualidade.
Em busca de uma melhor categorização da notícia, Bonini faz um inventário dos gêneros no jornalismo como forma de salientar também as dificuldades de se estabelecer um consenso sobre as características compósitas de tal tipo de texto.
Segundo o pesquisador, “o gênero (...) é entendido como representação característica do
texto que ocorre como enunciado pleno ou recorte” (BONINI, 2003, p.210). Para ele, o gênero se caracteriza pelo reconhecimento de marcas linguísticas, de suporte e de circunstâncias, sejam elas enunciativas ou em relação ao meio social. O autor também recorda que para os manuais de jornalismo a concepção de gênero é fixa, passível de ser compreendida em sua forma técnica. Basta lembrar que os próprios manuais nomeiam a
“gramática da notícia” como a forma correta de se escrever uma notícia. Essa forma
estanque de compreender o gênero leva-nos a pensar em uma estrutura formal e imutável. Porém, de forma prática, vemos os gêneros se moldarem e se remoldarem de acordo com diversos critérios e situações distintas, a exemplo da influência exercida pelo pensamento editorial da empresa jornalística, ou mesmo pela intencionalidade por trás da publicação. Pensamos, pois, em uma perspectiva mais fluida para os gêneros.
Destarte, definir o que é notícia implica estabelecer determinados critérios que esbarram na maneira de pensar de cada instituição jornalística. São os critérios de noticiabilidade que definem aquilo que é ou não notícia para cada mídia. É o que veremos a seguir.